HOSPITAL UCLA MEDICAL CENTER - LOS ANGELES, CALIFÓRNIA.
O tempo não condizia com a normalidade. Já aproximava-se de um horário determinado para se almoçar e mesmo assim, segundo o céu, poderia-se dizer até que era fim de tarde. O verão estava batendo a porta e, extraordinariamente naquele vinte e cinco de junho, o cinza cobria o ar. Ontem naquele mesmo horário já beirava o inicio dos trinta graus e agora, nuvens grossas e fortes se protagonizavam lá no alto.
Deu o último gole do puro café e regressou para a recepção do centro médico. Após doze horas, seu turno finalmente havia chego ao fim. A medicina conseguia ser o maior acerto e arrependimento para a vida de quem praticava, ainda mais sua área: cardiologia. Em seus quarenta e dois anos, já era incontáveis as vezes que pensou em desistir.
Caminhou em direção contrária do corredor que dava caminho até as UTI's, quartos e todo o manicômio que se chama de hospital. Iria até o vestiário, apanhar sua mala e sonhar com sua sua casa.
- Jack! - O timbre pesado o interrompeu enquanto caminhava. Vinha do ''manicômio'' que havia se referido. Se não estivesse frustrado demais para se concentrar, teria reparado no tom um tanto desesperado que aquela voz carregava.
Era seu chefe.
- Doutor Albert. - Virou-se, com um sorriso falso. - Estava indo embora, meu turno acabou agorinha.
O que ele queria pelo amor de Deus?
- Eu sei. - A respiração do velho já beirando aos seus sessenta anos estava intercortada. - Mas... Você não pode ir.
Jack controlou sua reação de ira. Não era a primeira vez e nem a última.
- Senhor, eu entendo. Mas é que, realmente já passou do meu horário, os residentes estão todos aqui e o Mark e a Jenna os vão monitorar.
- Jack, eu não estou falando de monitorar residentes, droga. - Esforçou-se para não gritar. Julian Albert olhou ao redor para ter a certeza de que ninguém os vigiava. Apenas uma recepcionista preenchia um relatório. Estava aflito, mas se queria que Jack fizesse um bom trabalho não poderia passar isso para seu médico. - Recebemos uma ligação. Pedindo uma ambulância, de um bairro de alta classe.
Jack revirou os olhos. Já entendeu tudo... Famoso.
- Se me disser que George Bush teve um infarto, vou logo avisando que o deixo morrer. Então é melhor eu ir pra casa.
- Michael Jackson. - Disse rapidamente, até mesmo sua garganta tremia.
As pestanas de Jack piscaram três vezes na velocidade de um furacão.
- Não brinca. - Paralisou-se, tão perplexo quanto o outro. Não tinha o que pensar. Não havia probabilidade de ir embora. - Esse lugar vai ficar uma loucura, há quanto tempo essa ligação foi feita?
- Um pouco mais de cinco minutos. Eu vou ficar na recepção aguardando a família dele, é bem provável que venha muita gente. A ambulância vai entrar pelos fundos.
- Vou avisar a minha equipe. Vamos esperar lá mesmo. - Falou apressado, já apanhando o paige no bolso de seu jaleco.
Bipou os residentes necessários e correu, não poupando suas pernas.
--x--
INGLATERRA.
Secou as lágrimas. Já era terceira vez só naquele dia. Não sabia explicar, simplesmente acordou daquela maneira. Com um mal estar emocional dentro de si. Chorou sem uma razão para isso. Tanto que a primeira coisa que fez quando aquela sensação lhe atingiu, foi correr para o quarto das gêmeas e checar o que poderia ser um pressentimento materno. Mas não. Dormiam tranquilamente.
Ligou para os outros dois filhos, que não viviam mais consigo. Aparentemente tudo na mais perfeita ordem. Após isso, serviu-se com um café e chorou de novo.
Lisa Marie, o que deu em você?
