PRÓLOGO

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Aquele menino de longos cabelos pretos, caídos de uma única maneira sobre seus ombros, estava me deixando louco. Ele estava encostado sobre a porta do banheiro dos professores, com o olhar fixo na fila de alunos a sua frente, esperando para que lhe dissessem em qual turma ele estava. Eu sabia porque um dos meus amigos estava no início daquela fila para o mesmo motivo. Mas aquele menino era diferente de todos que eu já tinha visto antes. Ele fez meu corpo e coração se comportarem de maneira diferente a que eu já estava acostumado. Ele fez meu coração acelerar e diminuir a pulsação em poucos segundo, fez minhas mãos suarem, minhas pernas tremerem e meu sorriso ficar no rosto por todo esse tempo. Que menino!

- Seu olho vai cair, hein! – Minha melhor amiga, Lola, foi quem me tirou daquele transe.

- Para de ser boba. – Respondi, sorrindo. O mesmo sorriso que eu estava a poucos minutos atrás. Ele continuava em meu rosto na mesma intensidade.

- "Olá tenho interesse?" – Ela fez um movimento com as mãos que caracterizava essa frase que ela disse.

- Com certeza! – Respondi, voltando meu olhar para ele. Na mesma hora tive que desviar, já que ele estava olhando para mim também. Meu coração gelou.

Lola era quem melhor me conhecia. Sabia quando eu estava apaixonado, sabia quando eu estava desconfortável com algo, com alguém, com qualquer coisa. Lola sabia de tudo sobre mim, sempre soube e acho que sempre saberá. Ela foi a primeira pessoa para quem eu contei sobre minha sexualidade, e aquele dia foi um dos mais confortáveis de toda a minha vida. Depois de contar para ela sobre minha primeira paixão que não era uma menina, eu me senti tão leve que poderia sair flutuando por aqui se alguém me soprasse. E foi ela quem me encorajou, no período de um ano, para conseguir me assumir para minha mãe também. Hoje, mais dois anos depois da primeira vez em que falamos sobre isso, eu estava diante do menino que possivelmente eu ficaria apaixonado este ano. Não que cada ano fosse um, mas esse certamente seria o desse ano – e se dependesse de mim, o que eu ficaria pelo resto da minha vida.

Voltei a olhar para ele enquanto Brian, nosso amigo, não voltava da fila. Eu nem sabia seu nome, mas parecia que eu conhecia sua alma. Ele tinha um olhar tão forte e aconchegante que me fazia querer abraça-lo por todo o tempo que eu conseguisse. Seu cabelo com caimento perfeito nos ombros, fez-me ficar ainda mais apaixonado. Como eu conseguia?

***

Esse era nosso último ano na escola. Lola e Brian estavam comigo a três anos, quando iniciamos o Ensino Médio. Brian, infelizmente, tinha ficado em outra turma esse ano, deixando apenas Lola e eu juntos.

Meu lugar era o mesmo do ano passado, bem próximo a porta. Eu sempre gostava de sentar ali por conta das inúmeras vezes que eu precisava ir correndo para o banheiro por estar tendo uma das minhas crises de pânico. Acontecia tão constantemente que já tinha sido algo que eu considerava normal. Anormal era não acontecer pelo menos uma vez por dia, eu sempre falava para a Lola. Ficar sozinho, jogar um pouco de água no meu rosto e usar a técnica de respiração que minha psicóloga havia me ensinado sempre ajudava.

Naquele dia, aproximadamente meia hora depois que Lola e eu voltamos para a sala, alguém bateu na porta. O professor, lá da frente, pediu para que eu a abrisse, por estar mais perto, e foi o que eu fiz. O que eu não esperava - ou esperava? – era que quem estivesse batendo na porta fosse aquele mesmo menino que eu tinha visto no início do dia, parado na fila para ser enturmado. Ele estava com o olhar bem baixo e os cabelos grandes cobrindo as laterais do rosto.

- Essa turma é aqui? – Ele me entregou um papel da direção, e eu peguei.

- É sim! – Devolvi para ele.

- Obrigado. – Ele passou por mim e foi andando até a mesa do professor, que estava sentado com o diário aberto sobre a mesa.

Olhei para Lola, que já estava rindo para mim, e me segurei para não bater nela. O destino estava me dando uma das melhores chances do mundo e eu não podia arriscar deixa-la passar.

- Se você der sorte ele senta do seu lado. – Ela apontou para a carteira vazia ao lado da minha. Cruzei os dedos debaixo da mesa, sem ninguém ver.

- Ou então ele senta lá na frente. – Apontei com a cabeça para uma mesa vazia ao lado da mesa do professor. Ninguém gostava de sentar lá, mas vai que ele gostaria.

- Turma, esse daqui é o Gabriel. – O professor anunciou lá da frente. – Ele veio transferido de outro estado, e vai passar o último ano conosco. Recebam ele bem, ok?

Boa parte da turma nem mesmo ouviu o que o professor disse, eu mesmo quase não escutei, visto que estava tão distraído olhando para aquele menino – que agora eu sabia o nome – que tudo o que entrava no meu ouvido parecia sair pelo outro.

Gabriel ficou parado do lado da mesa do professor por mais alguns minutos, depois ele fez uma varredura completa com o olhar pela sala, olhando todos os pontos possíveis. Quando ele passou os olhos por onde eu estava, tive que fingir que não estava tão focado nele quanto eu realmente estava. Ele pegou o papel que o professor havia assinado e guardou no bolso.

Infelizmente ele não se sentou do meu lado. Nem na frente. Tinha uma carteira vazia junto com os meninos do time de futebol da escola, e foi para lá que ele havia ido. 

O Infinito ao meu RedorStories to obsess over. Discover now