CORROMPIDO - Os Sete Pecados Capitais
O Sangue na Pista
A batida musical fazia as paredes vibrarem como se o próprio coração noturno da cidade pulsasse ali, forte e sem descanso, penetrando cada canto, cada móvel e cada pessoa presente. Luzes vermelhas profundas e reflexos dourados cortavam a fumaça espessa que pairava suspensa no ar, transformando rostos comuns em máscaras passageiras de desejo, dissimulação, vaidade e ambição. O álcool corria livre pelos balcões revestidos de mármore negro polido, escorrendo até as bordas dos copos, enquanto corpos se entrelaçavam, se moviam e se aproximavam sem reservas, embalados por um som grave que parecia penetrar até os ossos e apagar qualquer resto de juízo.
Todos que ali estavam tinham a absoluta certeza de que viviam apenas mais uma noite comum de prazer, fuga e esquecimento.
Estavam profundamente enganados.
No camarote principal, construído em ponto alto e afastado, de onde se dominava toda a visão do salão, ele observava em silêncio absoluto. Não fazia qualquer esforço para chamar atenção; ao contrário, bastava que estivesse ali para que qualquer um que ousasse cruzar seu olhar por mais de um instante desviasse o rosto depressa, tomado por uma mistura instintiva de fascínio e temor.
Trajava um terno preto de corte impecável, tecido fino e pesado, com o primeiro botão da camisa aberta - elegância sem exagero, mas carregada de uma autoridade que parecia fazer o ar ao seu redor mudar de peso. Os cabelos escuros caíam em fios suaves sobre a testa, e havia algo de sobrenatural, quase cortante, em seus olhos: dourados, brilhantes, capazes de enxergar muito além da aparência simples da carne, dos sentimentos momentâneos e das mentiras humanas.
Max.
Esse era o nome que usava e reconhecia no mundo dos homens. Mas o nome verdadeiro, gravado na origem de tudo, muito antes de qualquer língua existir, era Luxúria.
Carregava essa essência havia séculos incontáveis: muito antes que os primeiros grandes impérios fossem sequer desenhados em mapas, muito antes que qualquer livro de lei ou religião fosse escrito, muito antes que a própria humanidade aprendesse a dar nome aos seus instintos mais profundos e chamá‑los de pecados.
A boate Corruption era apenas um entre tantos espaços sob seu domínio, uma das muitas camadas do que construíra ao longo do tempo: um lugar onde os frequentadores acreditavam seguir livremente seus desejos, suas escolhas e seus prazeres, sem saber que, na verdade, eram apenas guiados, conduzidos e até alimentados por tudo o que ele representava e irradiava sem esforço.
Ao seu lado, recostado com toda a calma do mundo, estava Red. Alto, de ombros largos e cabelos loiros que pareciam sempre despenteados, vestia‑se com um ar de desleixo calculado - como se nada na vida valesse esforço excessivo. Era o mais antigo dos seus aliados, irmão de origem e confidente silencioso; quem melhor conhecia seus planos e segredos, e também quem menos se importava com formalidades ou pressas.
- Os lucros desta semana subiram cerca de quarenta por cento, Max. E o movimento continua crescendo, como sempre acontece quando estamos por perto - comentou Red, com voz lenta e calma, quase preguiçosa, enquanto girava lentamente um copo entre os dedos, sem pressa de beber.
Max nem sequer desviou o olhar da agitação que se estendia abaixo, na pista cheia de sombras e luzes cambiantes.
- Dinheiro é fácil de conseguir e de multiplicar - respondeu ele, baixo e firme -. O que realmente importa é outra coisa. Encontrou algo novo sobre os sinais e marcas que temos acompanhado por toda a região? Algum traço que pareça mais antigo, mais completo?
Red mudou ligeiramente a postura, parecendo despertar um pouco da sua indiferença habitual.
- Sim. Desta vez foi diferente. Não foi só uma marca na parede, nem um risco escondido em pedra velha... encontramos uma peça física. Algo que veio de muito longe e de muito tempo atrás.
Aí sim, toda a atenção de Max mudou de direção. Ele virou‑se devagar, todo o seu porte se tornando mais rígido, mais atento, como se uma corda interna tivesse sido apertada de repente.
Red aproximou‑se e depositou sobre a mesa escura e pesada uma pequena moeda antiga, gasta e desgastada por séculos de passagem, mas ainda com traços profundos e nítidos que o tempo não conseguiu apagar. No centro, gravado em relevo forte e exato, havia um símbolo inconfundível: um cálice.
