Eu amava morar no flamengo, a melhor coisa era descer e estar a poucos metros da praia. Aspirei o ar frio da noite, olhando para os lados, apoiada na mureta da varanda. A minha direita eu via muitas árvores e a praia. Ren latia abanando o rabo, a correia da coleira arrastando pelo chão. Era óbvio que estava louco para sair de casa para sua caminhada noturna. Acariciei seu pelo branco, enquanto ele tentava morder minha mão. De meias nos pés, peguei meus patins e fui até a porta, acompanhada pelo cachorro serelepe. Coloquei meus fones de ouvido e cliquei o play no celular, a voz inconfundível de James Hetfield invadiu minha cabeça. Sorri um pouco pegando Ren pela coleira e abrindo a porta. Em poucos minutos eu cumprimentava o porteiro e me sentava no banquinho do lado de fora da portaria para colocar os patins. A noite estava silenciosa, olhei o relógio e constatei que se passava das dez da noite, não havia notado que já era tarde. Havia pouco movimento de carro e quase nenhuma pessoa na rua. Para mim assim era bem melhor, então me pus a patinar até a via próxima a praia. Por incrível que pareça para fevereiro, estava bem fresco e haviam bastante nuvens no céu. A lua estava linda e eu não pude deixar de admira-la enquanto patinava tranquilamente sendo puxada por um cão agora mais calmo. Atravessei o gramado e as arvores do canteiro que dividia as pistas, nunca me lembrava o nome daquelas árvores, nem dos frutos marrons que enchiam o gramado a minha volta.
O cheiro de água salgada invadiu minhas narinas quando chegamos ao calçadão e eu suspirei satisfeita. Não tinha do que reclamar, amava morar à beira da praia, mesmo que não gostasse muito de sol. Na verdade eu não conseguia pegar cor, ficava apenas vermelha e dias depois sumia tudo. Fiquei dando voltas com Ren até conseguir deixar ele cansado, só assim ele sossegava quando chegasse em casa. Passado cerca de uma hora, decidi que era melhor voltar. Havia me afastado bem de casa, forcei as pernas a trabalharem um pouco mais e tomei o caminho de volta. Atravessei a rua com cuidado, mesmo com poucos carros sempre tinha um louco para vir a toda velocidade. Foi quando de repente Ren se soltou da coleira e saiu correndo para o meio das árvores do canteiro central. Estava muito escuro naquele pedaço, mas patinei rápido até subir na calçada, ainda assim perdi Ren de vista. Forçando a vista foi que notei que aquele lado da rua estava sem luz até onde minha vista alcançava. Tirei os patins ficando apenas de meias, amarrei o cadarço de um no outro e os pendurei no ombro. O latido de Ren se fez ouvir e eu pude me guiar até ele. Ren estava parado a uns dez metros a minha frente, latindo para algo que eu não podia ver.
- Fiat lux. – Sussurrei e uma bolinha de luz apareceu na palma da minha mão. A claridade fez com que eu pudesse enxergar alguns metros a minha frente, e eu olhei aflita para os lados rezando para que ninguém tivesse me visto.
A cena com que me deparei quando voltei a olhar para frente era digna de um filme, algo que eu nunca esperava ver na minha vida. Eu segurava Ren pela coleira e o puxava para trás afim de tira-lo de perto daquela luta. Um homem negro alto e muito forte lutava decidido com o que parecia ser uma onça ou uma pantera negra, mas sua aparência era estranha demais. Sim, agora eu podia ter certeza de que estava ficando louca, pois estava vendo uma onça negra lutar com um homem bem na minha frente. Bufei sacudindo a cabeça, aquilo só podia ser alguma peça que minha mente estava me pregando.
- Anda Ren, vem logo. – Rosnei para Ren que fazia força para a frente.
Então, tudo piorou. Eles ouviram minha voz e o cara simplesmente soltou o sorriso mais aterrorizante que eu podia ter visto. Ele era dez vezes mais assustador que o palhaço do filme It. Dei três passos para trás quando notei que ele passou a ignorar a pantera e vinha na minha direção.
- Ai minha Deusa. – Murmurei puxando Ren com mais força até ele ceder.
Comecei a correr na direção da minha casa, fechei a mão para apagar a luz na esperança de que nenhum deles me visse. Só que não havia pensado que eu também não veria quase nada e tropecei em algo, indo ao chão junto com um Ren que resmungava choroso. Bati com a cabeça e fiquei ali estatelada por alguns segundos. Ren se aproximou lambendo meu rosto e me empurrando, parecia querer me ajudar a me levantar. Sentei com alguma dificuldade, ainda zonza pela queda e levei a mão a testa. Senti que estava molhada e extremamente dolorida. "Ai" resmunguei para mim mesma enquanto me levantava.
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O Despertar
FantasíaUm encontro inesperado com o sobrenatural coloca a jovem em uma situação difícil. Com apenas um caminho a seguir, ela embarca numa busca por auto conhecimento e aprendizado. Em meio as atribulações causadas por seus dois companheiros de empreitada e...
