Por entre bocejos e deitado ainda sobre sua cama improvisada na sala da casa de sua avó, Pedro havia acabado de despertar. Na verdade, era um colchão velho forrado com um lençol amarelado. Era simples, sim. Mas era disso que ele gostava por ali. Sua alma sempre pedia. O galo cantava no quintal e o cheiro de café inebriava os sentidos. Ele era um adolescente. Tão novo mas tão amante da natureza e do mar que possuía os sentimentos mais puros daquela ilha. Tinha cabelos pretos e os olhos cor de mel quase âmbar.
O sol brilhava por entre as folhas da mangueira e os gatos corriam sorrateiros por todo o quintal de terra. A casa era simples: paredes brancas um pouco descascadas, algumas telhas faltavam no telhado velho e o chão era vermelhão. Muitas plantas e flores envolviam a casa de seus avós. Um riacho corria próximo e podia-se ouvir o barulho que a água fazia quando batia nas pedras.
Ele foi em direção a cozinha e lá estava Neusa, sua avó. Vendo-o, sorriu satisfeita:
- Bom dia, meu filho.
- Bom dia.
- Acordou cedo.
- Nem tanto. O vô pelo jeito já até foi para o mar, não é?
Neusa o olhava com ternura. Era um bom menino, mas tinha dificuldade em acordar cedo e José não gostava de esperar. Ela era baixa, cabelos pretos e olhos amendoados. Usava uma roupa simples e sobre ela o seu costumeiro avental azul.
- Sabe como ele é impaciente com o mar, não é?
- Sim, infelizmente eu sei. Queria conseguir acordar cedo para acompanha-lo.
- O mar ainda vai chama-lo, meu filho. Tenha paciência.
- Mas como poderei ajudar por aqui sem ter nada para fazer?
Neusa admirou-se.
- Ora, sempre tem o que fazer e você me ajuda muito em casa. Esqueceu quem é que cuida das plantas e da horta, além de me fazer companhia?
- Isso não vale. Para mim, é um prazer fazer isso.
- E você já falou com seus pais?
Pedro sentiu o peito apertar.
- Faz algum tempo já. Você sabe disso.
Neusa foi em sua direção e o abraçou.
- Meu filho, você precisa amolecer um pouco seu coração. Sabe como eles são e sabe como você é. Quem tem mais capacidade para perdoar é você. Sua sensibilidade permite isso.
- Somente você mesmo para me agradar. Sabe como eles são difíceis.
- Eu sei. E muito bem. Chego a estranhar. O que será que aconteceu com Dolores para se tornar assim?
- Talvez a sede por dinheiro.
- Menino...!
- Desculpe, vovó.
Neusa o havia repreendido. Dificilmente fazia isso, mas as vezes era preciso. Não queria que nascesse dentro do peito de seu neto, o sentimento de revolta e tristeza. Apesar de todas as amarguras da vida, tinha que fazê-lo perceber que tudo podia mudar e que tudo só dependia de nós.
Pedro sentou-se de frente a mesa e serviu-se de café. Neusa havia acabado de tirar um bolo de fubá do forno.
- Pegue uma fatia e coma com manteiga. Aproveite que ainda está quente.
- Obrigado.
Ele deu a primeira mordida no bolo. Estava delicioso como sempre. Neusa sabia fazer um bolo igual a ninguém. Ela já havia tentado ensinar Pedro, mas ele não tinha essa habilidade.
- Está um delicia.
Neusa riu.
- Você é um encanto!
- E o que vai fazer hoje de tarde?
- Vou à casa de Dona Mariana para conversarmos. Hoje mais a noite quando seu avô subir a serra, teremos trabalho para ser feito.
Pedro surpreendeu-se.
- Hoje?
- Sim, temos uma necessidade.
- Posso saber qual é?
- Saberá na hora, meu filho. E o que você vai fazer?
- Eu? Não planejei nada. Pensei em ir para a Cachoeira e depois voltar.
- Muito bom! Precisaremos de um pouco de água de lá. Depois, você podia ir ao centro comprar outras coisas para mim.
Pedro sorriu.
- Com o maior prazer.
- Então, estamos combinados.
Neusa continuou preparando o almoço. Cortou carne, legumes e cozinhava feijão. Sabia que logo, sentiriam fome e precisavam se alimentar bem.
Pedro foi em direção a sala e arrumou o quarto improvisado e depois foi ao quintal para fumar um de seus cigarros. Tudo estava tranquilo como sempre. Aquele lugar lhe trazia paz e serenidade para o coração. Só de imaginar todo aquele encanto da natureza, ele podia se sentir cada vez mais próximo do divino. Era algo inexplicável e disso, sabia. Como a vida ali podia ser tão diferente de todos os lugares? Sabia que os Orixás se encontravam naquela Ilha cheia de mistérios e história. Ali era onde podia conversar com o seu espírito. Entretanto, Pedro queria mais.
- Quando será o dia que Iemanjá me chamará para acompanha-la sobre seu Reino? – pensava. – Quero tanto que ela me mostre seus segredos.
Ele chegava a sentir-se ansioso só de se imaginar navegando com o barco velho de seu avô sobre as águas. Lembrava-se das palavras de sua avó:
"O mar ainda vai chama-lo, meu filho. Tenha paciência."
Era difícil. Mas teria que aceitar que tudo tem o tempo certo para acontecer. Muitos problemas cercavam sua mente, mas ele tinha que confiar. Seus pais eram um problema: sempre estavam procurando no dinheiro a felicidade e a razão de suas vidas e, assim, perdendo um tempo valioso de apreciar o mundo que estava a sua volta. Pedro queria ser pescador e levar sua vida de forma leve. Poucos conseguiam entender isso. Achavam que ele era um acomodado, um covarde, uma pessoa que não queria vencer. Ele se perguntava:
"Mas vencer no quê? Conquistar poder, dinheiro para depois nas férias ir apreciar a paz da natureza?"
Ora, ele já estava lá todos os dias. Sabia apreciar e agradecer.
"Nada é por acaso."
Pedro sentia isso. Ele estava no lugar que o seu coração pedia. Podia sentir que tudo estava tranquilo. Quem nunca quis desvendar o mundo? Ele, porém, só queria desvendar os mistérios de sua alma.
Estava um pouco atrasado. Ainda tinha muita coisa para fazer. Terminou de fumar, entrou na cozinha, pediu a bênção para sua avó e pegou sua bicicleta para ir em direção ao centro e comprar as coisas que precisavam. Leve sereno começou a cair mesmo com o sol brilhando e abençoando a ilha. No céu, bem clarinho, podia se ver o arco-íris que Oxumarê pintava.
YOU ARE READING
O Viajante dos Mares - Conto de Areia
SpiritualAntes de nossa aventura pelo Reino de Iemanjá, Pedro teve que passar por alguns desafios antes que Mãe Sereia lhe pudesse permitir navegar pelas suas Águas Sagradas. O Viajante dos Mares - Conto de Areia nos mostra um pouco de sua história. Prontos...
