Veredito

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"Ela é como um gato no escuro, e então se torna o próprio escuro". (Nicks, Rhiannon: 1975) 

Não é estranho como gatos sempre parecem saber o que você está pensando quando aparecem do nada, bem ali, no canto da sala, como um espírito discreto, e ficam apenas nos encarando?

Aqueles olhos castanhos, azuis, âmbar, cinzentos, sempre nos atravessando, sempre nos desafiando a duvidar de que eles sem dúvida sabem nosso segredo mais sombrio. Ou de alguma verdade que apenas eles conhecem.

Bem, há quem diga que eles realmente sabem.

Não fazia muito tempo que Ivan e a filha Nuala haviam se mudado para a rua da Cruzada quando uma dessas criaturas intimidadoras se meteu em suas vidas.

Foi em um fim de tarde que o animalzinho surgiu miando entre aquelas plantinhas que crescem sem que ninguém as tenha cultivado, cujas flores servem para pouco mais do que atrair formigas.

Ivan já estava receoso de desempacotar o último caixote que trouxeram à casa nova, pois o trabalho que vinham tendo com a mudança ajudava a aliviar a mente, e Deus sabe como ele e Nuala estavam precisando de alívio, quando ouviram o chamado daquele que viria a ser o novo animal de estimação da menina, um companheiro para aqueles momentos em que ela lembrasse do motivo de terem se mudado e começasse a chorar.

Ou assim esperava Ivan.

Na verdade, Ivan vinha esperando muitas coisas, e, diferente da filha, não havia quem o consolasse nesses mesmos momentos.

Assim como os gatos, a tragédia também vem do nada, sem que seja anunciada. E pior, sem que seja compreendida, sem que seja explicada, uma vez que nem os policiais conseguiram entender o que havia se passado.

Mas não era difícil para uma menina de nove anos entender que, não importando como, não importando pela ação de quem, ou do quê, a mãe estava morta.

Nuala a encontrou no quarto, o peito aberto à força, a vida já coagulada nos lençóis.

Nada além de penas espalhadas pelo quarto.

Os investigadores não sabiam dizer o que faziam ali, mas, em função de se obrigar a dormir nas noites seguintes, Ivan dizia a si mesmo que eram dos travesseiros rasgados.

Rasgados como ela.

A imagem vinha, fresca ainda, cheirando ao ferro que apodrecia nas manchas de sangue. Ainda na época da mudança, o nariz ardia com o cheiro, a última sensação que a esposa deixou para ambos.

E não houve formol que os fizesse esquecer.

Mas talvez Aurora, a gata (descobriram logo depois de achá-la que se tratava de uma fêmea), pudesse ter êxito onde a terapia ainda encontrava obstáculos: trazer sossego a Nuala, já que isso seria impossível para Ivan.

Quantos anos passaram juntos?

Quantos anos perderam por que alguém, ou algo, se meteu na vida dos três?

Nuala não poderia vê-lo chorando, não. Enquanto ela brincava com a gata, uma criatura linda que misturava no corpo um branco puro e um castanho amadeirado, ele se pegava preparando o almoço, passando a farda escolar da menina, sempre chorando.

São as cebolas, meu amor.

É o amaciante, coração, muito forte.

Ivan fingia que era forte, Nuala fingia que acreditava.

A mãe, se o trocadilho não parecer de mau gosto, vinha se tornando um esqueleto no armário, um assunto que evitavam.

E Aurora deixava isso mais fácil de fazer, pois parecia ser a única coisa que interessava à menina. Digo, interessava de verdade, pois, embora fosse muito nova, fazia um esforço enorme para não deixar que o pai visse o quanto sua vida vinha se tornando cinza. Na verdade, cinza e vermelho, a única cor que insistia em sobreviver à apatia que se apoderava da visão da jovem.

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⏰ Última actualización: Jun 11, 2017 ⏰

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