Nina

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Era o fim de semana dela. O quinquagésimo primeiro, se minhas contas estiverem certas.

Não devem estar. Gabi era a melhor em matemática dentre nós duas, eu sempre fui a "das artes". Me ocupava dos pincéis sujos enquanto ela calculava o orçamento do mês.

A verdade é que nada disso importa agora. Já se foram cinquenta semanas dela, cinquenta e uma semanas minhas, dá uns dois anos. E daqui a dez minutos ela vai tocar a campainha, pegar as malas, chamar as crianças, forjar um sorriso e desaparecer no Honda preto. Vida que segue.

Vida que segue. Ou quase. Dessa vez, o Matheus esqueceu o carregador do aparelhinho de vídeo-game (aquele que, como eu alertei, causa prejuízos para o desenvolvimento criativo e Gabi comprou do mesmo jeito) e ela teve que voltar para buscar. Trocamos palavras, quem diria?

— Lembra onde ele deixou?

— Deve estar na escrivaninha, no quarto dele.

Simples e sucinto. Como o nosso divórcio. Ou melhor, como a Gabi fez parecer ter sido. E olha que eu sempre fui de simplificar! Divórcio não é simples, estamos falando de vidas, de relacionamento, de amor e nuances do "existir" que só aparecem quando se convive com alguém — ainda mais quando esse alguém foi a Gabriela.

Foi barra começar, ainda mais continuar. As incontáveis saídas de armário — para a família, para o trabalho, para o mundo. O apartamento, escolhido em milhares de visitas. O primeiro, o segundo, o terceiro filho. E tudo acaba assim, puf, com assinaturas numa folha de papel.

A real é que, depois desse tempo todo, eu tô bem. Eu e Gabi não nos bicamos mais, os meninos mais velhos estão lidando com mais calma depois da terapia, a Alice adora a ideia de ter duas casas e brinquedos em cada uma delas. Eu tenho mais tempo para me dedicar à pintura e às minhas aulas na escolinha onde trabalho.

Tudo corre muito bem.

Já sem as crianças, eu cumpria meu ritual dos "dias de folga de maternidade da Nina": enrolar um pouco de tabaco sentada no sofá e observar a fumaça saindo da minha boca, enquanto esperava mais um toque da campainha.

Gabriel. O nome é só coincidência, não tem nada a ver com a minha ex.

Gabriel me cumprimentou com um beijo no rosto e buscou um lugar no sofá. Ele parecia animado, o típico cara de vinte anos.

— Qual a boa, Nina?

A boa? Bem, a boa é que eu vou terminar com você. Pois é. Respirei fundo. Foi um bom relacionamento, em suas duas semanas de duração. Só não foi o suficiente.

— Gab, eu não quero mais sair com você. Você é um cara legal, foram dias legais, mas acho que não vai rolar mais.

Direta. Mais um aprendizado do divórcio, cortesia da Gabi. E a situação realmente demandava uma conversa curta: eu já tinha outro encontro marcado para dali a pouco.

Gabriel até entendeu bem. Acho que já devia ter se preparado, era até previsível. Quando o chamei, disse que "queria conversar" e essa frase só tem um significado possível.

Era uma rotina, já. A cada duas semanas, um término novo. A cada duas semanas, um novo encontro marcado no tal Tinder (logo eu, a maior das celibatas virtuais, assídua no aplicativo de celular). Mal Gabriel saiu, peguei minha bolsa e saí também.

A match da vez não tinha foto, só um desenho de flores. Achei conceitual, diferente, a minha cara. "Não ligo para aparências", era a mensagem que eu mesma deixava, pois a minha foto de perfil também era um desenho.

Confesso que não foi só isso que chamou a minha atenção. Havia um nome: Gabriela. Embora uma parte de mim gritasse "para com essa palhaçada, Nina! Você não pode sair com as pessoas só por que elas têm o nome da sua ex!", outra parte fingia que não era tão ruim assim.

Quem sabe essa Gabriela não reescreve as coisas?

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