O Quarto Branco, na minha frente.
Não quis acreditar enquanto não quis entrar. Por razões que agora não queria recordar. Estar em frente daquela porta que não parecia dar entrada para lugar algum era razão para minha farta inspiração.
Olhando-o, o quarto, ainda do lado de fora, sentia a ansiedade da promessa de tudo aquilo que esperava encontrar do lado de lá, apesar de todos aqueles que falavam do Quarto Branco me assegurarem de que nunca se atreveram a entrar, de todos aqueles que entraram nunca mais houve sinal.
***
Mas eu não tinha uma única razão para continuar cá fora (ou cá dentro); na verdade, o local onde agora ainda me encontro nunca me foi possível determinar. Na verdade, nunca soube se aquela era uma porta de entrada ou saída. E naquele instante, imobilizado em frente daquela porta, pensava nas razões das pessoas que em idêntica situação à minha faziam movimentar as pernas para dentro daquele lugar; se o medo do desconhecido, se a mórbida curiosidade, se a vontade de partir ou chegar, se o desejo de fugir ou a necessidade de esquecer.
***
Eu tinha as minhas razões, que por agora não posso revelar. Porquê? É muito simples; tenho medo de desaparecer, e a certeza de que se libertar essas memórias antigas elas imediatamente pegarão fogo e incinerar-me-ei à vista de todos, e irei sofrer a dor de mil infernos antes de me esfumar no ar. Só a ideia dessa dor e desse inferno foi capaz de me segurar. Mas sabia também que não conseguiria eternizar esse aprisionamento; é tudo uma questão de tempo. Precisava de me curar, e a promessa do Quarto Branco foi a ideia à qual me agarrei e nunca deixei escapar.
***
Durante três semanas pensei, indeciso, se devia entrar. Mas quando um dia um fogacho das imagens do meu passado atreveu-se a chamar-me, esse foi o instante que me fez movimentar; que me transportou para de frente daquela porta que, entre outras coisas, prometia a cura de todos os males de alma e, quiçá, do corpo. Como se determinou tal ideia nunca foi descoberto, enredada que está no mistério do funcionamento da mente humana, que não se sabe como se constrói ou funciona, pois na verdade saber tal coisa seria um empecilho para a própria existência do homem, como mais à frente se comprovará.
***
A realidade é que todos aqueles que se atreveram a espreitar para dentro do Quarto Branco, nos breves instantes de abertura da porta, sempre que alguma alma se convencia a entrar, nunca conseguiram vislumbrar qualquer corpo
morto estendido pelo chão, nem nunca de lá de dentro se cheirou qualquer tipo de putrefação. Cá de fora só se vislumbrava um mar branco e puro que parecia nunca acabar, não se percebendo fronteira ou limite para aquele lugar, apenas se constatando que quando alguém lá entrava este ia ficando cada vez mais pequeno à medida que avançava, até que desaparecia sem deixar qualquer marca ou sinal de ocupação. Era estranho. Mas, verdade seja dita, foi essa ideia de imaculado e tranquilo encolhimento que me convenceu; de que aquele Quarto Branco até podia ser um bom lugar para me esquecer. Os que souberam da minha decisão compareceram para me ver partir. Ou talvez não. Talvez apenas quisessem comprovar mais uma vez o mistério do Quarto Branco, validar novamente o seu estranho funcionamento e propriedades, ou talvez eles próprios estivessem, sem o saberem, caminhando em direcção à sua própria decisão de entrar e deixar para trás as coisas que não queriam mais ver. Mas vieram, e apenas isso importa. Despediram-se de mim como se eu partisse para uma arriscada expedição ao mundo polar sem levar trenó ou qualquer cão siberiano. Um deles, convencido que estava que não me voltaria a ver, achando já comprovado que era impossível dali regressar ou porque percebera que ele próprio nunca teria coragem para entrar, quase deixou cair uma lágrima de tristeza quando resolveu me abraçar. Fiquei hirto na angústia da minha incerteza, se devia ir ou ficar, mas um homem, depois de se despedir, não pode mais se arrepender; é para isso que servem os abraços e as palavras de despedida; para assegurar que, ainda antes de partirmos, o lugar onde nos encontramos já ficou para trás e foi ocupado por uma outra coisa qualquer. E quando isso percebi, embora sem nunca ter pensado em tais exactas palavras, chorei três lágrimas secas de emoção também, aproximei-me da soleira da porta já aberta, olhei para eles uma última vez e atrevi-me a entrar. O cheiro da minha transpiração foi a última coisa que me lembro de sentir.
Continua...
YOU ARE READING
O Quarto Branco
RomanceNascer ou não nascer, eis a verdadeira questão. Shakespeare não sabia do que falava. Se ele vivesse num Quarto Branco como o meu, nunca teria tido o desplante de escrever o que escreveu. E quando um homem é escorraçado para uma prisão minúscula ou...
