Respirei fundo. Tão fundo que foi como se eu estivesse sugando todo o ar do local.
Estava diante da porta dos fundos do Palácio de Buckingham. Uma porta discreta, geralmente usada pelos funcionários e guardas. Admirar aqueles detalhes tão suaves e tão bruscos ao mesmo tempo me acalmava. Não me importava se estava atrasada para o meu turno, eu só precisava de mais alguns minutos apreciando aquela pequena coisa sem significado algum.
-Flertando com a porta de novo, Angelique? -comentou Carl, o jardineiro
-Só pensando em algumas coisas.
-No que você tanto pensa quando fica parada aí?
Dei um suspiro longo e arrastado. Essa era a última coisa que ele precisava saber.
-Em nada... Vou me atrasar- ajeitei o uniforme e olhei para ele- Até mais, Carl.
Foi quase instantâneo. No momento seguinte em que eu abri a porta e entrei nos corredores reais que tanto me assombravam, todos os olhares se voltaram para mim. Os meus colegas devem ser burros demais para pensar que eu não noto essas coisas. Os cochichos, as risadinhas... tudo.
Esse era o preço a se pagar por ser a única mulher em um grupo onde todos os homens eram machistas.
Nós trabalhávamos na proteção da rainha Elizabeth II. Não éramos guardas, era um trabalho bem mais pesado do que isso. Usávamos nosso sangue e suor. Qualquer coisa que acontecesse, seria nossa culpa por não tê-la protegido.
Ignorei tudo e fui direto na sala do chefe de combates pegar o relatório do dia.
Aí estava mais um problema: Chester Lewis, o chefe de combate.
Ele não era que nem os outros. Ele não fazia comentários. Ele nem ligava para mim, na verdade. Mas meu coração estupido insistiu em fazer bobagem mais uma vez. Aquela paixão platônica estava me devorando aos poucos por dentro. Quanto mais eu pensava nele, naquele sorriso brilhante, naqueles olhos cor de mel, naquele cheiro de hortelã que exalava tão maravilhosamente de sua pele... mais essa paixão virava amor.
Eu não podia amar ele. Um homem casado. Sim, casado. Aquilo estava me destruindo.
-Pode entrar senhorita Patel- gritou ele de dentro da sala
Será que ele percebia minha presença como eu percebia a dele? Será que ele me notava?
E quanto mais paranóias eu criava, mais magoada ficava.
-Me desculpe por chegar atrasada senhor- a sala era grande e tinha o mesmo cheiro de sempre: hortelã e madeira recém pintada. Ele estava na estante, de costas para mim, procurando o relatório que era entregue à cada um no início de seus turnos.-Eu tive que ir ao hospital para ver como estava a minha mãe. Os médicos me ligaram logo cedo dizendo que ela teve outra convulsão.-não era totalmente mentira, minha mãe realmente tinha tido convulsões.
-Não precisa se desculpar, Angelique.-falou, finalmente achando a ficha e me entregando com um sorriso simpático.-Eu entendo.
Agradeci e saí da sala o mais rápido que pude, mas sem ser indelicada.
Até que o dia estava tranquilo de trabalho. Só preencher uns formulários e mais algumas coisas sem importância. O que atrapalhava tudo era que eu não conseguia me concentrar em nada. Estava novamente tomada pelos meus pensamentos. Meus estupidos pensamentos.
Fui à cozinha tomar um pouco de água para me acalmar. Eu estava sozinha, até dois homens do meu setor entrarem para pegar o almoço que nos era oferecido.
-Ela fica muito sexy nesse uniforme-cochichou o loiro- Realça sua bunda, olhe.
Depois de dar uma bela olhada em mim, seu parceiro apenas afirmou com a cabeça e deu um leve assobio.
A partir desse instante percebi que seria mais um longo ano pela frente.
YOU ARE READING
Elasticità
RomanceEu estava pintando um quadro A imagem era uma pintura de você E por um momento eu pensei que você estivesse aqui Mas, novamente, não era verdade E todo esse tempo eu estive mentido Oh, mentindo em segredo para mim Estive colocando tristeza no lugar...
