PARTE UM: A DIVISÃO
UM POUCO DE PODER
IO: "na guerra nós caímos. Continuamos com nossas vidas, mas perdemos nossa dignidade."
Nosso mundo caiu. Tudo que restou foram corpos e destroços. As pedras de nossas casas, as cinzas de nossos corações, a dor de nossas perdas.
Continuei sentada na pedra que fora lançada no meio das árvores. A peça certa no lugar errado; uma criança no meio da destruição. Olhava as pessoas tentando encontrar algo inteiro, alguma coisa de valor, mesmo que não pertencesse a elas. Uma mulher gritou e caiu de joelhos ao lado do corpo de um garoto, ele devia ter a minha idade, doze anos. A dor se tornou tão insuportável que ela foi incapaz de ficar de pé.
O vento soprava uma brisa suave, como se não desse importância à dor da mulher ou a destruição que o permeava. A fumaça subia lentamente dos objetos em cinzas, algumas chamas ainda ardiam com seu tom alaranjado e amarelo. Um grito ecoou entre as árvores, me levantei.
- Io. Io. Io - Era minha mãe. Ela corria entre as folhas secas espalhadas pelo chão. Ao se aproximar me puxou e me deu um de seus abraços fortes, que mal me permitia respirar. - Você esta bem? - Ela me olhava com preocupação.
- Sim - falei. E ela me abraçou mais uma vez.
- Você é tudo que eu tenho - ela disse enquanto ainda me apertava em seus braços. Não queria colocar um fardo em seus ombros, então não disse o que estava pensando, que ela era a única coisa que eu tinha e que não suportaria perdê-la também.
Lembro-me dos minutos que continuamos ali, abraçadas, em silêncio. Ouvindo o choro da mulher, a reclamação dos homens e o som dos pássaros. Nos sentamos no chão a espera da trégua, mas ela não veio. Não naquele dia.
Antes da guerra destruir tudo o que tínhamos, nossas vidas eram o que se pode considerar, normal. A maioria tinha família e amigos, as crianças eram livres para agirem como crianças. Liberdade era mais que uma palavra. As pessoas vendiam suas mercadorias na parada dos trabalhadores todos os dias, se preocupavam apenas com a possibilidade de não venderem muito de seus produtos. Depois tudo que restou foi medo, pavor e um homem a seguir. Toda minha infância vivi em uma casa pequena, igual todas as outras da aldeia; paredes de pedras grandes, uma única janela de vidro pequena, uma porta de madeira que continha às marcas do tempo. Era pequena, aconchegante e tudo o que tínhamos. Vivíamos na parte baixa dos alpes e no alto, próximo as montanhas e ao penhasco, ficava o castelo.
Costumava ir ao campo todas as manhas com minha mãe, onde ela recolhia as mais belas flores. E nos fins de tardes de verão ela me levava para nadar no rio. O cheiro das flores me encantava e a beleza delas mais ainda, por todo o caminho até o rio, árvores e flores da floresta se mostravam para mim com toda sua delicadeza e perfume. Arrancava as flores, as jogava para o ar e pegava mais, não me importava com a destruição. Tudo era normal, a forma como destruía as flores, como mamãe e eu caminhávamos em silencio em direção ao rio e nossos sorrisos em frente à água que corria com suavidade, mas um dia deixou de ser, o dia em quê disse a verdade a minha mãe.
Era uma tarde quente como haviam sido as anteriores e iríamos nadar no rio. Os cascalhos sob nossos pés se quebravam com nossos movimentos, as folhas quase não se remexiam com a falta de vento. As árvores por toda parte davam forma a enorme floresta a nossa volta. Minha mãe estava ao meu lado, indo em direção ao rio.
- Mãe - disse com incerteza na voz.
- Sim - ela respondeu.
- O que são segredos?
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Guardiões: A maldição da coroa
Fantasy"Eu não fui feita para aguentar. Fui feita para quebrar." Io é a última guardiã da luz, cujo poder lhe permite rever o passado e prender as pessoas em momentos. Após a divisão de Arno com as barreiras, Io se vê no centro de toda a confusão. Ela cami...