Max passou os dedos lentamente sobre o metal frio, áspero e pesado. O maxilar endureceu‑se de imediato, e o brilho dourado dos seus olhos ficou mais intenso. Depois de gerações inteiras de buscas silenciosas, de espera e de quase perder a esperança de que a lenda fosse mais do que história antiga, as pistas finalmente pareciam se encontrar, se ligar e apontar para um mesmo lugar.
A lenda que corria entre os sete irmãos, guardada como segredo e obsessão, dizia que o Cálice não era apenas um objeto, nem um tesouro comum: concedia a quem o possuísse autoridade absoluta, poder acima de qualquer regra, domínio até mesmo sobre os outros seis Pecados e tudo o que deles nascesse. Nenhuma força, nenhum vínculo, nenhuma lealdade entre eles seria suficiente para resistir a quem o detivesse.
E Max desejava esse poder mais do que qualquer outra coisa - não por vaidade simples nem por capricho, mas por uma convicção profunda e inabalável: acreditava ser o único entre todos os irmãos com visão ampla, força de vontade e equilíbrio para sustentar a liderança da Irmandade Peccatione e manter tudo o que existia em seu devido lugar. Enquanto os outros gastavam energia em rixas tolas, disputas de vaidade e prazeres passageiros, ele construía estruturas, impérios silenciosos e uma rede de influência que cobria cidades e nações. Enquanto eles se fechavam em suas próprias naturezas e defeitos, ele estendia sua presença por todo o lado. Era assim que um verdadeiro líder agia - ou era o que repetia a si mesmo, dia após dia, para manter firme o seu propósito.
Foi então que tudo mudou num único instante.
Um grito cortou a música, agudo, seco, carregado de um desespero que fez arrepiar até quem só o ouviu de longe. O som grave morreu de repente, deixando apenas um silêncio estranho, pesado, que logo se encheu de ruídos confusos: passos rápidos, vozes altas, cadeiras arrastadas. As luzes começaram a piscar em ritmo desordenado e fraco, alternando entre o vermelho escuro e o branco ofuscante. Pessoas começaram a correr em todas as direções, empurrando‑se, tropeçando, gritando, tentando fugir sem saber exatamente do que fugiam, dominadas apenas pelo instinto de medo. Os seguranças avançaram rapidamente de todos os pontos da casa, mãos já sobre os equipamentos e armas, olhos atentos, tentando conter o caos que nascia sem aviso aparente.
No centro da pista, onde instantes antes havia só dança, movimento e alegria barulhenta, restou apenas um corpo caído, imóvel, virado de lado. Uma mancha larga, escura e brilhante de sangue se espalhava devagar pelo piso polido, ganhando contornos assustadores sob a luz fraca, crescendo lentamente como uma sombra viva.
Max desceu as escadas que ligavam o camarote ao salão principal sem pressa, com passos contidos, firmes e ritmados. O silêncio parecia acompanhá‑lo como uma sombra própria; por onde ele passava, as pessoas se afastavam automaticamente, abrindo caminho como se ele fosse uma presença ainda maior que o próprio perigo ali instalado. Red vinha logo atrás, com a mesma calma, mas observando cada rosto, cada canto e cada detalhe como quem já prevê problemas.
Ao chegar perto da vítima, Max ajoelhou‑se devagar e notou detalhes que não combinavam absolutamente com uma briga comum, nem com um crime de oportunidade ou roubo: não havia arma visível por perto, nem marcas de luta ou defesa no corpo, nem sinais de que houvesse perseguição ou confronto antes do fim. Apenas um corte único, profundo, limpo e preciso, que atravessara todo o peito do homem caído, como se feito por lâmina muito afiada e com conhecimento exato de onde atingir. E o que mais o fez parar, apertar os punhos e sentir o peso do pressentimento foi o que estava desenhado logo ao lado, traçado à mão firme com o próprio sangue que ainda escorria lentamente: o mesmo símbolo da moeda - o Cálice.
- Ninguém mais entra. Ninguém sai. Fechem todas as saídas, corredores e portas secundárias. Verifiquem cada canto, cada sala e cada pessoa presente, sem exceção. - A ordem saiu firme, grave, percorrendo todo o ambiente como uma lei absoluta que não poderia ser desobedecida. Os seguranças agiram no mesmo instante, bloqueando tudo o que dava acesso ou saída.
