Na minha infância, não havia homem capaz de enfrentar Marcela. Uma menina franzina e virulenta, que apesar da fraqueza aparente do físico, da pobreza na qual fora jogada sem nenhuma consideração por sua alma, e da escolaridade ora inacessível, ora pedante, havia nessa criaturinha o legado das senhoritas de mais alta casta: a altivez.
Ela morava na minha rua, na Vila do Paraíso, a duas casas da minha. Todo bairro era constituído dessas casinhas feitas para pobre, germinadas umas nas outras, e que demoravam uma vida inteira para serem quitadas. Algumas moradias eram modificadas ao longo do tempo, a gosto e de acordo com as finanças do dono. Cômodozinhos eram construídos sem qualquer arquitetura, com a capacidade engenhosa de toda uma vida de trabalho e necessidade. Mas a casa de Marcela ainda era como a projetada: um único quarto que dividia com a avó, no qual dormia aos pés da senhora num colchão ao chão, uma ínfima cozinha que suportava as refeições proferidas naquele espaço, com uma mesa de madeira e quatro cadeiras, um fogão sustentado por lenha e uns armários vazios mais velhos que a pequena residente. O banheiro ficava do lado de fora, com porta para a varanda, e era o lugar mais privado da casa, tanto por sua falta de espaço quanto por sua função.
Na vizinhança, era conhecida por todas as alcoviteiras como 'lesbiana', por causa de seu jeito marchante de andar e pela teimosia de não depilar os pelos já crescidos; e, também, pelos maridos das alcoviteiras, mas eles tinham formas mais sutis de chamar Marcela – mesmo que só entre seus íntimos: Marcelinha, Lili. Mas eu, que crescera e brincara com ela todas as tardes, que me sobpunha ante suas derrotas nas brincadeiras e que a espionava, através de um furo da porta, quando ela se banhava, eu a chamava de Marcelinda.
Não era linda a Marcela. Magra de genética e de ruindade, tinha os olhos fundos que mais pareciam duas cavernas ornadas em um rosto seco de bochechas escassas e ossudas, o nariz pequeno combinava e terminava em lábios finos e famintos de dentes amarelados, porém desenhados a esmero, e totalmente alinhados. O pescoço descia em saboneteiras profundas e escuras que encimavam um tronco ao mesmo tempo reto e esguio.
Marcela sorria, não pois tivesse muitos motivos para sorrir, mas por não ter com o que se preocupar. Apesar de seu desajustado jeito púbere e de suas ancas estreitas, Marcela exalava em suas formas certo apelo sexual, sem querer ou perceber. Ela não provocava os machos por questão ou desavergonhamento. Mas ela era a própria provação carnal de homens que, diante de Deus e do Estado, juraram fidelidade a suas esposas.
Lembro-me dos verões, do sol que penava em nossas cabeças e do mormaço que refletia no asfalto das ruas principais do bairro. Como eram quentes os dias de verão! Marcela e suas amiguinhas vestiam suas roupas mais leves e desgastadas, que todos nós já conhecíamos suas combinações de cores por todas as estações possíveis: shorts e saias não mais cobriam os joelhos das moças, eram pedaços de pano que se encurtavam nas pernas a cada ano que passava.
Na praça central do bairro, um chafariz mal feito e superfaturado fazia a alegria das crianças, naquela época. Todas as tardes, juntávamo-nos em volta das cusparadas aleatórias daquele gêiser desarranjado por natureza, e nos refrescávamos na mais profunda inocência e paz. Marcela adorava! Era como se lavasse seu corpo de toda sordidez do mundo e se esquecesse, enfim, das mazelas que carregava em seu espírito.
Lembro que brincávamos até perto da madrugada, que era quando nossas tutoras – nem todos viviam com suas mães, assim como Marcela morava com a avó, muitos tinham apenas alguns parentes mais próximos para zelar por suas cabeças e estômagos – nos tiravam da rua. Todo o bairro era só silencio depois de certa hora. Às vezes, podia-se escutar gritos birrentos de crianças antes do banho ou depois das chineladas, mas nada que saísse da rotina e nos chamasse a atenção.
Aquela quietude zombava dos nossos ouvidos. Eram tempos do regime e todo dia era coberto por um falso temperamento de calmaria no ar. Os camaleões – como eram conhecidos os policiais do exército designados a fazerem a ronda noturna na cidade – passavam por volta das onze horas, pontualmente, todos os dias, no nosso bairro. Eu sempre os observava pela janela da cozinha, enquanto percorriam minha rua na caçamba da caminhoneta. Sempre tão sisudos e entediados, pensava. Já Marcela não sossegava quando os camaleões cortavam a frente de sua casa. Todas as noites, a mocinha acenava com o entusiasmo próprio de uma pubescente reprimida durante o dia. A essa hora, sua avó já estava dormindo.
