O barulho da broca atrapalhou sua meditação. Toda sua cabana reverberava com a perfuração, sacudindo os jarros nas prateleiras e travando as telas dos computadores. Estavam roubando seu tutano. Romani levantou-se para sair de seu lar, cuidando para não tropeçar nos emaranhados de fios que se espalhavam pelo chão, e espiou pela fresta da janela. Construíra sua morada entre as costelas, camuflada. Seria preciso olhar com atenção para notar um abrigo humano.
"Amadores", pensou. "Nenhum minerador de verdade colheria o suco de um ponto tão crucial para a estrutura". Romani assistiu conforme a seiva dourada saía do osso calcificado para a mangueira, sua luminescência natural brilhando através do tubo transparente. O homem carregava apenas aparelhagem portátil: o motor de sucção estava preso às suas costas como uma mochila, junto de um grande frasco de vidro, para onde escorria o tutano. Ele não havia feito nenhum trabalho de vedação, e o suco escorria do osso no ponto da perfuração. Usava trajes pesados, sinal de indisciplina. Estava claro que estava coletando uma amostra, e que não estava sozinho. Provavelmente voltaria para sua equipe, testaria a pureza da seiva, e retornaria com companhia para coletar mais.
Romani voltou-se para o interior da cabana e se vestiu às pressas. Ela podia usar equipamentos mais leves graças à religiosidade de suas meditações, que a protegiam de qualquer risco de contaminação transcendental. O som da broca parou assim que ela terminou de vestir a máscara. Ouviu, com o rosto ao chão, os passos desajeitados do homem descendo pela cavidade peitoral do deus morto. Espreitou o lado de fora. Pouca luz entrava pelo desfiladeiro àquela hora, seria fácil ser furtiva. Saiu da cabana com o arco nas costas, acompanhando o brilho do frasco de tutano nas costas do coletor, caminhando ao longo da costela e descendo pela parede de rocha sem fazer um som.
O homem caminhou tranquilamente ao longo do desfiladeiro, sem nenhum cuidado para se fazer desapercebido. Claramente ele não estava entre os idólatras: eles nunca davam as costas às ossadas dos deuses, e nunca assobiavam. Romani seguia atrás dele, sem fazer barulho. Ela sabia que aquele amador jamais conseguiria ouvi-la sob seu capacete pesado e desengonçado, mas ela ainda assim se esforçava para se manter silenciosa.
Em alguns minutos pôde ver a silhueta de uma cabana. Escondeu-se atrás de uma rocha, ao lado de uma das pernas do celestial caído, e assistiu enquanto o coletor era recebido por homens de batina branca. Romani estremeceu de medo. Aguardou até que o grupo se dispersasse. Dois homens levaram a amostra para o abrigo, enquanto outros ajudaram o coletor a sair de seu traje. Ela aproveitou sua distração para se aproximar, movendo-se agachada de uma cobertura para a outra, até que conseguiu vislumbrar o estandarte levantado no acampamento.
Seus medos foram confirmados: pertenciam ao Clã dos Saberes. Como se não bastasse, eram vassalos da família Hakur, os maiores perseguidores de seu povo. Se a vissem, atirariam para matar.
Aquela falha geológica era seu lar há quinze anos. Romani se mudara para lá depois de ser expulsa pela tribo, e a abundância de trabalho a impedia de se sentir triste. O deus dali escolheu um lugar estratégico para morrer: estava sentado, as paredes do desfiladeiro mantendo seu corpo em posição, o crânio triste inclinado para frente. Às vezes Romani se sentia desconfortável sob o escrutínio de suas órbitas vazias, mas não se importava. Conseguiu juntar uma pequena fortuna com a venda do tutano, e se preparava para uma aposentadoria precoce.
Agora, aqueles homens ameaçavam seu ganha-pão. Os cientistas exploravam as ossadas sem cuidado, exaurindo todos os recursos em poucos meses. Causavam acidentes, desperdiçavam o fluido, mas não se importavam: a quantidade de sua produção compensava a qualidade. As tribos escavadoras, no entanto, seguiam o caminho oposto. Seu tutano era o mais puro, e valia seu preço — as caldeiras e geradores do mundo podiam ser movidas pelo produto dos cientistas, mas todo equipamento militar de alta tecnologia bebia o óleo dos Vorash.
KAMU SEDANG MEMBACA
Tutano
FantasiRomani é uma mineradora de tutano que vive no esqueleto de um deus morto. Quando homens de um clã rival invadem sua morada, ela deve encontrar uma maneira de afastar os intrusos e proteger sua fonte de renda.
