Lya

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   Acordo com o barulho irritante do despertador, mas como em poucos dias, me levanto com um sorriso no rosto. Mesmo com sono, coloco as minhas pernas pra fora da cama me levantando e sentido o calor do piso queimar meus pés. Agora já posta, de frente para o espelho, tento decifrar meus sentimentos e encontro, a tão esperada felicidade. Hoje era o dia mais feliz da minha vida, onde tudo mudaria, onde eu poderia me encontrar e viver de verdade. Talvez vocês achem bizarro, eu estar tão feliz assim, mas hoje eu completo meus 18 anos, de digamos, escravidão e agora eu serei livre ou quase isso.

  Eu moro em Edom, uma das maiores cidades, localizada no centro do inferno, onde o fogo acompanha você em toda sua jornada. Mas eu não sou pecadora ou algo do tipo. Meus pais eram anjos da guarda, participavam de uma equipe protetora de adolescentes na Terra, mas eram de classes diferentes.

Não pense que as questões entre os anjos, sejam muito diferente dos humanos.

Como eu dizia, eles trabalharam na mesma equipe por alguns meses e não tiveram como evitar o amor que surgiu entre os dois. Em menos de alguns dias, eles já tinham horários e locais secretos para se verem de uma forma diferente.Devido a esse amor, proibido e clichê, eles foram expulsos de seus postos e mandados pro inferno. Depois de muita barganha, com um dos sete filhos de Lúcifer, Jairan, concordou em dezoito anos de trabalho escravo, com meus pais usando seus dons para ele, na troca de uma vida melhor, para mim, no universo paralelo, mais conhecido como Terra.

  Eu viveria como uma humana, mais ainda com todas as minhas habilidades e artimanhas... Era uma aventura, que eu estava disposta a participar. Há dezoito anos meus pais trabalhavam para isso e a três anos eu dava toda minha pureza a Jairan, como parte do pagamento. Eu não podia perder essa oportunidade e fazer com que o sacrifício dos meus pais fossem em vão. É óbvio que eu não os veria mais depois de tudo, mas eles ainda teriam um ao outro, por aqui. Sei que é um pensamento egoísta, mas não fui eu que quebrei as regras...

Me olho no espelho, observando o meu próprio reflexo e noto que no fundo não sei quem sou. O que me salva é minha aparência. Minhas madeixas escuras em tons azuis como a noite e meus olhos totalmente pretos, que um dia poderiam ter sidos azuis, caso eu não tivesse nascido no inferno. Eu teria que dar um jeito neles, assim que chegasse no outro lado.

-Lya? Você está atrasada filha.-escuto meu pai falar e o imagino aos pés da escada com a mão na cintura e um sorriso nos lábios. Ele tentava ser duro comigo, mas ele sabia que a vida já ocupava esse papel.

-Estou quase pronta!-falo rindo e corro até o meu guarda-roupa, onde coloco o vestido vermelho, que eu nunca pude usar até o dia de hoje (minha mãe havia o comprado, no meu primeiro ano de vida e o guardado, especialmente para esse dia).  Assim que calço os saltos pretos, desço as escadas encontrando meus pais e alguns amigos a minha espera.

-Ja estão aqui logo cedo?-pergunto vendo Jack, Yara e Marven sentados a mesa, onde o café da manhã estava sendo posto pela minha mãe, com um sorriso enorme no rosto, moldado pelos seus cabelos loiros.

Ela parecia um fantasma, com a pela clara, um vestido branco como a neve e os olhos, duas bolas de plena escuridão. Todos punidos do céu ou nascidos no inferno,  tinham esta característica horripilante, sem contorno ou solução.

-Queremos estar ao seu lado na cerimônia de transferência.-fala Yara batendo palminhas, animada por mim.

Ela infelizmente não sairia daqui, seus pais não foram anjos em outra vida, somente seus avós, que não tiveram a mesma ideia que meu pai. Todos iriam permanecer aqui, esperando seu destino. Lúcifer tinha sido bonzinho em doar eles para um de seus filhos. Mas tudo tinha um preço, nada era tão simples em Edom.

-Bom, então vamos comer logo, antes que eu desista de tudo isso.-falo brincando e todos riem, menos minha mãe é claro, que me dirige um olhar frio.

Nem pense nisso, em nenhuma hipótese...

Ela fala dentro de minha mente, antes de me lançar um sorriso fraco e sentar ao nosso lado, para então comermos.

  Após o café da manhã, que foi repleto de lembranças da infância, caminho no meio dos meus amigos até a Praça Central.O céu estava vermelho como sempre, o ar era quente por aqui, provavelmente você nunca veria alguém com roupas de frio.
 Observo a multidão que se amontoava, próximos ao palanque, quase todos vestidos de branco, como um protesto, de que mesmo no inferno poderia haver pureza em homenagem a todos os jovens e adolescentes, nascidos aqui. Em um canto mais afastado, lá estava os que mais sofriam, aqueles que não tinham nada a oferecer a Jairan e eram postos como escravos carnais, aqueles que nunca se arrependeram de seus erros. Eles trabalhavam para manter a cidade limpa e em pé, além de alimentar Lúcifer, com seus medos e frustrações. Ao passar por eles, sinto o olhar afiado em minha nuca, o cheiro de pele queimada entrando em meu nariz e noto o sangue em suas roupas.

Eu vou sair daqui, vou sair. Sorria.

Me despeço dos meus amigos com lágrimas negras escorrendo pelo meu rosto pálido e deposito um beijo na testa de cada um deles (por eu ser a mais alta). Assim que seco meu rosto, subo no palanque com a ajuda de Jairan, que me toma em seus braços e me abraça apertado.

Como se fosse sentir falta da minha pessoa...

Jairan, no fundo parecia ser bom ao povo, mas eu já havia visto, diversas vezes, o seu lado escuro, como também já havia visto o seu amor. Ele tinha dois lados assim como todos, mas deixava o ruim predominar.

  Quando consigo sair dos seus braços, vou até os meus pais, que também estavam ali e enlaço minhas mãos nas deles, a espera do meu novo futuro.

-Hoje estamos todos aqui para o início de uma nova experiência não só para Lya Marrons, mas para o nosso povo.-Jairan começa seu discurso com todo seu profissionalismo e por alguns segundos o imagino um diplomata, como um dos mundanos e não um Príncipe ardente.

-Como todos já conhecem a história de Lya e de seus pais, não acho necessário eu conta-la. Vamos direto a tão esperada transferência. De um passo a frente meu amor.-ele fala com um sorriso irônico e irritante, mas desta vez não o ignoro, mas sim caminho até ele com um sorriso vitorioso.

-Devido a quantidade de poder que eu usarei para lhe levar até o mundo paralelo ao nosso, seus olhos não se tornarão humanos. Então boa sorte, tente não matar nenhum humano de susto.-ele fala rindo e sendo acompanhado pelo povo.

Pego minha mochila, que estava próxima a mim no chão e ao coloca-la em minhas costas, me viro para o povo.

-Eu prometo, por mais impossível que seja, que voltarei algum dia e mostrarei como ainda há o perdão para pessoas como nós, jovens que não fizeram nada, mas estamos presos e encurralados por aqui.-falo confiante e dirijo meu olhar para ele, demorando um pouco mais ao admirar, a enorme cicatriz em sua bochecha. Garras, de seu pai.

-Ah e Jairan, não se preocupe, vou trazer uma resposta pra melhorar essa sua cara ai.-falo rindo e vejo seu rosto possesso de raiva.

Assim que o portal é aberto, lanço um último olhar para todos e deixo com que a escuridão me leve além, para um novo mundo, para o universo paralelo.

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