Capítulo 1 - Pelos olhos dele

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Eram duas da tarde, um sol escaldante do lado de fora - e o ar condicionado marcava 17°C, estava com blusa de frio e gorro no verão igual os rockeiros da minha rua -, seria um dia típico em Sydney. Porém, aqui estou eu, em um consultório psicológico, obrigado pela minha mãe que me acha louco e quando eu menos espero, escuto passos, uns passos leves e calmos de alguém que aparenta transmitir bons conselhos e escutar o que eu tenho a dizer.

E lá estava ela, com aquele sorrizo sempre brilhante, bochechas um pouco caídas, cabelos indo do tom loiro para o branco e com aquela voz doce, falou:

- Michael, dirija-se para a minha sala se possível. Sua mãe ligou-me afirmando que tem problemas em sua "cabecinha", então vamos ver o que está acontecendo - Afirmou Nina.

Ela tinha por volta de uns sessenta e quatro anos, mas sua aparência era de alguém com quarenta anos. Ela usava óculos azul e vivia passando creme nas mãos, acho que devia ser uma maneira de anti-estress dela ou algo do tipo. Sempre fui tratado como criança por ela e igualmente pela minha mãe, nada fazia sentido, aquelas terapias e perguntas que elas sempre me fizeram nunca faziam sentido e nenhuma dessas perguntas ou terapias serviria para nada daqui um tempo, daqui um tempo eu esqueceria tudo o que aconteceu e seguiria em frente por mais doloroso que fosse o meu passado.

Quando eu finalmente parei de pensar e relembrar coisas do meu passado, levamtei-me da cadeira do consultório e a segui até a sua suposta "sala" pelo corredor. Notei as cores das paredes enquanto estava andando, as cores mudaram desde a última vez que estive aqui, elas eram rosa-bebê e hoje estão laranjas. Eu sabia que laranja era a cor preferida do falecido marido de Nina, mas por quê? Por que pintá-las de laranja? Isso não vai só trazer recordações dele, mas trará também sentimentos de perda, de falta, de saudade. Até a porta estava laranja, mas com um detalhe diferente, tinha a pintura de uma estrela e a maçaneta estava rosa-bebê.

Após Nina abrir a porta e me convidar para entrar, sentei-me na cadeira do paciente, a porta foi fechada e minha psicóloga sentou-se em sua cadeira. Agora estavamos nós, paciente e psicólogo, não era mais enteado e madrasta, ia-se começar uma conversa de psicólogo com seu paciente. E, sem pensar, disparei as perguntas que eu queria:

- Por que pintou as paredes de laranja sabendo que eram as cores favoritas dele? Por que até a porta está laranja? O que é aquela estrela na porta? Por que só a maçaneta da porta está rosa-bebê? - Eu estava fazendo as perguntas tão rapidamente que não dei brecha para ela responder, mas eu sabia que iria tomar um esporro ou algo do tipo quando ela começasse a responder.

Nina respirou, olhou para o teto, olhou para a aliança que ainda estava em sua mão esquerda - por que ela ainda usa essa aliança? eu tenho tantas perguntas, e a maioria ou não tem resposta, ou ela não iria me responder -, quando minha madrasta finalmente abriu a boca para falar, sua voz calma dominou o local no qual só se via a minha euforia e o meu nervosismo.

- Fique calmo porque em breve responderei suas perguntas, todas elas. Mas Michael, você está bem? - ela mal respondeu as minhas perguntas e já foi-me disparando a pergunta que todos fazem, e eu a respondi como respondo todos que me fazem essa mesma pergunta.

- Estou bem sim, por quê? - eu estava começando a ficar rude e também a falar em um tom um pouco mais alto, um tom de quem quer que as suas perguntas sejam respondidas pela sua madrasta e não que sejam cortadas pela psicóloga.

- Então me responda por que o senhor não para de olhar para a matéria do jornal na parede? - ela quis aumentar o tom da voz, mas preferiu continuar com o normal porque sabia que eu ia ceder, e eu realmente cedi porque eu certamente não parava de olhar para o quadro com o jornal.

Só quando ela falou do jornal, que pela primeira vez eu relembrei aquele dia, o dia em que eu amaria esquecer, o dia em que, se eu pudesse, eu mudaria. Eu não parava de olhar para o suposto quadro, todas essas lembranças faziam a minha mente se embaralhar, e com essa confusão em minha mente, eu comecei a sentir um turbilhão de sentimentos, tais como ódio, raiva, saudade, tristeza, mágoa, culpa, um sentimento de que eu deveria ter feito algo diferente para mudar aquele dia. Mas afinal, eu como um ser humano que tem dúvida de tudo, um ser humano quer pergunta sobre tudo, eu refletia em minha mente, por que ela guardou o jornal se ela foi a segunda pessoa que mais sofreu com a perda dele? Por que ela fez um quadro com o jornal? Por que ela deixa esse quadro em sua sala? Por que ela não esquece que ele se foi?!

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⏰ Son güncelleme: May 27, 2018 ⏰

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