Minha irmã Justine sempre acreditou que a melhor maneira de lidar com o medo do escuro é fingir que ele é passageiro. Anos atrás, ela tentou pôr a teoria em prática enquanto estávamos deitadas — cada uma em sua cama — rodeada pela escuridão. Protegida por uma fortaleza de travesseiros, eu tinha certeza de que o mal se escondia nas sombras, esperando minha respiração desacelerar para poder atacar. E, toda noite, Justine — um ano mais velha, porém, décadas mais sábia — tentava pacientemente me distrair.
— Você viu o vestido lindo que a Erin Klein estava usando hoje? — ela perguntava, sempre começando com uma pergunta fácil para avaliar o tamanho do meu medo.
Eram raras as ocasiões — geralmente quando íamos tarde para a cama depois de um dia atarefado — em que eu estava cansada demais para ficar com medo. Nessas noites, eu concordava ou discordava e, tínhamos uma conversa normal até cairmos no sono. Mas, na maioria das noites, eu sussurrava algo do tipo: “Você ouviu isso?” ou “Você acha que a mordida de um vampiro dói?” ou “Os monstros conseguem farejar o medo?” Nesse momento, Justine passava para a segunda pergunta.
— Está tão claro aqui! — ela dizia. — Dá para ver tudo: minha mochila, minha pulseira azul cintilante, nosso peixinho dourado no aquário. O que você consegue ver, Vanessa?
E, então, eu me forçava a imaginar nosso quarto exatamente como ele estava antes de a mamãe apagar a luz e fechar a porta. No fim das contas, eu conseguia esquecer que o mal estava à espreita e caía no sono. Toda noite eu pensava que isso nunca daria certo, mas toda noite dava. O método de minha irmã era bom para combater meus diversos outros medos. Mas, muitos anos depois, em pé no alto de um penhasco com vista para o oceano Atlântico, eu soube que ele não era totalmente eficiente.
— Simon não parece diferente neste verão? — ela perguntou, aproximando-se de mim e torcendo os cabelos. — Mais velho? Mais bonito?
Concordei sem responder.
A transformação física de Simon foi a primeira coisa que notei quando ele e o seu irmão, Caleb, bateram à nossa porta mais cedo. Mas essa era uma discussão para outro momento, quando estivéssemos nos aquecendo em frente à antiga lareira de pedra em nossa casa do lago. Primeiro, tínhamos que conseguir voltar para casa.
— Caleb também — ela tentou novamente. — O número de meninas com o coração partido em Maine deve ter... Tipo, quadruplicado este ano.
Tentei concordar com a cabeça, meus olhos fixos no redemoinho na água e na espuma quinze metros abaixo. Justine enrolou uma toalha no torso e deu um passo em minha direção. Ela ficou tão perto que pude sentir o cheiro do sal em seus cabelos e exalando de seus poros e, o frescor de sua pele úmida como se estivesse pressionada contra a minha. Gotículas de água lhe caíam da ponta dos cabelos, batiam na pedra quente e lançavam gotas ainda menores em cima dos meus pés. Uma súbita rajada de vento espalhou gotas sobre nós e ao nosso redor, transformando meu tremor em calafrio. Em algum lugar lá embaixo, Simon e Caleb riam enquanto se esforçavam para subir o caminho íngreme que os levaria à floresta e de volta a nós.
— É só uma piscina de mergulho — ela disse. — Você está em um trampolim meio metro acima dela.
Concordei com a cabeça.
Foi nesse momento que fiquei pensando na viagem de seis horas de Boston, o momento que imaginei pelo menos uma vez por dia desde o último verão. Eu sabia que parecia mais assustador do que de fato era. Nos dois anos, desde que havíamos descoberto a placa da trilha antiga indicando este lugar isolado — longe de turistas e aventureiros —, Justine, Simon e Caleb haviam saltado dezenas vezes e nunca tinham ido embora com mais do que um arranhão. O mais importante era que eu sabia que, se eu nunca mergulhasse sempre me sentiria inferior em nosso grupinho de verão.
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Sereia
FantasyVanessa Sands, de 17 anos, tem medo de tudo - do escuro, de altura, do mar -, mas sua destemida irmã mais velha, Justine, está sempre por perto para guiá-la a cada desafio. Até que Justine vai mergulhar num precipício uma noite, perto da casa de ver...
