As de alegria confundindo-se com as de tristeza

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Uma lágrima, um soluço. Gabriel estava com o rosto molhado, os lábios retraídos. Como aquilo poderia ter acontecido? A cama estava com os lençóis cheios de sangue, o peso do corpo dela quase não fazendo a superfície enrugar. Parecia que, com a alma que se foi, levou-se também todo o peso do corpo de seu corpo. Ele apoiou-se na cama, esta finalmente cedendo sobre o peso que ele, mas não ela, tinha. Gabriel sentia-se tão pesado que não parecia que seu coração havia sido partido em tantos pedaços, depois roubado de seu corpo é substituído por chumbo.

Encarou-a, seu semblante sem emoção transmitindo, por apenas um momento, uma sensação de calma. Começou a passar os dedos sobre as feições delicadas dela, tentando nunca mais esquecer como era o seu toque.

Quanto mais sentia a maciez de sua pele, no entanto, mais percebia o quanto sentiria falta dela. O quarto estava frio, mesmo que o verão fosse normalmente escaldante. O vento entrava pelas janelas, as cortinas balançavam, fazendo com que tudo parecesse assustador.

O seu choro misturou-se a outro, fazendo-o piscar. A imagem pareceu, finalmente, focar. Percebeu, então, que outras pessoas também estavam no cômodo, olhando-o com seus rostos tristes. Ele não havia sequer percebido a presença delas. Uma mulher, cheia de sangue, segurava um bebê, que chorava estridentemente. Ela o encarava com um olhar triste, oferecendo o colo da pequena para ele. Gabriel encarou-a, a luz da noite reluzindo sobre o rosto do pequeno bebê. Seu coração pareceu então, aquecer-se. Concordou, com um leve movimento da cabeça, pegando-a.

"Como um ser tão pequeno consegue realizar tamanho estrondo?", pensava ele, com um sorriso surgindo por entre os lábios. "Vai ser igual à mãe", pensou, algumas teimosas lágrimas descendo sob suas bochechas, as de alegria confundindo-se com as de tristeza. Apertou-a perto de seu peito, tentando, de alguma forma, manter a essência de Juliet à recém-nascida, para que ela sempre levasse a mãe consigo.

Alternou o olhar de sua filha para Juliet, tentando apresentar as duas, mesmo percebendo o olhar de incredulidade de todos os presentes. Percebeu, então, que estavam certos, qual era o sentido de expor um bebê àquilo? Mesmo com essa contatação, não afastou-se, incapaz de privar sua filha de conhecer a mulher maravilhosa que sua esposa era. Examinou-a, secretamente desejando que ela abrisse os olhos e impressionasse a todos, mas o seu peito estava inerte, sua respiração inexistente. Um brilho chamou atenção dele, fazendo com que lembrasse de toda a história dos dois. Era aquilo. O bracelete. Retirou-o dela, sentindo-se pesado, e colocou no pequeno e rechonchudo bracinho da menina.

– Camélia. – disse, pensando alto, aninhando-a entre seus braços, o pingente de flor parecendo ter perdido o seu encaixe que Gabriel havia achado.

O cômodo pareceu respirar, o nome da menina com um enorme significado que só ele, só ele realmente sabia o que significava.

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Cinco dias antes.

– Juliet. – saudou Gabriel, entrando no quarto onde ela estava. – Como se sente? – indagou, a voz suave, como se qualquer perturbação pudesse instabilizá-la.

Nos últimos meses, no entanto, era exatamente o que acontecia. Qualquer coisa que Gabriel fizesse, Juliet se irritava. Sintomas da gravidez, os médicos diziam. Parecia, para Gabriel, outra coisa. Parecia medo.

Depois de muito conhecer Juliet, ele percebeu o comportamento dela diante situações com as quais ela estava insegura ou com medo. Ela nunca fugiu, só rugiu. Sempre que algo que a aterrorizava iria acontecer, ela ficava muito irritada e agia de forma agressiva com todos, tentando afastá-los. Gabriel pressentia, então, que ela estava com medo, mas não sabia do que.

Juliet contraiu as sobrancelhas, incredulidade moldando sua face. Gabriel encarava-a, incerto se deveria ou não aproximar-se dela. A sua esposa sorriu, ele chegou perto, segurando sua mão, que descansava nos lençóis de seda da cama.

– Juliet. – disse ele, com os olhos arregalados. – Estas a ferver. – afirmou, a voz falhando.

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– Cinco dias de febre alta no final de uma gravidez não é boa coisa. – disse o médico, os olhos castanhos bem abertos, evidenciando suas enormes olheiras atrás dos óculos grandes.

– O que é possível ser feito para seja revertido? – indagou Gabriel, ansioso, escrevendo, em letras tortas, o recibo para o médico.

– O ideal é que ela descanse e que toalhas de água fria sejam sempre colocadas sob sua pele, mesmo que ela sinta frio. – declarou ele, enquanto contava as notas Gabriel o entregou.

Ele parou de redigir o recibo e, estupefato, quase gritou:

– Como espere que consigamos toalhas frias em pleno verão?! – disse, num tom mais alto do que desejava. – Há de haver alguma alternativa. Estamos no século dezenove, pelo amor de deus. A ciência já está bem desenvolvida, como não capazes de resolver uma simples febre?! - argumentou, com a raiva queimando seus olhos.

O médico olhou-o com desdém:

– Não há o que fazer, pois não é uma simples febre, seu ingênuo, mas uma infecção. – finalizou, assinando o recibo e saindo, com passos irritados e inconstantes.

Gabriel respirou. Havia brigado com o melhor médico da cidade. "O que faria agora? Estaria ele certo? Nada poderia ser feito? Não, pensou. Se uma coisa ele havia aprendido com Juliet era nunca ficar parado, portanto sempre tentar alguma coisa." Determinado, abriu o livro de médicos da cidade e começou sua pesquisa.

Páginas amareladas que quase se desfaziam somente com o seu toque foram tudo que o marido de Juliet viu durante aquele dia. Quando a luz do sol cessou, nada mais podia fazer. As velas não davam iluminação suficiente e só o faziam ter dor de cabeça.

Saiu do escritório com uma vela e caminhou até o quarto de Juliet, onde a esperava ver já dormindo. Quanto mais chegava perto, mais a sensação de medo preenchia sua mente. Começou a ouvir gemidos de dor, de desespero, como se alguém se desesperasse por ar. Entrou no cômodo mal iluminado e logo viu a origem do barulho. Juliet estava de joelhos, no chão, ao lado da cama, vomitando sangue, engasgando-se com ele e não conseguindo respirar.

Gabriel entrou em pânico:

– Alguém venha aqui! Preciso de ajuda! – gritou, enquanto corria até ela.

A abundância de sangue fez com que o chão refletisse a imagem dos dois.

– Amor. – falou, segurando os seus cabelos. – Respire, pelo amor de deus, respire. – suplicou, como em um choro.

Assim que as empregadas chegaram, Gabriel começou a ficar tonto. Levantou-se, seus joelhos não seguravam mais seu peso. Sua esposa estava vomitando sangue, estava com infecção. E o pior: ninguém sabia o que era.

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⏰ Last updated: May 03, 2017 ⏰

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