O pior dos dias havia arrastado Amanda, à força, para a cama. Não lhe restara alternativa a não ser entregar-se sem resistência ao sono. Não ousaria lutar contra ele, não essa noite. Sua vontade, na verdade, era nunca mais despertar, ou jamais ter existido, ou simplesmente ser deletada da história do mundo como um erro da criação. Esse foi seu último e único desejo antes de pegar no sono: ser deletada.
Em sono pleno, acordou atordoada com a sensação de ter ouvido seu nome. O cansaço era tanto que logo se convenceu ser apenas uma impressão. Mas seu nome foi repetido e dessa vez não houve dúvida, foi um chamado claro, e o tom, o timbre, a harmonia do som não deixaram dúvida alguma de quem era. A certeza a fez sorrir. Seu coração despejou litros de vida no corpo esturricado de dor. Abriu os olhos ainda pesados ao sentir, sobre o quadril, o peso e textura de mãos tão familiares. A voz e o toque eram inconfundíveis, mandou a lógica às favas e virou-se cheia de paixão como se aquele fosse seu primeiro encontro, tão apaixonada quanto amedrontada, tão segura quanto enfraquecida, tão lasciva quanto intimidada pela surpresa àquelas horas.
– Renato, meu amor... você voltou. – disse enquanto passava os braços trêmulos de desejo sobre os ombros largos e fortes de seu marido, trazendo-o para junto de si.
Queria fundi-lo ao seu corpo, mesclar suas carnes, seus líquidos, seus medos e seus amores. Abraço como esse tem a força desesperada dos afogados e a ternura dos olhos apaixonados. Beijou-o com fervor e pôde sentir o hálito quente invadindo seu corpo por completo, devolvendo-lhe a força vital, refazendo seus tecidos e restaurando a homeostase perdida. O verdadeiro sopro divino. Reconquistava, assim, seu paraíso particular e jamais permitiria nova separação, faria qualquer coisa para mantê-lo por perto. Qualquer coisa. Qualquer coisa. Qualquer coisa – repetiu o canto mântrico que já havia entoado à tarde.
Amanda puxou Renato para cima de seu corpo seminu e a boca faminta do marido parecia querer devorá-la, lenta e literalmente. Sufocada com a volúpia descontrolada, tentou impor um certo ritmo, conduziu-o até os seios e exigiu, mantendo a cabeça do marido sob seu domínio, que ali se demorasse o suficiente para morrerem estrelas e só depois deixou que seguisse seu rumo cambaleante porém, certeiro. Afastou levemente as pernas permitindo acesso apenas parcial, o bastante para simular uma recusa pudica. Como resposta à provocação, pulsações involuntárias no pênis rijo reafirmavam o desejo de Renato. A cada nova pulsação a temperatura se elevava significativamente, tanto no membro em posição de ataque, quanto no ambiente.
Amanda sentia prazer em deixar o marido próximo à loucura, prestes a forçar, como macho feroz, a abertura completa e definitiva de suas pernas. Finalmente, quando cedeu à sanha do marido, enlaçou seu corpo com as pernas, prendeu-as em suas costas e o trouxe para dentro de si, mordiscou sua orelha, arranhou suas nádegas e as usou para trazer ainda mais dele para seu corpo. Queria-o por inteiro.
O movimento compassado, ora suave, ora violentamente calculado, parecia não ter fim e quando o ritmo foi quebrado, Amanda virou o jogo. Fez com que ele se virasse e então dominou-o com maestria. Assim, olho no olho, ele estaria sob seu comando, entregue totalmente ao seu poderio de fêmea alfa. A cavalgadura frenética estendeu-se madrugada adentro enchendo o quarto com odores e umidades diversas, coloridas e táteis.
Amanda parecia ter exaurido seu homem. Quando já cantava vitória na batalha campal, recebeu o golpe final. Renato a tomou com força virando-a de costas. Ali, aparentemente indefesa e entregue, consentiu que a penetrasse, como jamais havia permitido. A virilidade delicada de Renato fez crescer ainda mais o amor que sentia por esse homem especial. Entregou-se sem rodeios à tara dele.
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PELO ESPELHO
ParanormalConto publicado originalmente na Antologia Sombras e Desejos da Editora Illuminare. Cuidado com o que você deseja.