Max passou a mão devagar perto, sem tocar, observando cada traço da marca. Não reconhecia o rosto da vítima, nem as roupas, nem qualquer traço que o ligasse diretamente aos seus negócios conhecidos ou à estrutura da Irmandade. Mas conhecia muito bem a mensagem ali deixada: aquilo não era apenas um homicídio comum, nem acidente, nem violência passageira. Era um recado direto. Um desafio público. Ou talvez, e isso era o que mais o preocupava, uma armadilha preparada com cuidado, tempo e conhecimento sobre tudo o que ele buscava.
Antes que pudesse seguir pensando, investigando mais profundamente ou dar qualquer nova instrução, o som de passos pesados, firmes e ritmados ecoou vindo da entrada principal da boate. As grandes portas duplas de madeira nobre e vidro fosco foram abertas de forma ampla, solene e sem qualquer receio. Quatro homens vestidos de preto, com trajes formais idênticos, tecidos escuros e cortes rígidos, atravessaram o salão quase vazio de gente, abrindo caminho com o porte de quem traz autoridade acima de qualquer outra regra local. Ao peito de cada um brilhava, em prata polida e escura, o brasão oficial da Irmandade Peccatione.
O que vinha à frente, o mais velho, de expressão dura e rosto marcado por linhas de severidade, parou exatamente a poucos passos de Max. O olhar que lhe dirigiu não trazia o respeito antigo nem a dúvida de quem investiga - trazia apenas a frieza de uma missão já definida e decidida antes mesmo de chegar ali. Red deu um passo lateral, aproximando‑se ligeiramente do líder, atento a qualquer movimento brusco, mas manteve‑se calmo.
- Em nome e pelo poder da Irmandade Peccatione... - o homem fez uma pausa breve, como para dar peso solene a cada palavra que viria - ...você, Max, que também carrega o nome e a essência de Luxúria, está sendo formalmente acusado de ser o responsável direto, intelectual e material, por este assassinato, praticado dentro de um espaço sob sua jurisdição e influência.
O silêncio que se instalou depois disso foi ainda mais pesado, opressivo e assustador que todos os anteriores. Até Red, que raramente demonstrava surpresa ou inquietação, permaneceu em absoluto silêncio, analisando a situação com cuidado.
Max ergueu lentamente o rosto, deixando que os olhos dourados voltassem a brilhar intensamente - agora sem qualquer vestígio de calma tranquila ou indiferença de quem só observa.
- Escute muito bem cada palavra que vai dizer agora - avisou com voz baixa, suave mas cortante como lâmina afiada, sem erguer o tom, mas carregada de aviso -, pois cada uma delas será medida, registrada e cobrada com todo o rigor que eu sou capaz de impor. Não se engane nem por um instante sobre quem está diante de si nem sobre o que é capaz de fazer.
O emissário não recuou, não baixou o olhar nem demonstrou receio.
- As provas reunidas e apresentadas apontam tudo para este local, para a sua presença contínua, para a natureza do seu poder e para os sinais que vêm aparecendo sob sua responsabilidade. Não há testemunhas que o isentem, nem vestígios que apontem para outro caminho. A acusação está montada e registrada conforme as leis antigas da nossa própria irmandade.
Pela primeira vez em séculos inteiros de existência, de poder e de domínio tranquilo, Max sorriu. Não era riso de alegria nem de tranquilidade: era o sorriso de quem finalmente compreendera que tudo o que vinha acontecendo - os sinais antigos, a moeda encontrada, a vítima e o símbolo desenhado em sangue, a chegada exata e oportuna da comitiva - não era acaso, nem coincidência. Era o início verdadeiro, calculado e preparado do jogo que até então só existia nas sombras.
E em algum ponto, entre os cantos mais escuros e mal iluminados daquela mesma boate, escondido atrás de uma coluna, entre cortinas ou misturado ao resto do pessoal que ainda permanecia retido, alguém observava tudo com satisfação silenciosa e absoluta. O plano funcionara exatamente como previsto. O primeiro, o mais forte e o mais respeitado entre os Sete Pecados acabara de cair, passo a passo, dentro da armadilha construída especialmente para ele.
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CORROMPIDO
FantasyDesde a origem do mundo, o Pecado nunca esteve distante: ele apenas repousava sob a superfície da terra. O que a humanidade jamais compreendeu, porém, é que os Sete Pecados Capitais nunca estiveram separados - habitam, sim, entre nós, na própria Ter...
