Ouço o sinal tocar, a aula havia acabado e eu nem se quer percebi, o sol já estava quase se pondo e o céu em um tom alaranjado que enchia meu coração de incertezas, era hora de voltar para casa depois de um dia deprimente onde a única coisa que fiz foi sentar em minha carteira e olhar através da janela enquanto a aula passava. Mas agora tudo iria acabar, pois vou casa dar um abraço em minha mãe que me espera com um jantar delicioso que só ela sabe fazer, certo? Errado.
Há mais ou menos uma semana atrás minha vida quase perfeita se afogou em um mar de tristeza, foi naquele dia... ela estava voltando de um longo dia de trabalho, mesmo cansada estava indo para casa preparar o jantar e esperar sorrindo a mim e meu pai, mas seu caminho foi interrompido... era um dia chuvoso e ela voltava de carro, o que nos disseram foi que ela tentou desviar de um carro em alta velocidade que estava vindo na contra-mão, o motorista estava bêbado e nem parou o carro. Naquele dia eu perdi minha mãe, minha alegria e minha vontade de viver.
Saio da escola e sigo para casa de cabeça baixa e sem prestar atenção em nada, parecia um zumbi, embora já tenham se passado vários dias eu só conseguia pensar em minha mãe. Saio do transe quando escuto meu celular tocar, "Pai" era o que dizia o contato:
- Alô - Falo com uma voz deprimente.
- Oi é... filho? Você já saiu da escola? Quer que eu vá te buscar? - Diz ele preocupado.
- Não, não precisa, eu quero caminhar um pouco então vou andando mesmo.
- Tudo bem então, preparei um jantar ótimo, não é como o da sua mãe mas espero que você goste, estou te esperando, cuidado ok? Tchau! - Diz antes de desligar.
Meu pai está fazendo de tudo para que eu me sinta melhor, sei que ele também está sofrendo mas está sendo muito forte. Chega todo dia mais cedo do trabalho e dá o seu melhor para ser pai e mãe ao mesmo tempo.
Continuo andando, porém em poucos passos dou um salto para trás assustado, uma gata branca passa correndo por entre minhas pernas, ela carregava algo em sua boca, parecia ser um peixe, logo atrás vinha seu José, dono da peixaria, correndo com uma vassoura e gritando:
- Saia já daqui sua gata ladra de meia tigela!
Eu apenas ignorei e segui meu caminho, logo cheguei em casa e meu pai me esperava para jantar, tomei um banho e me juntei a ele. A comida dele era ótima, mas não se comparava a que a minha mãe fazia e nós dois sabíamos disso.
- E então como foi a escola? - Tentou puxar assunto.
- Ah foi... legal, eu acho...
- Sabe Leon, eu sei que você está muito triste por conta de tudo que aconteceu e eu também, mas o melhor a se fazer é seguir em frente, não estou dizendo para esquecer sua mãe, afinal isso é impossível tanto para mim quanto para você, mas tenho certeza que ela não iria querer que ficássemos tristes deste jeito por causa dela. Sua mãe era uma pessoa incrível, eu sei bem disso, você deve seguir sua vida sabendo que ela sempre vai estar conosco. Tente se animar, não quer que ela fique zangada com você quer? - Vejo ele dar um leve sorriso de canto de boca quase que invisível, porém seu olhos pareciam estar cheios de lágrimas, ele estava se segurando para não chorar.
Eu me levantei, então fui até ele e lhe dei um abraço muito forte:
- Eu nunca vou esquecer dela, pai, por que ela teve que ir tão cedo? porquê? - Começo a chorar.
- Eu sei filho, a vida as vezes é injusta, mas seja forte, seja forte e não deixe ela te derrubar. - Ele deixa uma lágrima cair.
Enxugo minhas lágrimas e vou para o meu quarto, deito na cama e fico olhando para o teto pensativo. Não sei bem quanto tempo passei lá deitado, também não sei quando peguei no sono, mas naquela noite sonhei com minha mãe e ela me dizia para ser feliz, que estaria sempre lá por mim, quando acordei... chorei de novo.
Levanto de manhã e vou para o banheiro. Depois de me encarar por um tempo na frente do espelho escovo os dentes e lavo o rosto, são dez e meia, dormi até tarde. Desço as escadas, e percebo que meu pai não está em casa, provavelmente já tenha ido trabalhar, na cozinha meu café da manhã sobre a mesa com grande chance de estar frio, junto a ele um bilhete:
"Bom dia campeão, fui trabalhar e você ainda estava dormindo então preparei seu café com esperanças de que você acorde logo, tem comida no fogão para o almoço então você deve conseguir se virar, não falte a aula ok?! Lembre-se: Seja forte!."
