2007,
Oito anos atrás
Os cabelos compridos da minha mãe caíam todos em cima de mim. Ela estava abaixada, seus braços envolviam meu pequeno corpo. Eram como fios de milho. O cabelo da minha mãe, digo. Tão loiro e macio que eu sentia estar envolvida por um cobertor com cheiro de morango, porém colorido como espigas de milho.
- Mãe... não consigo respirar – falei.
Minha mãe sorriu, seus olhos azuis, tão azuis quanto os meus, tinham minhas bochechas rosadas refletidas neles quando ela se afastou de mim. Alguma parte do meu cabelo castanho ondulado também era refletido dentro daqueles olhos dela.
- Tenha um bom primeiro dia de aula – ela falou, afagando meus cabelos.
Uma criança com os pais apareceu ao nosso lado de repente. Minha mãe se encolheu quando viu o homem daquela família abraçando a filha. Eu não tinha pai. Éramos eu e minha mãe desde todo o sempre. Não ousei pronunciar palavra alguma enquanto minha mãe abaixou os olhos para o chão. Meu coração se acelerou quando ela me abraçou de novo subitamente.
- Tenha um bom primeiro dia de aula, Layla. – ela repetiu, beijando o topo da minha cabeça.
Se levantou e esperou eu me afastar. Mas eu não queria me afastar. Queria ficar ali, com minha mãe, que naquele momento estava triste mais uma vez. Quis bater naquele homem ao nosso lado, em todos os pais do mundo. Não deixem minha mãe triste, nenhum de vocês. Corri e abracei rapidamente a sua perna antes de entrar para a escola.
Eu não conhecia ninguém ali. Era o primeiro dia de aula e o primeiro dia que eu via tantas crianças da minha idade também. "Somos muitos por aí!", pensei abobalhada. Andando pelo grande corredor, o número das salas era alto demais e eu mal conseguia ler qual sala era qual. Eu estava começando a me sentir perdida. Olhei para os lados e vi um menino, um japonês, quieto em um canto. Ele segurava um papel nas mãos e seus braços tremiam levemente. Acho que ele estava perdido também. Me aproximei dele.
- Oi! – falei, sorrindo para o menino. Ele corou levemente nas bochechas, e não me disse nada. – Você está perdido também?
Ele assentiu com a cabeça, encolhendo os ombros. Fiquei ao lado dele, sem saber o que mais deveria fazer.
- Qual seu nome?
- John.
- Meu nome é Layla. – falei sem ele perguntar. – Qual sala você está procurando?
Então ele me mostrou o pedaço de papel em suas mãos e eu sorri, afirmando que era aquela a minha sala também.
- Vamos ser colegas de classe!! – sorri para ele e o garoto me devolveu um sorriso tímido. Ele parecia estar ficando mais calmo.
- Estão perdidas, crianças? – subitamente uma mulher muito alta de aproximou de nós. Não que ela fosse tão alta assim, mas todos os adultos pareciam incrivelmente grandes quando você é uma criança de 7 anos de idade.
Assentimos com a cabeça.
- Estamos procurando essa sala. Os números são muito altos nas portas, não conseguimos ler nenhum – falei para a mulher, apontando o papel na mão de John.
O menino entregou o papel para a mulher alta e ela nos guiou pelo corredor, que agora estava relativamente mais vazio.
- Por que você tem nome inglês, se é japonês e mora no Brasil? – perguntei a Jhon, que me lançou um olhar que não consegui decifrar.
- Eu já morei nos Estados Unidos. Na verdade eu nasci lá, mas agora meus pais e eu estamos no Brasil. Meus pais são japoneses que nasceram no Brasil, mas que se conheceram nos EUA, se casaram lá e, assim, eu nasci lá também. Estamos aqui tem 5 anos.
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Laços
RomanceTrês amigos. Três vidas imperfeitas que se entrelaçam. O que o destino pode reservar a eles quando o inesperado acontece? Quando o que não é aceito pelos demais torna aqueles três especial e os completa?
