- Vai mais rápido!
O grito pedindo por mais velocidade veio de Camille enquanto Travis dirigia a toda velocidade pelas ruas de Los Angeles.
Era madrugada, e Los Angeles não passava de um borrão de luzes e cores do lado de fora de sua janela. Ao longe o barulho insistente de sirenes serviam apenas para aumentar a excitação que ela sentia. Seu sangue corria rápido em suas veias e seu coração batia a um ritmo alarmante como se estivesse prestes a explodir.
Muitos diriam que isso era loucura mas era para isso que ela vivia. O que fazia com que suportar todo o resto valesse a pena.
- Eles estão se aproximando! - o alerta veio de Travis, que estava ao seu lado dirigindo com o mesma habilidade de um piloto profissional da Nascar. Camille desconfiava que se não fosse pelo amor que seu amigo nutria pelo ilegal, ele seria um piloto de sucesso. Mas isso não o atraia. Travis vivia para as corridas clandestinas nas rua de Los Angeles.
Camille se virou no assento do carona onde se encontrava e olhou para a pista às suas costas através do vidro traseiro. Travis tinha razão. Eles estavam próximos. Haviam três viaturas em seu encalço e a cada segundo eles estavam ficando mais e mais próximos.
- Se você não correr eles vão nos pegar! - Camille gritou por cima do barulho das sirenes.
- Spencer vai nos matar se formos pego! - Travis sorriu com seu próprio comentário.
- Esquece o Spencer. - Camille respondeu enquanto se arrumava em seu assento e assistia às viaturas os perseguindo pelo espelho retrovisor enquanto um sorriso travesso surgia em seus lábios e uma nova onda de empolgação a atingia - Apenas corre... Corre como se não houvesse amanhã!
Ela só precisava que durasse mais um momento. Mais um momento de emoção, de adrenalina, para então se sentir livre. Livre de regras, normas e imposições.
Livre de sua prisão.
Então ela poderia voltar para mais uma rodada de sua vida de merda com disposição suficiente para aguentar até sua próxima fuga.
Esses momento de fuga eram o que a faziam aguentar um dia após o outro. Ela vivia para eles.
- Se segura!
Camille se agarrou ao banco de couro, fincando sua unhas com força o suficiente para deixar marcas, quando Travis pisou fundo no acelerador.
Travis fez uma curva inesperada e entrou na contramão em uma rua de mão única com a velocidade acima do permitido enquanto desviava dos poucos carros que vinham no sentido contrário. Era emocionante. A velocidade, o perigo e a adrenalina eram o melhor remédio para tirá-la do entorpecimento. Algumas viaturas, que vinham certamente para se juntarem à perseguição, passaram por eles para em seguida frearem bruscamente dando a volta e finalmente se juntando à perseguição.
Quando finalmente chegaram no final da rua Travis fez uma nova curva para entrar no fluxo da rua a sua frente fazendo com que o carro patinasse no asfalto molhado. Havia chovido poucos minutos antes e as ruas ainda se encontrava úmidas com pequenas poças aqui e ali. Camille teve que apoiar uma mão no vidro da janela para impedir que seu corpo fosse lançado contra a porta e sua cara colada no vidro.
Travis amaldiçoou.
Então tudo aconteceu rapidamente...
Travis perdeu o controle do carro e eles saíram arrastando tudo à sua volta. O mundo girava do lado de fora das janelas deixando claro que agora eles estavam em uma sequência de rodopios no meio da pista como uma bailarina, mas com certeza sem toda sua graça, e fazendo com que Camille perdesse qualquer sentido de orientação. Até que enfim veio o impacto.
E então o seu momento de ser livre havia acabado.
Ou então se ela tivesse sorte ela se livraria de tudo de uma vez por todas.
****
- Camille Spencer?
- Aqui. - Camille se levantou do banco de cimento em que se encontrava sentada e se encaminhou para a grade da cela que ela havia compartilhado com prostitutas e drogadas durante a última hora e meia. Ah! E ela não podia se esquecer. E uma ladra profissional, segundo a própria ladra "profissional", que se fosse tão profissional assim não estaria presa pela segunda vez em menos de um mês.
A porta da cela se encontrava aberta e do lado de fora um policial uniformizado a aguardava.
