Capítulo 1

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Eu só podia ser a pessoa mais azarada do universo! Não devia nem ter tirado os pés da minha cama hoje, ainda mais porque nem planejava ir a aula mesmo. Mesmo assim, acordei cedo e fiz minhas obrigações de casa, passei na papelaria para comprar mais alguns materiais para o cenário da peça, almocei com minhas irmãs mãe e com a minha mãe no restaurante em que ela trabalha, e tive a tarde livre para ficar em casa e repassar cada instante do roteiro, como se eu mesma fosse subir no palco. Não saí de casa e nem conversei com ninguém a tarde inteira, mas marquei com Flávia para organizarmos tudo na escola à noite.

Acabei me atrasando, e tive de ligar para minha tia Janete emprestar seu carro. Ela concordou, o que era uma baita responsabilidade, já que seu Uno era novinho e seu xodó. Além disso, eu havia tirado minha carteira há apenas um mês, mas ela não precisava saber disso. Antes de sair de casa, mandei uma mensagem para Flávia, informando que iria demorar um pouco.

Fui até a casa da minha tia buscar o carro, e ela me disse que poderia ficar com ele por uma ou duas semanas, se quisesse, já que ela estava de férias e planejava sair de casa apenas para comprar mantimentos. Me fez mil e uma recomendações, além de me fazer prometer que o manteria sempre brilhando e evitaria andar em altas velocidades.

Quando consegui sair pela estrada, já tinha quarenta minutos de atraso. Ótimo, minha amiga ia me matar. Mas até aí, eu ainda estava com sorte.

Estacionei o Uno um pouco torto, mas nem me importei. A chuva começava a cair, o que era normal para essa época do ano. Vesti meu moletom azul, agradecendo mentalmente à minha mãe por ter me lembrado de pegá-lo. Retiro dos bancos traseiros as sacolas com tudo o que comprei na papelaria mais cedo.

Fui para o portão principal da escola, que mesmo sendo pública, estava em ótimas condições. No primeiro andar, do lado direito ficavam as salas da quinta à oitava série, que eram divididas das do ensino médio pelo pátio. Na parte mais à esquerda, fica o refeitório e a cantina, que quase sempre não tem comida de verdade. A quadra fica no fundo, numa parte isolada e que é acessada através de um portão, do outro lado do prédio, sendo também uma das saídas de emergência.

No segundo andar, ficam as sala de Artes, o laboratório, a biblioteca e o auditório. Nesse último, são realizadas as reuniões de pais e professores, apresentações teatrais, noites de cinema e outros eventos. É meu lugar preferido na escola. Além disso, é lá que fica a diretoria, a área de serviço e a temida sala de detenção.

Tento abrir o portão, mas parece estar trancado. Tento ligar para Flávia mas ela não atende, e mesmo quando chamo por alguém que esteja do lado de dentro, percebo que isso não vai funcionar. A chuva estava mais forte agora, e logo logo estaria toda ensopada.Praguejo enquanto tento encontrar outra maneira de alcançar o segundo andar, e vejo que a janela da sala de artes está aberta. Mesmo achando isso bastante estranho, decido que é um sinal dos deuses para mim. Corro até a base da escada de emergência que fica do lado de fora do prédio e que possui um lance até uma pequena porta do segundo andar.

Subo até chegar perto o bastante da janela. Atiro as sacolas para dentro, e ponho um dos pés na beirada do corrimão. Lanço meu corpo pra frente, em direção ao parapeito e consigo me segurar, um tanto ofegante, em um dos lados da janela. Quanta emoção, penso. Respiro fundo e entro.

Estava andando pelo corredor quando tudo aconteceu. Uma garota baixinha esbarrou em mim, não tive tempo de dizer nada, enquanto ela pegava a minha mão e gritava um Vem comigo sobre os ombros. De início, segui sem entender nada, tentando reconhecer a menina à minha frente e o porquê de estarmos correndo. Foi só quando ela virou a esquerda e seu cabelo balançou que eu pude reconhecê-la.

Ana Clara Caetano.

-Pra onde a gente tá indo?-perguntei, ainda correndo. Mesmo que minha mente me dissesse para parar e agir conscientemente, minhas pernas pareciam ter vida própria, e aparentemente, obedeciam a outra pessoa.

EncurraladasWhere stories live. Discover now