Único

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Ele passou a tarde sentado na biblioteca, aquela do centro da cidade, próximo à estação de trem. Estava frio, ele bebia um café quente, algo que não era permitido ali, mas ele conhecia a bibliotecária. Estava a vislumbrar o menino maluquinho na parede à sua frente que decorava a biblioteca, uma tentativa frustrada da prefeitura de promover a literatura brasileira, tinha à sua mão livros de poesia de João Cabral de Melo Neto, Clarisse e um de poesia russa.

Quando o sol caía e a lua se elevava, a bibliotecária anunciou o fechamento, ele finalmente escolheu Memórias Póstumas para levar, desceu os três lances de escada, acendeu seu cigarro, tinha acabado de chover, havia um cheiro bom no ar. Ele andou tranquilamente pela Bernardino de Mello sentido Iguaçuano, à beira da estação de trem de Nova Iguaçu, com uma mão no cigarro e a outra conectando os fones de ouvido, ele usava walkman em 2017, colocou Gilberto Gil para tocar, não, ele não era velho, tinha apenas vinte e oito anos.

Em frente ao túnel dobrou à direita, duas ruas depois à esquerda na rua Rita Gonçalves onde morava com os pais. Apagou o cigarro, subiu a estreita escada até seu quarto no segundo andar, tuitou alguma bobeira, sentou na varanda do quarto com seu violão, mas nem começou a tocar, ficou observando o céu, as nuvens, o som da cidade se recolhendo depois do expediente, o som do bar da esquina se elevando, não demorou a ficar entediado.

Tomou um banho, trocou a roupa e voltou à estação, decidiu ir às ruas estreitas da Lapa, não sabia o que encontraria, mas havia escutado falar de um bar de MPB novo por lá. No caminho acenou para seu Alberto, dono do bar da esquina.

Na Lapa, trocou seu cigarro normal por um de maconha, andou a procura de  um bar legal, sentou no pé das escadarias e viu um grupo de amigos tocando e cantando, juntou-se a eles e cantou. Os novos amigos o convidaram para um luau logo mais, ele não quis, fumou um pouco do que eles tinham por ali e voltou a perambular. 


Achou um bar com porta estreita que nunca tinha entrado...

Dentro do bar tocava um mix de Ludmila e Elis Regina, não demorou muito até sentar um homem de meia idade com chapéu preto estiloso e tocar música ao vivo, a essa altura nosso rapaz estava sentado no bar do novo lugar e admirando belas moças.

Havia uma em especial que ele tinha gostado, ora nosso rapaz não era feio, bem apessoado, magro, alto, barba com fazer, nenhum fio de cabelo branco, mas longo e charmoso estava a altura do lugar.

Aproveitou o momento que as amigas da moça forma a algum lugar, a essa altura ele já a tinha visto beijar três bocas, menos a dele.

Chegou recitando uma poesia que sabia de cor, olhando nos olhos, não era uma poesia muito romântica, tinha um toque de maldade. Conseguiu um sorriso e algum comentário sobre estar surpresa e a óbvia pergunta se ele gostava de poesias, ao passo que ignorou esta pergunta idiota, disse apenas que poderia recitar quantas ela quisesse essa noite e que ele poderia ser para ela mais que as três bocas que tinha visto beijar.

A moça ainda indecisa franziu o cenho e deu um sorriso para não deixar a conversa morrer, um poeta era o que ele era, deixava os sentimentos aflorarem, não escolhia qualquer mulher e não ligava se ela já tinha beijado todos os caras e garotas da boate, ele sabia exatamente o que queria.

Ele tinha um lugar seguro e pediu para levá-la próximo ao bar para conversarem, ela olhou para o lado talvez buscando socorro de suas amigas, mas aceitou.

No bar ele descobriu que ela era uma estudante de jornalismo, estagiava em um pequeno jornal e morava em Vila Isabel. A cada segundo daquela conversa, que aquele olhar seguro, desafiador e carregado de desejo a perfuravam, ela desejava mais a boca dele, tentava se manter sóbria por que ele queria ouvi-la, entendê-la, queria mais que aquilo. Ela, por sua vez, queria beijar-lhe a boca, mas ele se mostrava tão atento e tão imprevisível, ela achou que ele a beijaria umas quatro vezes durante a conversa e até se inclinou para frente e quando percebeu que não seria naquele momento tentou disfarçar, não sabia se tinha tido sucesso.

Derrame-seDonde viven las historias. Descúbrelo ahora