Faltam 5 minutos para o toque de recolher e Mindy ainda não está pronta. Se ela não fosse minha melhor amiga... Dou uma última olhada pela janela, pego o primeiro casaco que vejo e a ajudo a calçar os sapatos. Tínhamos que sair antes dos guardas chegarem a rua, ou nunca conseguiríamos ir para a festa secreta na casa do André.
"-Amélia, não vamos conseguir." - Murmurou logo atrás de mim.
"-Deixe de ser medrosa e corra, Mindy." - respondo enquanto atravessamos a rua. Eu sabia que ela estaria morrendo de medo, mas quase podia ouvi-los chegando.
Nos enfiamos por entre os arbustos até chegarmos a cerca, e ao me certificar que era seguro, pulamos. Três batidas são o sinal.
"-Caramba! Esse é um novo recorde Amélia!" - Brincou André ao abrir a porta, e quase nos tragar para dentro.
"-Não foi minha culpa." - respondi.
Todo fim de semana André reúne alguns amigos e os parentes legais, montamos uma fogueira, nos sentamos à beira e rimos, falamos mal dos anciãos, e de tudo o que é proibido pelos 'serpentes'. Por ser proibido, nos divertimos mais.
Desde que me lembro é assim. Não sei o que eles temem. Não desafiamos a ninguém, não fizemos nada de grave e somos impedidos de nos reunir em grupos, sem a autorização deles. Observo o tremular das chamas, os rostos ali, sorrindo, e escuto as histórias que ecoam entre nós. Somos prisioneiros.
"-No que está pensando tanto?" - Diz Mindy.
"-Por que será que somos prisioneiros? Eu odeio ter que me esconder." -respondi.
"-Sempre foi assim e nunca vai mudar, você sabe. Não podemos contrariá-los."
"-É o que dizem..." - Murmurou um senhor sentado atrás de nós.
Me virei para ele mas decidi não responder. Mindy tinha razão.
"-O último que tentou, teve o sangue ofertado aos serpentes."- Ela respondeu a ele.
"-Sei disso criança, mas me referia a outra coisa." - resmungou o velho.
A curiosidade me chamou na conversa.
"-A que se refere?" - questionei.
"-Isto é assunto proibido." -Respondeu. Sorri imediatamente.
"-O que estamos fazendo aqui, já é proibido. Vamos... Conte." -pedi.
"-É só uma lenda." - disse ele enquanto olhava ao redor, temeroso. Sorri outra vez.
"-Então não há problemas... Por favor..."
"-Ninguém fala no assunto. Os serpentes eliminaram quase todos que sabiam da lenda e a proibiram. É a lenda do leão." - Ele olhou para os lados mais uma vez, certificando-se que ninguém nos ouvia. Fez uma pausa e eu ri por dentro.
Era estranho ver um ancião temeroso. Os que conheci sempre pareciam seguros e impenetráveis. A agitação nele me deixou bem curiosa. Mindy, no entanto, parecia inerte, distante. Eu a compreendia. Ela nunca havia visto tanta gente junta depois do toque de recolher, eram umas dez pessoas e conversavam entre si! Era libertador... Um dia ela me entenderia.
"-Conte-me." -disse a ele e me virei para que ficássemos frente a frente.
"-Muito bem. Mas se te perguntarem..." - Murmurou.
"-Nunca direi quem me contou." -Completei e ele assentiu, me analisando.
"-Há muitos anos atrás, um povo foi criado pelo coração do grande leão de fogo, filho do trovão, este povo morava nas cidades além dos olhos, mas quiseram conhecer outros lugares e pediram ao leão para explorarem até o sul, sozinhos. Ele reconheceu o desejo do povo e levantou os mais sábios homens para guia-los e zelar por eles." -sussurrava lentamente.
Mindy o olhava como se ele fosse louco, coitadinho. Ela fez menção em se levantar e eu assenti. O vento estava bem gelado e a maioria das pessoas estava amontoada frente à fogueira. Estávamos só eu, o ancião e a lenda ali.
"-O povo partiu, e depois de anos conhecendo as planícies, fixaram sua morada no extremo sul. Os sábios ficaram no poder, e por gostarem tanto, decidiram não retornar ao leão. A partir daí foi uma loucura. Qualquer um que decidisse voltar era morto, o corpo era queimado e o sangue era entregue às serpentes mais vis, pois elas ajudariam a proteger o lugar do leão. "
"-Estes são os nossos serpentes... Interessante. Mas e o leão? Ele não..." - questionei.
"-Ele sentiu o cheiro da morte e do sangue sendo derramado, e ficou furioso. Sabia que algo assim poderia acontecer, então mesmo furioso, esperou que se arrependessem de sujar a terra com sangue inocente. Mas isso não aconteceu, não é... O leão decidiu que ia acabar com aquela abominação e destruiria todos eles. o sangue inocente gritava... Quando ele chegou à beira do Reino que os anciãos construíram, já prestes a bradar sua destruição Para aquele povo mau, apareceu uma criança e ofereceu ajuda, pois cuidava que o leão estivesse perdido. Ela entregou seu cântaro com água e sorriu. Naquele momento, o leão viu a bondade no coração do homem, e decidiu que destruiria apenas aqueles que sujassem as mãos com abominações."
Embora parecesse muito surreal, a história era interessante. Eu podia ver isso acontecendo, mas não podia acabar assim, os serpentes ainda estão aí.
"-Mas, ele não destruiu nada." -comentei.
"-A criança o pediu para esperar alguns se arrependerem, pois chorava pelos irmãos que morreriam se o leão executasse seu plano. Ela tentaria convencê-los a mudar, pois no fundo eles eram bons. O leão prometeu que partiria e esperaria, tentaria ignorar o cheiro da morte e o clamor do sangue inocente, quando a criança estivesse pronta pra ir embora, precisaria chamar por ele... Pouco depois de falar sobre o leão, os anciãos a mataram. O sangue continua clamando, mas ele aguarda o chamar do coração puro."
"-Como assim? E a criança?" - perguntei indignada.
"-Morreu." -respondeu sério.
"-Ele vai querer se vingar. Como vai saber que é hora de vir?"
"-Calma criança... Várias pessoas disseram que o viram... Eu conheci duas. Ambas diziam que o leão está pronto, mas espera o momento certo. E quando ele vier....Seremos livres." -Sussurrou colocando a mão sobre a minha. Foi uma boa história.
"-O senhor acredita nisso?" -perguntei.
"-Tenho certeza. Só espero viver para ver."
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A Lenda
FantasyAmélia é uma jovem corajosa que possui um grande sonho: Ser livre. O lugar onde vive é comandado por um grupo de anciões que impedem o povo de se reunir, seja por qual for o motivo. Toque de recolher é a menor das proibições. Apesar...
