"They took you away from me but now I'm taking you home"
— Even In Death (Evanescence)
Sob meu ponto de vista humano, a Morte sempre foi uma das coisas mais fascinantes e intrigantes já conhecidas pelo homem, todavia, nunca tive medo dela, isto é claro, até encará-la de perto e consequentemente desvendar todos os mistérios ocultos que a rodeia.
Podem perguntar para qualquer um, até mesmo para um dos grandes Filósofos da humanidade e todos lhe darão a mesma resposta: a única certeza da humanidade é a morte, mas em contradição, quando perguntados sobre o que há por trás desse imenso manto negro que nos cerca diariamente apenas nos sobra o silêncio.
Há várias teorias sobre o que acontece depois, exatamente como se fosse um jogo de Xadrez: cada adversário estudando qual peça irá jogar, mas estão longe de chegar ao Xeque-Mate.
Creio que com cada pessoa é uma experiência diferente, então eis aqui a minha.
Era inverno e o vento nas ruas era tão cortante como uma lâmina. Os lábios tremiam, a pele tão gélida quanto gelo e a cada passo que ousava dar era como se algo completamente vital se quebrasse. Contudo, nenhum inverno foi o bastante para congelar um coração como aquele.
Era tão puro que apenas o ato de sorrir já aquecia aqueles que estavam à sua volta. Não ousei perguntar seu nome, pois na verdade não faria diferença.
Queria abraçá-lo, mas tudo o que fiz foi observá-lo de longe, sorrindo como uma mãe faz quando seu filho faz algo adorável. Ele era adorável também.
Apesar do calor presente em seus lindos olhos cor de safiras, seu corpo tremia com tanta frequência que cogitei perguntar se ele estava bem, mas sempre que tentava ir ao seu encontro, seu olhar se voltava em minha direção, como uma força que me oprimia, me puxava para longe, afastando-me dele.
Ainda não, era a mensagem que eles transmitiam.
Compreendi que algo de muito errado estava acontecendo ali. Ele sentou-se no chão, tragou seu cigarro e pegou o velho violão.
Ah, pensei, é óbvio! Seu corpo era rodeado por várias pessoas, na companhia de todas as mulheres que desejava ter, entretanto, lá no fundo de sua alma sentia-se sozinho.
O inverno enfim conseguiu congelar o nobre coração!
As notas saiam duras no violão e lhe faltou voz em alguns versos de sua canção. Não era alegre como as outras que costumava cantar, que pareciam uma tarde de verão. Essa parecia uma noite dura e fria de inverno, que destrói tudo por onde passa.
Logo seu rosto se transformou numa careta e os olhos como duas grandes safiras pousaram em mim como um manto.
Percebi seu olhar confuso em mim, sua testa se franzindo levemente. Como disse, adorável.
— Ora! O que faz aqui nesta noite tão fria? - perguntou.
Eu esbocei um pequeno sorriso e com passos tímidos consegui chegar perto o suficiente para sentir o cheiro de seu perfume amadeirado.
— Devo perguntar o mesmo. - respondi.
Um sorriso amargo surgiu em seus lábios e lágrimas caíam de seus olhos como cascatas. O vento tocou seu corpo que tremeu novamente e ele apagou o cigarro. Novamente as notas do violão transformaram nosso silêncio em aconchego.
— Bonita melodia. - eu disse. — É triste, gosto de coisas tristes.
— Eu gostava. - o jovem disse, os olhos novamente parando sobre mim. — Hoje é um dia triste, criança. Uma pessoa importante que amei morreu e todos que estavam em seu enterro choraram com falsidade. Somente eu a conhecia de verdade e chorei pela sua perda.
Aquelas palavras atravessaram-me como um profundo arrepio e quis chorar com ele.
— Temo que quando for minha hora seja assim. Rodeado de pessoas, mas oco de sentimentos. Ninguém choraria na minha morte.
— Também acredito que ninguém choraria na minha morte. - eu falei.
Ele sorriu e pela primeira vez na noite percebi que era um sorriso verdadeiro, os olhos brilhavam e daqui de onde estava conseguia ouvir perfeitamente as batidas aceleradas de seu coração. A cor safira novamente me fitou e soltou um longo gemido, deitou-se ao chão imundo e frio da noite e fechou os olhos. A expressão tão serena que me assustou.
— Não tenho medo da morte, pois reconheço seus segredos. - sussurrou. — A morte é dolorosa, claro, saber que perder alguém que ama para sempre é tão terrível como perder algum membro do nosso corpo. Contraditoriamente, ela também sabe ser serena. Hoje aprendi uma lição, criança e estou pronto para partir.
Ele abriu os olhos uma última vez antes de fechá-los para sempre. Eu o abracei e chorei baixinho, o vento como som de fundo. Ele estava enganado, eu chorei por sua morte.
Todos os dias.
É claro que depois dessa história, vocês devem estar se perguntando como sei de tudo isso e com prazer responderei.
Ora, eu sou a Morte.
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Um conto sobre a Morte
FantasíaSob meu ponto de vista humano, a Morte sempre foi uma das coisas mais fascinantes e intrigantes já conhecidas pelo homem, todavia, nunca tive medo dela, isto é claro, até encará-la de perto e consequentemente desvendar todos os mistérios ocultos que...