- Vamos. - ele disse simplesmente quando ela passou pela porta e ele voltou a tranca-lá.
Camille seguiu o policial pelo corredor de celas, que não eram poucas. Em se tratando de uma cidade do tamanho de Los Angeles e com o índice de criminalidade alarmante era óbvio que a quantidade de celas não era um exagero. E a quantidade de pessoas dentro das mesmas não deixavam qualquer rastro de dúvidas sobre a legitimidade da questão.
O caminho foi feito em completo silêncio apenas com os barulhos de seus sapatos no chão, afinal ela não precisava de nenhum esclarecimento sobre os próximos acontecimentos. Ela estava sendo levada para a sala do delegado onde um muito puto Sr. O Grande e Poderoso John Spencer a estaria esperando com sua pompa impecável de grande advogado da cidade grande para levá-la para casa onde a faria ouvir mais um de seus intermináveis sermões de como ela era irresponsável, estava jogando sua vida fora e blá blá blá...
Então após ela esperar pacientemente que ele botasse tudo pra fora, afim de que não se engasgasse com sua já mencionada pompa de grande advogado, ela enfim poderia subir para seu quarto, tomar um banho quente de banheira e enfim dormir. Era um ritual que os dois partilhavam já há um bom tempo.
O policial à sua frente parou em uma porta onde havia uma placa dourada com a palavra DELEGADO escrita em letras pretas. Ele bateu uma vez e abriu a porta se colocando de lado para que ela pudesse ser a primeira a entrar.
Ao entrar na sala Camille comprovou que mais uma vez ela estava certa. Jonh Spencer, que não fugindo à regra, se encontrava realmente impecável as três da madrugada vestindo seu terno de alfaiataria italiana, que custava mais do que um mês de salário do policial que a trouxera se encontrava no auge de toda sua pompa. Seu cabelo loiro escuro se encontrava penteado para trás com nenhum fio fora do lugar como se todos tivessem medo de desobedecer a prerrogativa de que deviam permanecer unidos uns aos outros até segunda ordem e seu rosto parecia esculpido em pedra quando ele a olhou com dois olhos azuis que mais pareciam duas lanças de gelos prestes a serem lançadas com garantia de uma pontaria muito boa.
Não era de se admirar que fosse um dos melhores advogados do país. Para quem não o conhecesse ele realmente era intimidador.
Após lhe direcionar seu olhar mortal Spencer desviou sua atenção para o delegado que se encontrava de pé do outro lado da mesa.
- Delegado Murton, muito obrigado pelo seu tempo. - Spencer se aproximou e os dois apertaram as mãos.
- É sempre um prazer reencontrar velhos amigos.
Com mais um acena de cabeça Spencer se virou e andou com passos firmes em sua direção.
- Vamos.
E com essa simples palavra ele saiu da sala sem sequer lhe dirigir mais um olhar. Camille ficou um momento parada antes de segui-lo. Ele sempre esperava que ela saísse à sua frente.
Dessa vez ele estava realmente muito puto.
Camille o alcançou já no carro estacionado do lado de fora da delegacia. Spencer dirigia uma BMW M2 preta que não importasse o momento em que você a visse ela sempre parecia que havia acabado de sair da concessionária. Ele já havia desativado o alarme e a porta do motorista já se encontrava aberta quando ela chegou no lado do passageiro. Eles entraram no carro e enquanto Camille colocava o cinto um pacote transparente foi lançado em seu colo.
- Seus pertences.
Ela olhou do pacote para Spencer, que já se encontrava ocupado manobrando o carro para saírem da vaga, achando que o sermão já estava a caminho mas ele não disse mais nada. Quando se passaram cinco minutos e nenhuma palavra tinha sido pronunciada Camille resolveu arriscar. Afinal quanto antes o sermão começasse mais cedo terminaria.
- Olha eu sei que você vai discordar mas não foi nada demais. A gente só estava se divertindo um pouco então a polícia apareceu e as coisas fugiram um pouco ao controle. - tudo bem que a corrida era ilegal e que ela e Travis haviam empreendido fuga, o que só piorava a situação, e que no meio de tudo isso eles ainda causaram danos ao patrimônio público, mas eram apenas detalhes. E levando em consideração que ela estava indo para casa agora nem mesmo os polícias consideravam a situação tão grave, certo? - Spencer?
