Sete Reis do Inferno, era responsável por invocar um pecado
capital nos seres humanos: Asmodeus (luxúria), Belzebu (gula), Mammon
(ganância), Belphegor (preguiça), Satan (ira), Leviathan (inveja) e Lúcifer
(soberba).
Os cadernos ilustrados de Elfrida Pimminstoffer chegaram a mim de maneirainusitada. No início de 2014, recebi uma ligação do Maurício Gouveia, sócio dosebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Maurício me explicouque havia adquirido uma coleção de mais de sete mil livros de uma senhorachamada Elfrida Pimminstoffer, falecida meses antes, aos cento e dois anos. Entreobras clássicas, enciclopédias e livros de banca, ele havia encontrado três cadernosmuito finos, de capa de couro, com texto escrito à mão, em língua estrangeira, eilustrações. Contactara, então, Ana, a bisneta de Elfrida, que lhe vendera os livros.Ana não queria os cadernos de volta e até ameaçou queimá-los caso Maurícioinsistisse na devolução. Sem saber o que fazer com os cadernos, Maurício metelefonou para perguntar se eu tinha interesse em analisar o material. Aceitei.Os manuscritos de Elfrida Pimminstoffer vinham numa tinta velha edesbotada, com uma caligrafia feminina hesitante, falha, que ganhava firmeza aolongo das páginas. As folhas estavam malconservadas e o texto havia sido escritoem uma língua estrangeira que, a princípio, me pareceu russo ou polonês. Minhacuriosidade foi aguçada pela perturbação: entre os textos, as ilustrações retratavamepisódios de horror e violência extrema, traçadas e coloridas com giz de cera.Analisando as páginas, deduzi que se tratava de uma narrativa dividida emsete capítulos. Na parte interior da capa de cada um dos três cadernos, encontreium nome — "Peter Binsfeld" — escrito na mesma caligrafia. Com ajuda dainternet, descobri que Binsfeld era um padre, teólogo e demonologista que viveuem Trier, na Alemanha, no século XVI. O legado mais famoso do padre Binsfeldé a classificação dos demônios, escrita em 1589. De acordo com seu trabalho, cadaum dos demônios, os Sete Reis do Inferno, era responsável por invocar um pecadocapital nos seres humanos: Asmodeus (luxúria), Belzebu (gula), Mammon(ganância), Belphegor (preguiça), Satan (ira), Leviathan (inveja) e Lúcifer(soberba).Em meio a dicionários, atlas históricos e sites variados, percebi que não setratava de russo, tampouco polonês ou ucraniano. Os cadernos haviam sido escritosem cimério, uma língua morta pertencente ao ramo botno-úgrico. Encontrei umúnico estudioso de cimério no mundo: o professor Uzzi-Tuzii, chefe dodepartamento de línguas botno-úgricas da Università Degli Studi di Udine, na Itália.Telefonei ao professor, propus um encontro e conciliamos as agendas paradali a cinco meses. Quando apresentei os cadernos, o professor Uzzi-Tuzii seassustou. Recusou com gentileza o convite que fiz para que traduzisse os textos e,sem maiores explicações, recomendou que eu os descartasse. Diante de minhainsistência, o professor Uzzi-Tuzii acabou me oferecendo um dicionário cimérioitaliano,além de algumas orientações idiomáticas sobre o cimério.Decidi eu mesmo traduzir os textos. A complexa sintaxe do idioma e suairregular conjugação verbal dificultaram muito o trabalho. A prosa ciméria é cheiade retraimentos, subtrações, efeitos, com usos e conotações flutuantes. Após mesesde dedicação exclusiva, fiquei extasiado com a maldade, o terror e a friezaestilística da história que agora chega ao leitor brasileiro: a primeira narrativacompleta escrita em cimério.Como tradutor, tomei a liberdade de ordenar as histórias como me pareceuideal. De todo modo, é bom que se diga que elas podem ser lidas em qualquerordem, sem prejuízo da compreensão, pois se relacionam de maneira difusa, mascom personagens e fatos em comum, todos situados no mesmo vilarejo.Busquei ainda uma possível ascendência de nomes e a localização geográficaprecisa dos eventos aqui narrados. Não encontrei nada. O vilarejo, se existiu emalgum momento, sumiu do mapa. Os cimérios desapareceram como se a terra ostivesse engolido .
RAPHAEL MONTES, O TRADUTOR.
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