Era uma manhã salgada. O cheiro frio do mar ardia-me o nariz, quasefazendo com que caísse, que descascasse a pele como escamas depeixe.
Nessa manhã foi que quase morri. O riso da história ecoava esomente a sensibilidade a ouvia. Ecoava na eternidade. O quase nãoera real, perguntava-me...
Estava grávida, sentia que era uma menina, o médico me havia ditocom certeza e total veemência, ele a via. Ele a via! Dissera: — Umbrilho está ao seu lado, é azul claro e sorri com bondade eternura. Há de dar à luz um anjo.
Cri nas palavras, emocionara-me, olhos cheios d'água, salgada como opróprio mar. Amava observar o peso do azul, vê-lo se emendar com océu no horizonte frio. Havia momentos em que era só o cinza claro,demorando a voltar a cor marinha.
Ela se chamaria Ázul.
Henri era o nome do médico. Um rapaz muito jovem para tamanhasabedoria que expressava; conhecia o que qualquer um pudesse terapenas com um relance. Tinha comigo que, muitas das vezes, fingiaexaminar, simulava demorar-se para ter com que sustentar o que jápodia dizer só com os olhos.
Conversávamos muito. Eu ficava envergonhada do falatório da região,já que meu esposo deixava que eu o visitasse em sua ausência, evice versa, ao deixar que Henri viesse à nossa casa.
A língua dos empregados era solta. Meu marido desejava meu bem epagava visitas periódicas, não importava o quanto eu negasse suabondade.
Deitava para que ele ouvisse o coração da criança. Sorria aoresponder-me: — É uma criança saudável. Está feliz por vir emvocê.
Então eu ficava ruborizada pelo pranto a que meu coração de mãese entregava.
Henri era a mais tenra criatura.
Andava pelos corredores quando peguei Liza desesperada. Ele, omédico, acidentara-se ao cair de nossa escada. Uma perna estava aosfrangalhos.
Sentei-me à cama, horrorizada; espanto deturpando meu cenho. Eraépoca de viagem de trabalho de meu marido, não sei o que ele fariaou como se comportaria por tal situação, mas guarneci Henri,evitando que retornasse para a casa acidentado. Os empregados de casabuscavam tudo o que era preciso para que cuidasse da perna.
Cuidávamos um do outro, de certa forma. Sentia receio que ele sesentisse mal ou sozinho, então lia para ele e para Ázul. O períodode nascimento estava próximo quando comecei a chorar.
Henri por pouco não enlouqueceu para consolar-me. A razão era que amenina nasceria e meu marido estava fora ainda.
As línguas dos empregados não era apagada por nada no mundo, nemmesmo ao ver a senhora da casa chorando torrencialmente. Línguasaleivosas, maledicentes, perniciosas: — Henri a consolou.
— Está cada vez mais próxima do doutor.
Lá fora, cada serpente humana balbuciava de um jeito.
— Ela deve servir bem ao médico para que fique tanto.
O sorriso de Henri me confortava e fazia sumir tais disparates; elenão pensava as anomalias e bestialidades que a vila imaginava.
Numa noite, vi que Tereza não respondia. Por onde andava a gorduchaempregada? Não desejava desperdiçar seus bons serviços, era umpagamento mui justo por arcar com sua fala intrometida e narizenxerido. Se era dinheiro o que queria, poderia conversar comigo.
Achei que tinha fugido, e estava correta, na época, ao pensar assim.A mulher não voltou mais. O pedido ao nome Tereza nunca mais foirespondido.
Estranhei, mas ignorei para o bem maior, da minha menina, da maispura felicidade de meu marido encontrar a criança mais saudável queviria em eras! Ao contrário do que todos desejavam, ele pulou defelicidade por ter um princesa.
Eu estava sentada à minha cama, terminando a oração, quando ouviAmanda chamar Liza e não ser respondida.
Virei-me e deitei para dormir. De manhã, Amanda não respondia. Rosapreparava meu desjejum e não havia visto coisa alguma, nem ouvidopalavras, nem cogitado fuga ou motim.
No almoço, Rosa não atendia mais, restava-me Clara. Fiquei ao ladodela, temendo que me abandonasse como as outras estavam fazendo.Prometeu-me não ir a lugar algum. Jurou que ficaria, que não haviasabido de acordo ou fuga entre as moças.
Henri estava bom como por milagre. De repente, disse-me para deitaronde ele se deitava, e que logo a criança estaria tramando deixar oventre.
Estava bem demais para crê-lo, mas o fiz. Em pouco tempo, ele provouestar certo na previsão.
A dor foi excruciante durante horas e Clara havia sumido de todocanto em que a chamasse, mesmo no mais alto da desesperada voz.
Graças a Henri, a criança vivia e chorava sem precisar bater; tinhaolhos cerrados e a pele vermelha. Deu-me a criança para segurarantes que meus braços desfalecessem... Não seria possível ver meuamado alegrar-se da princesa bonita.
Cheguei a pensar por uma brevidade que tão doce rebento tivessecheiro de carne podre. Vi Henri sorrir: — Vai ficar tudo bem. Oespírito de Ázul está aí. Agora outro vai subir.
Pranteei com a constatação; meus braços não tinham mais força eera Henri que segurava a criança para que eu a sustentasse sem peso.
O fedor de podridão retornou no fim, vinha de baixo da cama. Tardeeu me lembrei de que jamais vira Henri comer de um prato sequer doque eu levava para ele. Estava sem fome frequentemente, remexia oprato para dizer que comera.
Olhei para Ázul outra vez nos braços do demônio antes que a luzesse apagarem. Não poderia protegê-la e não imaginei, no pesadelo demorte, o que Henri faria.
A menina do mar nascera em um leito de cadáveres.
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Azul de Mar
VampireUm conto póstumo de uma mãe que acabara de dar à luz. Sozinha em casa, havia apenas o médico de presença morta e a esperança de o marido retornar a tempo. Capa pela autora.