- Camille agora não. - Spencer pronunciou as palavras calmamente sem alterar o tom de voz, o que apenas deixou claro para Camille que ela não deveria forçar a barra. Não no momento.
Um Spencer calmo e controlado, quando você sabia que ele não devia estar calmo e controlado, era algo para se levar em consideração, portanto Camille simplesmente se calou, olhou para a paisagem através de sua janela e esperou.
Vinte minutos depois Spencer estacionava o carro em frente a porta de umas das melhores casas localizada no bairro com o metro quadrado mais caro da cidade, após contornar um grande chafariz que jorrava água sob o efeito de luzes azuladas. Os dois saíram do carro em silêncio, Camille carregando o saco com seus pertences e seguindo Spencer para a porta da frente que foi aberta por Judith, a governanta, que também se encontrava impecavelmente vestida como se não fosse de madrugada.
Spencer passou por Judith e seguiu diretamente para a escada, fazendo seu caminho para cima e deixando uma Camille estática ao pé da grande escadaria.
Alguma coisa estava errada.
Esse não era o roteiro que eles seguiam sempre que Spencer a buscava de uma de suas aventuras que acabavam mal. Nada de sermões, nada de ameaças e nada de olhares raivosos ao apontar suas falhas em se comportar da forma que a filha do Grande John Spencer deveria se comportar diante da sociedade.
Spencer deveria ter ficado e a enchido com discursos intermináveis de responsabilidade e decoro.
Camille olhou para trás onde Judith ainda aguardava após ter fechado a porta.
- Qual o problema com ele?
Judith respirou fundo.
- Ele está cansado e hoje foi um dia muito longo. Siga seu exemplo, suba e vá descansar. - dizendo isso ela se dirigiu em direção à cozinha deixando Camille sozinha.
Ótimo. Se ele estava cansado o suficiente para abdicar de seus discursos a única que estava ganhado era ela.
Sem ter muito o que fazer parada ao pé da escada, sozinha e de madrugada ela seguiu o conselho de Judith e subiu em direção a seu quarto. Ela entrou sem acender as luzes se guiando pela luz da lua que entrava através das portas da sacada que ela havia deixado abertas mais cedo antes de sair, seguiu diretamente para o banheiro retirando toda sua roupa no caminho e entrando embaixo do chuveiro quando este atingiu a temperatura ideal. Ela não estava no clima para um banho de banheira, não mais. Alguma coisa na atitute de Spencer a havia deixado desconfortável.
Não era do feitio dele simplesmente deixar ir. Não combinava com ele. Nunca havia acontecido antes.
Talvez se devesse a isso o seu desconforto. Ela não estava habituada a essa nova faceta de Spencer e ele como o grande estrategista que era devia ter previsto que talvez uma mudança de atitude pudesse ter algum efeito sobre ela. Já que seu falatório não tinha.
Bem, seja o que for, ela não iria cair na sua armadilha e passar a noite se preocupando com o porque de sua mudança repentina. Ela não iria dar esse gostinho a ele.
Saindo do banho Camille se envolveu em uma toalha e saiu do banheiro, se vestiu colocando seu pijama habitual, um shorts e uma camiseta regata preta e se enfiou embaixo dos lençóis após fechar a porta para a claridade da noite e rapidamente pegou no sono cumprindo sua promessa de não se preocupar mais com Spencer e seus jogos.
****
Camille despertou na manhã seguinte devido a um som incessante que insistia em se infiltrar em seu sono.
O som cessou mas após alguns minutos ele retornou e dessa vez ela reconheceu o som. Era Highway to Hell do AC/DC acompanhado do inegável barulho de um celular vibrando a todo vapor.
Alguém estava ligando para seu celular.
Ao erguer seu corpo da cama ela logo achou a localização do mesmo. Ele ainda se encontrava dentro do saco plástico que Spencer havia lhe entregado na noite passada e que ela havia jogado sobre a mesinha de cabeceira ao entrar no quarto. Se esticando ela alcançou o saco e virou seu conteúdo sobre as cobertas mas quem quer que estivesse ligando já havia sido encaminhado para a caixa de mensagem. Olhando a tela ela viu que haviam no total de cinco ligações perdidas e todas eram de Travis. Se recostando novamente em seus travesseiros ela devolveu a chamada.