Telefonou para sua mãe, sendo atendida pela empregada. '' Dona Priscilla foi fazer as unhas, senhora Lisa Marie. Quer deixar recado?''. Apenas pediu para que retornasse quando tivesse tempo.
Aproveitou para fazer coisas básicas do dia sem o costumeiro ânimo. Não sentia a presença daquela adolescente sem vontade de viver dentro de si tinha muitos anos. Mas naquela manhã, ela estava firme.
TPM não era. Não estava no dia.
Chorou mais enquanto comia um prato de comida. Michael, como sempre dormia até tarde e as gêmeas riam na sala com um desenho na tv.
Seu peito apertou mais junto com uma dor que não conseguia explicar. Sem que nem ao menos notasse, mais lágrimas.
O que estava acontecendo?
--x--
O pneu cantou alto no estacionamento, em decorrência da velocidade que correu perante os asfaltos da rua. Antes mesmo que a adrenalidade invadisse seu ser, a parte de trás da ambulância foi aberta, onde três homens desceram a maca que repousava um corpo desmaiado e entubado.
Nem ao menos houve tempo de tentar tirar a primeira impressão do físico ou aparência em geral do homem. Assim que a figura fez contato com seus olhos, Jack lhe tocou ao pulso.
- Sem pulsação. - Constatou em voz alta para os residentes ao redor. - Maggie. Respiração cardíaca, agora. - Exigiu para a aluna. Uma loira de menos de 1,55 de altura e provavelmente cinquenta e um quilos.
Sem contestar, Maggie subiu a maca montando ao homem pela cintura, em uma posição que estranhamente remeteria ao sexual para quem não estava acostumado aquela rotina. Apesar da aparência frágil, Maggie tinha a mão pesada, colocando toda a força de seu punho contra o peito do senhor aparentemente seu resposta.
Paralelo a isso, empurraram a maca para dentro do estabelecimento.
- Batimentos fracos... - Um dos médicos da ambulância continuava a falar enquanto corriam todos.
- Não está respirando. - Jack gritou, ao encarar o aparelho eletrônico quase que acoplado a máquina.
- Havia um profissional particular dele na casa, está na ambulância conosco. Quer falar com ele?
- Se havia um médico particular não era pra ele estar aqui. Opinião de inúteis, não me interessa agora. Mais rápido. - Aceleraram o passo.
Já próximos à porta de entrada da UTI, um dos doutores puxou o corpo de Maggie de cima do mesmo ainda estático. A partir do momento em que o estado do paciente foi visto, sabiam o que ia acontecer assim que chegassem a sala.
- Choque. - Ordenou, com a voz mais potente do que nunca. O daria pra ouvir até mesmo do outro lado daquele centro.
De novo na previsibilidade pelo caso, antes mesmo de Jack olhar ao redor o desfibrilador já estava em sua fronte, trago por uma das enfermeiras.
- Afastem. - Disse, levando o aparelho ao peito do homem já com a camiseta rasga, provavelmente na própria ambulância. O corpo pulou com o impacto, mas não houve alteração no monitor. Tentou outra vez, agora com mais pressão, elevada pela fúria de seu fracasso logo na primeira tentativa. Nada.
- Pressão baixa. - Uma enfermeira avisou, já com tom de pêsames.
- Epinefrina. Andem, depressa. Injetem. - Seu desespero veio evidente.
A droga foi posta direto pela veia das mãos trêmulas de uma das presentes. Aquela situação normal de um dia a dia, agora era substituída pela estranheza de já estarem com as mentes cientes de quem estava ali naquela cama.
Os mínimos segundos de aguardo por uma resposta vieram lentos e torturantes. Mas ainda mais torturante veio a o marasmo de antes. Sem resposta.
- Choque. - Novamente o mesmo berro e a mesma ação. Ele saltou de novo, voltando a posição anterior. Reaja homem, reaja. Seu pensamento implorava. De repente o tempo frio que constatou há meia hora atrás já havia ficado longe, estava mais calor que nunca. - Aumenta... Vamos pro máximo, andem. - Exigiu, recebendo olhares tortos em troca. - ANDEM. - Bateu o pé firme no que faria.
