Ele esperou no carro. Tinha estacionado sob uma daquelas longas filas de luzes. Ninguém mais queria
estacionar ali. Ele imaginava o motivo. No terceiro veículo depois do seu, ele viu as costas de uma
mulher contra uma janela, o cabelo sacudindo. Uma vez, ela virou a cabeça e ele quase viu seu rosto, o
azul dos dentes enquanto sorria.
Quinze minutos se passaram antes que Lorie chegasse cambaleando pelo estacionamento, os saltos
estalando.
Ele ficara trabalhando até tarde e nem mesmo sabia que ela não estava em casa até chegar lá. Quando
ela atendeu o celular, lhe disse onde estava, um bar do qual ele nunca ouvira falar, numa parte da cidade
que não conhecia.
– Eu só queria algum barulho e pessoas – explicou ela. – Só isso, mais nada.
Ele perguntou se queria que fosse pegá-la.
– Tá – respondeu ela.
No caminho para casa ela começou aquilo de "rir-chorar" que fazia ultimamente. Ele queria ajudá-la,
mas não sabia como. Isso o fez recordar do tipo de garotas que costumava namorar no ensino médio,
aquelas que escreviam nas mãos com canetas e se cortavam nas cabines dos banheiros da escola.
– Eu não dançava havia muito tempo, e se fecho os olhos ninguém consegue ver – dizia ela, olhando
pela janela, a cabeça apoiada no vidro. – Ninguém lá tinha me reconhecido, até uma mulher que eu não
conhecia me reconhecer. Ela ficou gritando comigo. Depois me seguiu até o banheiro e disse estar
contente por minha garotinha não poder me ver naquele momento.
Ele sabia o que as pessoas iriam dizer. Que estava dançando num bar vagabundo de pegação. Não
iriam dizer que chorou toda a viagem para casa, que não sabia o que fazer consigo mesma, que ninguém
sabe como irá reagir quando algo assim acontece. O que provavelmente não acontecerá.
Mas ele também queria se esconder, queria ele mesmo encontrar uma cabine de banheiro em outra
cidade, outro estado e nunca mais ver qualquer um que conhecesse, especialmente sua mãe ou sua irmã,
que passavam o dia inteiro na internet tentando espalhar as notícias sobre Shelby, recolhendo dicas para
a polícia.
As mãos de Shelby – bem, as pessoas sempre falam sobre mãos de bebê, não é mesmo? –, elas eram
como florezinhas apertadas e ele adorava colocar as palmas das suas sobre elas. Ele nunca soube que se
sentiria assim. Nunca soube que seria o tipo de cara – até mesmo que havia esse tipo de cara – que
sentiria o cheiro de leite do cobertor de bebê da filha e se sentiria aquecido por dentro. E até, algumas
vezes, apertaria o rosto sobre ele.
Ele demorou muito para tirar as botas de caubói vermelho-escuro que ela calçava, e que ele não
reconheceu.
Quando tirou seu jeans, também não reconheceu a lingerie. Na frente havia uma borboleta preta, as
asas adejando sobre suas coxas a cada puxão.
