Vinicius acordou, estava entorpecido, teve dificuldades em abrir os olhos, sentia que as pálpebras pesavam mais que sacos de areia. A luz extremamente branca não ajudava a discernir onde estava, o fato de tudo sua volta ser incomodantemente branco ao seu campo de visão também não colaborava para formar um possível cenário.
Seu corpo estava dormente, formigava por toda parte, mas mesmo assim, alguma escoriação latejava aqui e ali, dando a entender que estava ferido e mesmo sentindo dor, não conseguia saber exatamente onde doía, tentou se levantar, mas o corpo não tinha forças para tamanha empreitada, era como se um animal invisível estivesse sentado no seu peito o impedindo de levantar, tentou levantar as mãos e novamente o resultado foi negativo, dessa vez por outro motivo, sentiu que algo físico o impedia, tentou então somente a cabeça e dessa vez teve êxito, ergueu o máximo que pode o pescoço e conseguiu enxergar a mão direita, estava atada a cama por uma grossa malha presa com uma fivela de couro, voltou a deitar a cabeça e esse pequeno esforço já lhe rendera uma forte tontura, dor de cabeça e tudo que era claro foi escurecendo, escurecendo e tudo se apagou.
Com a respiração entre cortada e pupilas dilatadas Vinicius voltou a acordar, esbaforido como se estivesse saindo da água após um mergulho profundo e demorado, seu peito subia e descia em ritmo acelerado, os ferimentos que antes latejavam, agora doíam intensamente, devida a descarga de adrenalina injetada no despertar, os músculos presos as cintas estavam retesados e as veias saltadas, o mundo parecia estar mais rápido pela velocidade que seu coração pulsava, a luz branca ainda incomodava, mas agora a luz sibilou e em uma estranha aceleração, descreveu uma curva e a luz girou no ar criando um redemoinho que foi ficando mais rápido, mais rápido, mais rápido e novamente tudo ficou preto.
Explosão de adrenalina novamente e Vinicius acordou, mas dessa vez conseguiu conter o nervosismo e respirar pausadamente para amansar o corpo, foi estabilizando aos poucos, as mãos antes cerradas, agora lentamente iam se abrindo e repousando, a respiração ofegante foi se atenuando e a luz que girava foi reduzindo até parar em seu devido lugar. Recuperado do expurgo emocional, Vinicius tentou identificar o que estava acontecendo, percebeu que uma fisgada incomodava o antebraço depois do corpo se agitar, levantou a cabeça e pode perceber uma agulha enfincada no corpo, apurou então a audição e conseguiu perceber o bip do marcador cardíaco conectado à ele, conseguiu ouvir o gotejar enfadonho do soro a tilintar no repositório e em um momento de lampejo, somou dois mais dois e entendeu que estava em um hospital, só não sabia ainda qual hospital, há tempo estava lá e nem o porquê.
Olhou em volta e viu que estava sozinho, não havia acompanhante, nem médicos no quarto, conclui que devia estar longe de casa, sua mãe e sua namorada nunca deixariam ele sozinho em um quarto de hospital, tentou procurar no quarto alguma logomarca ou nome escrito que pudesse dar uma pista de onde estava, mas estranhamente não havia nada escrito em parte alguma, mais estranho ainda eram as paredes do quarto que pareciam acolchoadas. Continuou investigando o quarto o máximo que sua pouca movimentação corporal permitia, havia uma poltrona na esquina do quarto e passando rápido os olhos parecia ter visto uma sombra sentada na poltrona, voltou os olhos para o local, piscou várias vezes para limpar a vista e constatou que não havia nada nem ninguém lá, estava entorpecido e seus sentidos estavam lhe pregando peças, estava sozinho e isso era um fato. Voltou a sua ronda pelo quarto sem encontrar nada que lhe desse uma ajuda, quando parou de procurar, finalmente voltou a cabeça ao travesseiro e com um longo suspiro deitou a cabeça de lado.
- Olá.