Em hesitação, a ordem foi cumprida por um outro residente.
Jack pressionou seus lábios com toda a pele de sua boca, requerendo das mãos uma força que não possuía. A de um sansão moderno pré-Dalila, jogando-se quase que contra o rapaz, onde ainda sim não poderia tocar a cama, para que ele mesmo não levasse aquele choque e perdessem duas vidas. Como não encostou, não soube dizer. Milagre? É, talvez. Mas mesmo sim pôde assistir seu próprio suor cair sobre a face do paciente.
Pressionou da exata maneira que um ima pressionaria o objeto de atração, colorindo seus dedos de vermelho em seguida pelo esforço.
Um. Michael elevou, ainda mais alto.
Pôs mais punho.
Dois. Subiu, aumentando a altura.
Repetiu. Um, dois, três.
Na última, deixou escapar um grito de dor pessoal pois cometeu o erro de olhar o monitor de ritmo cardíaco, estava no fim. Ou perto dele, não soube identificar. Mas a força que colocou nas mãos, era mais pelo fracasso, do que para tentar de novo. Mas já estava tão perto do peito que seria inútil não encontrá-los pela última vez.
Era isso, havia perdido.
- NÃOOOOOOOOOOO. - Terminou de ecoar seu grito, pronto para chutar a primeira coisa que visse atrás de si, quando para sua surpresa a mesma garganta que berrou, o impediu de escutar outro barulho.
Bip, bip. bip.
Estava vivo.
--x--
INGLATERRA.
'' Você está bem?''
De novo? Pensou já estressada. Era a quarta vez que recebia uma mensagem com aquele tipo de pergunta.
'' Como está?''
'' Tá tudo bem, precisa conversar?''
E coisas do tipo.
Será que tinham adivinhado a porcaria de dia que teve?
Olhou aquela luxuosa sala de estar no estilo de uma fazenda, dos anos 70 sentindo-se pequena com o ambiente. Como se a casa estivesse a engolindo.
'' Me liga, estou preocupado''. Outra vez.
Não era possível que tabloides poderiam saber até mesmo seus pensamentos e que já estava circulando que passou o dia todo chorando por algum tipo de TPM. Sim, tpm.
Temperatura PÓS menstrual. Era a única explicação que tinha para seu comportamento absurdo.
De qualquer forma era melhor saber o que estava acontecendo.
- Oi Clark. - Falou após discar o número.
Assim que terminasse aquela ligação se enrolaria em uma cama para dormir, sentia-se de novo com vontade de chorar.
- Oi liz. Como você está? Estava quase te ligando.
Aquele tom de voz. Piedoso, falando meticulosamente. Já ouvira no passado, mas muito raramente.
- Vi suas mensagens. Aconteceu alguma coisa? - Resolveu não contar que ele não era o único lhe fazendo a mesma pergunta.
Do outro lado da linha, Clark franziu as sobrancelhas. Ela não perguntaria isso se soubesse.
- Liz, você ligou a tv hoje? Ou entrou na internet?
- TV e internet? Você me conhece muito mal, meu amigo. - Riu, em uma ironia. Percebendo a seriedade dele somente alguns instantes após seu comentário. Calou-se, engolindo seco. Sim, havia algo estranho. - O que aconteceu, Clark? Me conta, vai.
Uma respiração profunda veio dele.
- Uma ambulância foi vista saindo da casa do seu ex- marido, o Michael. Estão dizendo em todos os canais e em todos os sites que ele está morto.
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Mine Again
RomanceDia 25 de junho de 2009. E se os acontecimentos daquela data fossem diferentes? Após sobreviver a um dos eventos mais traumatizantes de sua vida, Michael Jackson luta para recolocar a rotina em ordem e se dá uma nova chance. Tendo que reencontrar-se...