Ir a escola era a única coisa que me impedia de passar o dia inteiro trancado no meu quarto, porém as féria já estavam por chegar. Eu estou no primeiro ano do ensino médio atualmente e tiro boas notas, bom... pelo menos até agora.
Decidi ir assistir TV ao invés de me trancar no quarto, talvez me distraísse um pouco até a hora de ir para a escola. Até que funcionou, logo chegou a hora de ir então tratei de me arrumar e partir rumo a fora, estava me esforçando para parecer menos deprimido assim como meu pai disse, até forcei um sorriso na frente do espelho, mas não estava adiantando muito. No caminho para escola com o sol bem forte de meio-dia fui tentando parecer menos triste, continuava não ajudando muito. Em certo momento olho para o outro lado da rua em que eu seguia e vejo uma gata, parecia ser a mesma da outra vez e estava olhando para mim, me encarando com um olhar fixo. Seu pelo branco meio amarelado, pois estar um pouco sujo, mostrava que era uma gata de rua e mesmo assim não deixava de ser linda com seus olhos azuis. Não durou muito tempo a nossa troca de olhares, um ônibus surgiu entre nós e quando ele passou ela havia sumido, continuei minha jornada para mais um dia de aula.
Finalmente cheguei na escola e ao mesmo tempo chega Max que põe a mão sobre meu ombro:
- Ei cara, tudo bem? Não conversamos faz um tempo já, você parece bem abatido. - Max era o que eu podia chamar de melhor amigo, ele não ia muito a escola, Max tinha uma saúde frágil desde criança então de vez em quando tinha alguns problemas. A ultima vez que veio para a escola foi antes do acidente com minha mãe acontecer, ele teve que ficar afastado depois disso.
- Ah, oi Max é você? Não estou muito bem sabe?! E você, já se recuperou?
- Estou firme como a muralha da China - ele sorri, mas o sorriso não dura muito e se desfaz - Fiquei sabendo do que aconteceu com sua mãe, eu sinto muito Leon, ela era uma ótima pessoa.
- É, ela era a melhor pessoa do mundo...
- Vamos para a sala? - continuamos caminhando juntos até a sala e ele senta ao meu lado.
Horas se passam, a aula foi bem mais legal hoje graças a Max, acho que ver ele me animou um pouco, no intervalo me pagou um refri e fomos até o telhado da escola, era proibido alunos subirem lá mas por algum motivo não nos impediram, acho que a família de Max tem uma certa influência sobre a escola e por isso não nos incomodaram, achei estranho mas não falei nada.
A vista lá de cima era surpreendente, conseguia ver todos os arredores da escola e uma brisa refrescante e tranquila reinava por lá, olhando ao redor até vejo lá em baixo aquela gata de antes fuçando no lixo, talvez o zelador fique zangado.
- Ei cara, sei que está sofrendo muito e talz, não vou dizer que entendo o que está sentindo mas sei que deve ser uma coisa horrível, quero que saiba que pode contar comigo se precisar de alguma coisa, e o que eu quero dizer é... seja forte! Você é uma pessoa muito legal, somos amigos desde pequenos e te considero como um irmão, então... conta comigo... ok?! - Diz Max, meio sem jeito pondo a mão no meu ombro. Eramos realmente como irmãos e aquelas palavras de certa forma me deixaram mais tranquilo.
- Obrigado... irmão... - tento dar um sorriso, meio que sem sucesso. Ele sorri e voltamos para a aula. Finalmente a hora de sair chegou e nos despedimos no portão.
Segui meu caminho, andando de novo, minha casa não era tão longe. Já estava escurecendo e as ruas estavam tranquilas, tranquilas até de mais. De repente eis que surge correndo de um beco a tal gata branca que eu ando vendo muito recentemente, ela parecia muito assutada e corria desesperadamente de algo, logo atrás dela surgem do beco dois enormes feios e furiosos cachorros. Atravessaram a rua e seguiram em direção a um outro beco ali perto, pensei em ignorar e seguir meu caminho, mas lembrei que aquele beco para onde foram era sem saída e a gata seria pega com certeza por aqueles dois cães raivosos que não pareciam estar para brincadeira. O que seria dela? Seria feita em pedacinhos sem dúvida, mas o que eu O que eu deveria fazer? Eu não tinha chance contra aqueles cachorros e também não tinha nada a ver com a gata, mas... por algum motivo eu corri em direção ao beco sem nem saber o que faria, porém o que veio na minha cabeça aquela hora foi: "Seja forte!"...
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Minha incrível gata
FantasíaMisteriosa, essa é a palavra que mais define Saphira, com seu pelo branco e seus curiosos olhos azuis que mais parecem um abismo profundo pronto para te devorar. Porém algo me diz que Saphira é mais do que uma simples gata bonita, ela esconde um se...
