Ela estava novamente naquela maldita cidade e cada parte do seu corpo odiava aquilo. A neve branca que caia atrapalhara seu voo e por isso era obrigada agora a percorrer toda a cidade caminhando, mas ela não se importou muito com isso. Era apenas mais um motivo para prolongar seu tempo longe dali, seus dias de vida tranquila haviam acabados e essa realidade quase a fez dar meia volta. Um, dois, três. Terceiro quarteirão do bairro, com o tempo ela havia esperado esquecer tudo relacionado aquele lugar, mas sua memória era boa o suficiente para se lembrar o endereço. Respirou fundo. Quais mentiras teriam contado á pequena Anne? Qual história para justificar seu desaparecimento?
Irina revirou os olhos e bateu a campainha, tirou algumas das pequenas gotículas brancas de neve do longo cabelo negro e esperou. Esperou por demorados minutos até abrirem a porta.
_O que você está fazendo aqui? -Foi a primeira coisa que ela ouviu antes de focar no ser ruivo a sua frente. Os cabelos alaranjados tão vívidos como o sol estavam presos em uma trança preguiçosa, e seus grandes olhos azuis a fitavam de forma dura.
Anne cruzou os braços e engoliu o choro que havia guardado nos últimos anos, havia sonhado com aquele momento. As vezes, ficava imaginando que a prima voltaria e a tiraria dali, para que as duas fossem brincar na casa abandonada no fundo da tia Nelí, imaginava como se ela continuaria maior e se seu perfume continuaria o mesmo, fazia isso muitas vezes até adormecer.
A prima, de cabelos negros e pele tão clara como a neve que havia estragado o dia ensolarado. Anne gostava de dias claros, sentia o cabelo brilhar enquanto dançava ao redor de fogueiras ou pelo pátio em tardes quentes. Mas havia sido um dia frio, daqueles que são bons para tomar chocolate quente, e para ficar entre as cobertas, ou se você era daquela família, dias bons para passar roupa. Irina, continuava com os olhos vazios como sempre, de cor azul tão cinza quanto Anne se lembrava. Ela costumava inveja-la por aqueles olhos._Estava você sabe, matando pessoas na redondeza e decidi que queria uma vítima ruiva -Irina deu de ombros e não reprimiu seu mínimo sorriso de lado. Muitos costumavam dizer que aquela era sua marca, a última visão de suas presas. _Ou eu posso ter sentido saudades da minha priminha. Quem sabe? -Brincou indiferente, saboreando as palavras antes de as soltar em um sorriso. Esquivou-se da prima que apenas piscou, e fechou a porta, olhando-a agora sentada na escada da antiga casa. Inalou a dor daquelas lembranças que a invadiam como o cheiro de mofo dali. Aquela merda de casa com aqueles merdas que sempre foi obrigada a respeitar.
Se Anne apenas imaginasse o que estava fazendo por ela, talvez a tivesse abraçado e dito o quão ainda a amava, mas nunca imaginaria, então apenas revirou os olhos para a prima e a ignorou todo o trajeto até o quarto.
_Arranje outro lugar para dormir, deve ter algum prostíbulo por ai para você. -Disse rispidamente e se trancou no quarto. Irina a havia abandonado. Como ousava aparecer ali logo quando finalmente sua vida estava dando certo? Jack parecia finalmente a enxergar após anos suspirando acordada com ele! Seis anos sem um sequer telefonema, e continuava tão egoísta como sempre. O que havia feito para merecer uma vadia assim como prima?
_Boas vindas para mim -Irina cantarolou e suspirou se levantando da escada pronta para sair dali. Mas algo a chamou a atenção, uma pequena mancha no assoalho. Até hoje não tinham tirado aquilo dali?
Ela jogou o cabelo lentamente para o outro lado e os deixou cair sobre o ombro enquanto sorria. Eles haviam a arrastado por aquele corredor, ela arranhou o piso e se debateu até que os dedos ficassem dormentes e sangrassem. Então a deram um sedativo e a jogaram em um sanatório.
_Irina? -Chamou uma voz trêmula e surpresa da porta, o típico som de medo que a excitava. Irina se virou devagar e sorriu olhando a mulher um pouco mais envelhecida na porta.
_Oi mamãe, a senhora estava com saudade? -Ela perguntou agora divertida e diminuiu a distância entre as duas, tocando a pele da mulher que a espancava durante a noite nos fundos da casa da Nelí, onde seus gritos de criança não podiam ser ouvidos. Onde costumava ficar com Anne e beijar meninos.
_M-mas...Você estava no hospício! -A mulher murmurou gaguejando e sentindo as pernas bambas. Jamais deveria ter adotado aquela menina com os cabelos sombrios. Mas não, tinha que ter o coração mole para essas coisas. Tentou conserta-la de todos os jeitos que sabia, chamou padres e todo o resto, mas o diabo vivia naquela pobre menina. Tão diferente da estonteante Lavígnea Anne, tão cheia de vida e que ajudava-a nas compras. Pobre Anne, irmã de uma filha do diabo. Ainda que fossem criadas como primas, somente a família sabia que elas tinham o mesmo sangue. Deixadas na porta da casa no mesmo cestinho.
_E eu continuo louca -Sussurrou Irina no ouvido da mulher que a criou, sorrindo e mordiscou o lóbulo do mesmo descendo a língua no pescoço da mulher, que se afastou assustada. A olhando como se fosse o demônio em pessoa. _Foi bom te ver, mamãe. -Irina comentou ainda sorrindo daquele jeito desconcertante, e saiu daquela casa tão ligeira como uma sombra.
Se não fosse a roupa molhada de urina e o pescoço ainda fresco com o toque da língua de Irina, Dona Maria acreditaria que havia sido apenas um sonho ruim. Mas sua calça permanecia molhada como a de uma criança e seu olhar ainda estava assustado. Irina estava realmente de volta, e só Deus sabe se iria mesmo ficar.
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Por favor, me ame.
FantasyTudo que Irina sempre buscou foi ser amada, mas nunca fez questão de de merecer esse amor. Que bobagem! Ela nem mesmo sabia amar. Separadas ainda jovens, Anne e Irina seguiram caminhos diferentes. Agora, frente à frente só resta uma dúvida: Há mesmo...