- AAAAAAAAAAA, Vinicius se assustou ao ver sentado ao lado da sua cama uma pessoa, uma pessoa que não estava lá
- Mas mas mas o que é você? De onde você veio? Como entrou aqui? Onde estou? Que lugar é esse?
- Mizifi faz muitas perguntas ao mesmo tempo, melhor dormir mais um pouco as dispois ocê mi pregunta uma coisa por vez.
Sentado ao lado de Vinicius estava uma figura no mínimo emblemática, um senhor de pele negra, barba e sobrancelhas brancas, sardas no rosto e dentes amarelados, vestia uma camisa cru entreaberta que deixava o peito exposto, ostentava colar feito de algum tipo de cipó e sementes, nas mãos manuseava uma espécie de cachimbo em forma de crânio que nunca parava de sair fumaça, isso era tudo o que Vinicius conseguia ver e isso já era inacreditável.
- Eu devo estar alucinando, são os remédios que me deram, você não existe, você é uma ilusão
- Hummm podi-ce que esteja certo, eu não existo mesmo e talvez seja melhor assim
- Não pode ser, você não é real, você não é real. Vinicius fechou os olhos e repetiu o mantra por um longo tempo.
Quando abriu os olhos o homem não estava mais lá, correu os olhos pelo quarto e não havia mais ninguém por lá.
- Cristo pai, o que está acontecendo comigo? Não sei onde estou e agora estou vendo aparições
Voltou a cabeça para onde avistara o homem e para sua alegria não havia mais ninguém lá, fechou os olhos, respirou fundo e voltou à abri-los.
- Ok agora preciso tentar chamar algum médico e dizer que estou acordado e estou melhor, pronto para ir embora.
Um cheiro de mato subiu forte no quarto, a luz bruxelou e um vento vindo de nenhum lugar e de todos os lugares encheu o quarto, do pé da cama surgiu um gorro vermelho, um vermelho tão forte e vivo quanto fogo crepitando na fogueira, vestindo o gorro estava o mesmo senhor que surgirá ao lado da cama, com o cachimbo na boca fumegando, a fumaça formava espectrais formas de animais que bailavam na dispersão do ar, o homem foi subindo passou da altura da cama e pode-se ver que o vento era gerado dele, no lugar de pernas abaixo da linha da cintura existia um redemoinho que tinha uma velocidade inimaginável.
- Não existo né? Disse o homem em tom ameaçador. - Então não vai se importar se eu deixar uma marca, não vai doer nada, eu não passo de uma ilusão hahahahahahahahahahaha.
Dito isso, ele partiu para cima de Vinicius com o cachimbo em brasa e na parte de baixo do cachimbo tinha em alto relevo um desenho de uma caveira, que foi pressionado no antebraço de Vinicius fazendo uma Tatuagem de fogo, tal qual se marca um gado.
Vinicius gritou de dor, gritou muito, ao ponto de ouvir passos no corredor, os médicos entraram contudo no quarto e viram Vinicius agitado, gritando pedindo ajuda, um enfermeiro chegou perto com uma seringa pronto para aplicar uma injeção de tranquilizante, inesperadamente Vinicius estourou a cinta que o segurava, agarrou o enfermeiro pelo jaleco e arremessou-o na parede.
- Vejam ele está ali no quanto, ele está rindo, ele está rindo
Todos olharam para onde estava apontando e não tinha nada lá
- Seus tolos, ele está lá, ele está rindo
Outro enfermeiro pulou e deitou sobre Vinicius que se debatia, aproveitando a imobilização inusitada, o primeiro enfermeiro refeito do ataque, correu e aplicou o remédio no paciente que foi ficando mais calmo e mole até parar de atacar os enfermeiros
- Vocês não entendem ele está aqui, está rindo de vocês, ele está rindo, está rindo hahahaha
- Você está alucinando Vinicius, não tem ninguém aqui
- Está enganado eu vi, eu vi, eu vi
- Quem você viu senhor Vinicius?
Vinicius estendeu o braço e mostrou a caveira recém tatuada, deu um sorriso maroto, olhou nos olhos do enfermeiro e disse
- O Saci
