Eu corria incansavelmente entre a plantação de arroz da China avistando a pequena ponte que aquele velho da escola disse. Minhas botas estavam molhadas, meu corpo doía e eu tinha que roubar aquele objeto para o Rei. Afinal sou uma ladra, e é isso que tenho que fazer para que meu pai e eu não morramos de fome.
Atravessei aquele portal graças as ordens do rei de Ântares – Nyon – se não qualquer um que tentasse se aproximar seria morto pelo porteiro. Então, aproveitei a oportunidade para conhecer mais sobre essa dimensão conhecida como Terra. Faria jus ao nome, mas o que nós conhecemos como Terra em Ântares é uma cidade subterrânea onde vive e reina o Primordial da Terra, um ser que controla o elemento respectivo e tem um povo que o segue e compartilham seus dons e conhecimentos, conhecidos como mequiatãs.
Eu? Sou de qual elemento? Não é ser irônica, mas eu sou da Luz, sou a última que restou desse elemento depois da grande guerra que assolou Ântares, mas quem se importa com isso. Existe uma profecia que fala que três mortes lembrarão a última luz de seu passado, mas acho que isso está errado. Eu sou a última luz, mas me lembro de todo o meu passado. Lembro-me de roubar um escudo muito grande que virava uma armadura, lembro-me de roubar a safira central da capital da água, lembro até de encontrar minha eterna rival dos crimes várias vezes na maioria de minhas missões, o Anjo de Vidro. Lembro-me de meu pai que sempre está comigo tentando fazer com que eu tenha uma vida melhor. Mas até ele entende nossa situação.
E afinal todos estão procurando a mequiatã da luz para matá-la antes de iniciar a profecia. Eu não os culpo, eu faria o mesmo para salvar minha casa, mas não quero ser morta. Além do mais quem vai desconfiar de uma ladra que nunca revela seu rosto?
Evitei sorrir quando cheguei à pequena ponte cravejada de musgos sobre um córrego onde um homem encapuzado estava de pé me aguardando.
– Devo te lembrar que prometeu que esse seria o último. – ele disse.
– Eu sei... E vai ser! Conseguiu descobrir como entrar?
Ele abaixou o capuz e apontou para a água abaixo de nós.
– Só quem é puro passa pelas águas. – ele disse em um tom decepcionantemente feliz.
– Você não está falando sério, está? – apertei meu casaco ao ver aquela água gelada.
– Estou Kaya. E creio que esse desafio você não conseguirá, você é uma ladra.
– Quem disse que ladras não tem um bom coração? – afirmei. – Vamos terminar logo com isso e nunca mais nos envolvermos com ninguém.
Sei como ele não gosta dessas coisas, mas essa missão irá nos render muito bem, vamos morar aqui na Terra depois disso e nunca mais estar envolto de uma profecia e uma ditadura anti-dons.
Sem pensar pulei naquela água congelante e fria. Temi que eu estivesse errada sobre meu coração e morresse ali mesmo, submersa. Mas como se a água estivesse suspensa no ar eu caí em uma estrutura de rocha e bambu do outro lado. Havia dois corredores ao longo da câmara, um para a direita e outro para a esquerda. Andei para a direita e logo as paredes começaram a atirar flechas em mim, sem pensar me joguei no chão desviando da maioria com minha espada e as outras ficavam espetadas em meu casaco.
Rolei pelo chão acionando algo que parecia ser um lançador de chamas que por sorte não me atingiu por eu estar deitada. Levantei aos poucos quando um tintilar fez eu me jogar para frente novamente pouco antes de espetos de metal saírem do chão enroscando em meu casaco.
Então, parei por um momento e respirei, olhei em volta e vi diversos fios e blocos do chão diferentes um dos outros, entradas, saídas, enquanto atrás de mim havia outro corredor que não parecia estar cravejado de armadilhas. Pensei comigo mesma, por que eles se dariam o trabalho de fazer outro corredor sem armadilhas? Ou fizeram um com armadilhas apenas para levar quem quiser entrar aqui para o lado errado?
YOU ARE READING
Descendentes
FantasyDestruída, abalada e quase sozinha... É assim que Kaya se sente após a morte misteriosa do pai, mas descobrir que não está na Terra é ainda pior. Tentando sobreviver em um lugar inóspito, assustador e que esconde monstros atrás de cada árvore, ela d...
