Capítulo 1

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A cozinha ainda estava mergulhada no cheiro de café fresco quando a voz da mãe ecoou:

— Sophia, anda logo, senão vai perder o ônibus outra vez!

Branca estava de avental, mexendo distraída a colher dentro da xícara fumegante. O barulho da televisão baixa, ligada no noticiário da manhã, se misturava ao tilintar de pratos na pia.

Sophia surgiu no cômodo com o uniforme impecável e a mochila já nas costas, como se fosse uma cena ensaiada.

— Até parece, mãe. Você sabe que eu não atraso. — sentou-se à mesa com um sorriso leve.

Branca arqueou uma sobrancelha, divertida. — Não mesmo. Minha filha é a mais certinha da escola.

Sophia riu de canto, mas não respondeu. Em vez disso, serviu-se de um copo de leite e passou manteiga no pão, atenta ao relógio na parede. O ponteiro dos minutos parecia desafiá-la a cada segundo.

Do outro lado da mesa, Jhenifer, com apenas cinco anos, se equilibrava na cadeira grande demais para o seu corpo frágil. Mastigava devagar um pedaço de pão, os olhos brilhantes, embora a pele pálida denunciasse a luta diária contra a doença.

— Bom dia, pequena. — Sophia inclinou-se e beijou-lhe a bochecha, fazendo a irmã rir baixinho. — Já terminou a lição que a tia te passou?

— Fiz ontem com a mamãe. — Jhenifer respondeu, orgulhosa, erguendo o queixo.

— Muito bem! — Sophia afagou-lhe os cabelos finos. O coração sempre apertava ao sentir a textura rala dos fios, mas escondia esse sentimento atrás de um sorriso firme.

Branca apoiou-se no balcão, observando as duas. — Parece mentira que já estamos na metade do ano.

Sophia suspirou fundo, deixando o olhar escapar pela janela, onde o sol ainda tímido iluminava a rua simples do bairro. — Ano que vem já é a faculdade...

— E você vai passar, eu sei disso. — a mãe falou com convicção, mas havia também um fio de cansaço na sua voz. — Deus sabe o quanto você batalha.

Sophia sorriu com gratidão. — Amém, mãe.

O silêncio pairou por um instante, preenchido apenas pelo noticiário da TV. Sophia sabia que Branca carregava preocupações demais, principalmente com o tratamento de Jhenifer. Quantas vezes ela mesma já tinha se oferecido para arrumar um emprego de meio período, qualquer coisa que ajudasse? Mas a resposta da mãe era sempre a mesma: "Seu trabalho é estudar, filha. Eu me viro."

— Sabe o que é, mãe? — começou, baixando o tom. — Às vezes eu penso que podia ajudar mais. Não é justo você segurar tudo sozinha.

Branca virou-se, firme, mas com o olhar marejado. — Sophia, não começa. Eu já te disse: seu futuro é a prioridade. Quando você entrar na faculdade, tudo vai valer a pena.

Sophia mordeu o lábio, lutando contra a vontade de insistir. Engoliu as palavras junto com um gole de leite e forçou um sorriso.

— Tá bom... mas ainda vou insistir de novo outro dia. — tentou descontrair, arrancando um riso abafado da mãe.

Jhenifer, alheia à seriedade da conversa, balançava as pernas curtas sob a mesa. — Mana, quando você for pra faculdade, ainda vai brincar comigo?

Sophia se virou para ela, tocando-lhe a mão pequenina. — Claro que vou, neném. Faculdade nenhuma vai me roubar de você. — piscou, fazendo a irmã rir outra vez.

O relógio na parede bateu mais alto aos ouvidos dela. Sophia levantou-se num pulo, pegando a mochila.

— Pronto, já vou! — ajeitou os cabelos no espelho da geladeira. — Se eu perder esse ônibus, não tem desculpa que me salve.

Virada [EM REVISÃO]Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora