Estava quase amanhecendo quando tentei abrir os olhos. Pude perceber isso porque comecei a sentir alguns respingos de orvalho sobre meu rosto, mas tenho quase certeza de que o ponto decisivo foi uma fresta de luz significativa que surgia a cada minuto no canto da sala. A cada minuto minha noção do que estava acontecendo aumentava. Ainda não conseguia levantar, no entanto a sutileza que esse novo começo me alcança deixava um ar de esperança brotar em meu peito.
Eu quero levantar. Eu juro que quero. Na minha cabeça essa é a mensagem principal enviada como um comando para o restante do meu corpo, só que após dois minutos de espera, nada aconteceu. Nada.
Estou vazia, sem forças. Meus olhos, antes dispostos a abrirem para olhar diretamente rumo ao foco de luz, agora começam a definhar. A se fecharem, a se curvarem contra mim. Penso sobre como fui parar nessa situação, mas não consigo achar espaço para memórias. Está tudo vago. Me sinto num labirinto onde todas as memórias foram minimamente cortadas em peças de quebra-cabeças e lançadas ao ar, cada minúscula peça agora se encontra espalhada num canto e soterrada pela relva escurecida, que me impede de identificar sua origem. Não consigo encontrar a mim mesma, nenhum pedaço do que é meu de direito parece querer ser encontrado. Sei que estou viva, mas isso não o suficiente para ter liberdade de escolha. Estou respirando, e por enquanto, é isso o que sei sobre mim.
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Dessa vez estava escurecendo quando comecei a abrir os olhos. Pude perceber isso porque o meu corpo estava congelando, e os respingos de orvalho de antes começaram a causar calafrio a cada toque em meu rosto, tenho quase certeza de que aquela fresta agora está trabalhando contra mim e o ar gélido que penetra o ambiente causa certo arrepio no que posso chamar de alma. Se eu ainda a tenho, ela deve estar sofrendo muito por ter que suportar tamanho desespero. A cada minuto esta sala permite que minha noção do que estava acontecendo aumente. Ainda não consigo levantar, não consigo. Decido organizar o que posso dentro da minha mente para enfim descobrir como lidar com essa situação. Então começo a ouvir passos... passos se aproximando.
- Como ela está? É apenas a terceira vez essa semana que sou chamado aqui. - Uma voz sobressaltada pergunta.
- Está calma agora. - Respondeu de ímpeto.- Não posso abster de deixá-lo ciente, senhor. - Essa voz me pareceu de alguém conhecido, mas não consigo me lembrar.
- Eu aprecio as tentativas de conforto, mas sinto que já não tenho mais porque me responsabilizar por ela.
- Senhor, eu...
- Não! Ouça bem, eu não quero mais ter vínculos de responsabilidades aqui. Nem deveria frequentar esses lugares, não desejo ter que participar de algo assim nunca mais. - Alguém disparou antes que o outro completasse a fala.
- Lamento muito não poder ter livrado seu envolvido desde o princípio. - Dessa vez havia um tom de compreensão com o outro.
- Eu sei que ela pode ficar bem. Eu acredito nisso, mas no momento não consigo lidar com toda essa sobrecarga que ela carrega.
- O que devo fazer agora?
- Deixe-a aqui.
- Por mais quanto tempo? Isso já se estendeu tanto. - Lamentou. Isso pareceu lamento e ao mesmo tempo também senti uma angústia no peito por tal constatação.
- Isso deveria depender dela e não de mim. Tenho uma vida agora, uma vida completa. Não posso mais tomar essas decisões. Faça com que ela entenda ou que ao menos queira entender.
- Entenda que não tenho como deixar algo tão importante assim nas mãos de alguém como ela. É perigoso. - Senti que abaixou o tom de voz nessa parte, mas não entendi muito bem o restante.
...
- Preciso que assine todos os papeis antes de ir embora.
- Faço questão de ir até sua sala agora mesmo.
As duas pessoas concordaram e decidiram seguir até o fim do corredor. Antes desse fragmento de conversa, o visitante incapaz de entender o resultado do último efeito, apenas verificou o estado da garota pela janelinha de ferro. Aquele momento seria decisivo para ambos. Seria um divisor de águas, onde cada nascente parte de um encontro para algo maior, ou não.
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Olá, tudo bem?? Este é o primeiro capítulo de Sozinha e Perdida. Eu sei que está curtinho, mas apenas decidi que era necessário uma abertura na estória antes que eu me desse por vencida e deixasse tudo guardado na gavetinha de ideia. Espero que gostem do que vem a seguir. :)
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Sozinha e Perdida
RomanceVivi um começo conturbado. Começo de vida, de amizade e relacionamento. Comigo mesma e com todos. Essa é quem sou no momento e o que me cercou fez de mim um pedaço de algo que tento descobrir, do que fazer com esse produto. É isso o que sei de mim e...
