Eu, esquecida, Curandeira do cerne da alma.

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Minha escrita está presa aos acervos que ninguém acessa, condenada aos cantos empoeirados das estantes - que não estão em uma biblioteca. Minha escrita não é sorriso, é choro. Não possui glória, nem odes.

Um cadáver proibido de visitas.

Os anos se passarão e as meninas não sorrirão ao me ouvirem nas rodas, pois eu não estarei lá. Eu estarei com as viúvas, as bruxas e as excluídas. Meu espírito dançará livre na roda das que não forçam sorrisos aos homens, eu serei o fogo e o sangue, a que aquece e afaga cada uma delas.

Minhas mãos e minha alma não carregam sorrisos (e nem farão), mas trarão cura e consolo para as cicatrizes que restam. Eu - que não mensageira da felicidade, mas - curandeira do cerne da alma, entrego meu total esquecimento ao Mundo para que possa abraçar os espíritos das que são muito mais que Ele.

Que minha escrita - que nada é - contemple aquelas que nada são, assim como eu! Ah como somos muitas!

Que a ancestralidade em mim ecoe por minhas letras através do tempo sem destino - certo. Que minha vírgula corte o dedo da mulher certa, e que não donzela, acorde e continue de onde qualquer espírito-mulher-forte tenha parado.

Que as esquecidas e apagadas de hoje - assim como minha escrita insignificante - sejam o alicerce das guerreiras e rainhas de amanhã, assim como fomos antes, assim como somos hoje e nos é escondido a coroa por detrás dos vidros das catedrais.

Mulheres, que os órgãos de tubo não ensurdeçam a trombeta da vitória de cada uma, que as luzes das sinagogas não engulam o brilho das fogueiras nuas das noites.

Que o ouro adorne os cabelos e a pele, mas que a pele seja mais forte que o couro - e o ouro.

Um desejo eterno! Uma força eterna!

Eu, esquecida, Curandeira do cerne da alma.

Avante!

Taiani Costa. 17:13. 05/Out/2016.

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