- Meu Deus até que enfim! - Travis respondeu no primeiro toque. - Achei que Spencer ainda estava te martirizando.
- Bom dia para você também. - um bocejo lhe escapou enquanto ela se espreguiçava.
- Boa tarde, princesa. - Travis respondeu sem disfarçar seu divertimento.
- Não brinca! Que horas são? - Camille perguntou sem realmente se preocupar se ainda era de manhã ou se já era de tarde. Ou se haviam se passados dias. Ela ainda estava com sono.
- Já são duas da tarde e graças à nossa farra de ontem à noite estou no escritório desde às nove.
O pai de Travis era dono de uma empreiteira e sempre à forma de castigo o botava para trabalhar em seu escritório quando Travis aprontava. E como eles estavam no primeiro dia de férias da faculdade era bem provável que ele tivesse pela frente umas férias bem divertidas regada a trabalho de escritório e visitas à obras pela cidade.
- Sinto muito por você.
- Sente nada. Você provavelmente está achando graça - ele não estava errado. Travis ficava sempre tão revoltado que era hilário vê-lo resmungando toda vez que isso acontecia - Pelo menos valeu a pena. E aí como foram as coisas?
- Por enquanto nada.
- Nada? Como assim nada? - Travis parecia tão confuso quanto ela havia ficado.
- Nem uma palavra. Ele ficou calado o caminho todo e então simplesmente subiu para o quarto.
Camille ouviu um assovio baixo do outro lado da linha.
- Nova tática?
- Talvez... Quem sabe? - O estômago de Camille roncou a lembrando de que fazia muito tempo desde sua última refeição. - É melhor você voltar para seu trabalho antes que seu pai desconte da sua folha de pagamento.
- Nem me diga! O velho cortou minha mesada até segunda ordem. - Travis choramingou.
- Até mais.
- Tchau princesa.
Alguns minutos mais tarde Camille descia a escada e seguia em direção à cozinha nos fundos da residência, em busca de uma refeição tardia. No caminho ela passou por corredores iluminados pela luz do sol que se infiltravam junto com uma brisa suave através das cortinas esvoaçantes que cobriam as muitas janelas que haviam. O barulho dos pássaros que rondavam as inúmeras árvores que contornavam o local compunham uma bela música de fundo para o clima de calmaria que envolvia o ambiente. Essa havia sido a intenção de sua mãe ao escolher a casa. Calmaria e mansidão.
Havia sido paixão à primeira vista.
Eleonor Spencer havia saltitado como uma criança e implorado a seu marido, que a havia atendido no mesmo segundo com um sorriso bobo no rosto, que ficasse com a casa. Seu chão de madeira de cerejeira, suas paredes em tom de creme, seus tetos ornamentados de forma sutil e principalmente a quantidade de janelas que deixavam que o sol entrassem iluminado todo o ambiente e permitia que um pouco da natureza que havia em seu entorno se infiltrasse em seu interior foram decisivos para que ela se apaixonasse.
Ela havia se sentido em sua essência.
Uma fada voltando para seu reino encantado. Um ser iluminado que trazia luz para a vida dos que a rodeavam.
Uma luz que havia se apagado...
Quando uma pontada atingiu o peito de Camille ela se apressou em seguir seu caminho em direção aos fundo da casa. Ela havia se esquecido de como essa casa se parecia de dia. Era por isso que ela apenas a aturava de noite.
- Camille.
Ao ouvir seu nome ela parou. Ela não havia percebido mas ela estava passando em frente ao escritório de Spencer que se encontrava com as portas duplas abertas, como se a estivesse esperando.
Ela parou à porta observando que seu escritório parecia tão ensolarado quanto o resto da maldita casa. Qual era o problema com cortinas com tecidos menos transparente e esvoaçantes?
- Entre e se sente. - Spencer ordenou.
- Eu estava indo para a cozinha...
- Não estou pedindo Camille.
ŞİMDİ OKUDUĞUN
Uma Razão Para Viver
RomantizmCamille Spencer era uma garota de sorte. Aos vinte anos sua vida deveria ser perfeita e seu futuro tinha tudo para ser... Perfeito. Mas ela estava quebrada. Ela não se encaixava mais em sua própria vida e tudo que ela fazia parecia sempre le...
