Maia acordou assustada, de maneira abrupta. Estivera tendo um pesadelo novamente, assim como vinha acontecendo nas últimas noites. Ela não sabia ao certo quando eles haviam começado, mas já perduravam por tanto tempo e de maneira tão ininterrupta, que a menina já se perguntava se acabaria se acostumando com os terríveis sonhos. Não, ela pensou. Não vou.
Ela levantou-se de sua cama, jogando as cobertas de lado e foi para o banheiro. Ajustou a temperatura da água para que ficasse o mais fria possível, como sempre fazia quando tinha um pesadelo. De algum modo, a água fria a ajudava a se acalmar.
Ao sair do box, ela se olhou no espelho. Parecia tão cansada quanto se sentia: continuava tendo os longos cabelos negros encaracolados que herdara da mãe, a mesma pele parda e os olhos castanhos escuros, mas seus olhos estavam fundos, marcados por grandes bolsas arroxeadas que pareciam enormes hematomas, como se tivesse estado em uma briga que levara a pior. A pele parecia mais pálida e mais fina. De algum modo, Maia parecia mais velha, como se tivesse ganhado dez anos em um mês. Sua mãe teria percebido e perguntado a ela o que havia de errado, pensou com amargura. Mas sua mãe não estava mais viva - lembrou a si mesma -, e seu pai mal parecia notar sua existência.
Desceu as escadas da enorme casa usando apenas o roupão de banho e foi até a cozinha. Apertou o botão da cafeteira e esperou a máquina liberar a bebida negra dentro de sua caneca preferida, a que ganhara da mãe ao completar treze anos de idade. Maia segurou a caneca com as duas mãos, sentindo o calor do café atravessar a porcelana e chegar até a sua pele, destravando e relaxando os músculos da mãe. Inspirou profundamente, apreciando o cheiro forte e encorpado do café. Por fim, levou a caneca até a boca e sorveu lentamente, deixando o corpo se aquecer por inteiro.
Foi só então que ela reparou no silêncio. Não que a casa fosse barulhenta ou agitada, mas ainda assim, todas as manhãs, Maia ouvia o silêncio. Era reconfortante e triste ao mesmo tempo. Como se ausência e a calmaria fossem complementares. Uma, o efeito colateral da outra. A casa nunca fora silenciosa quando a mãe estava viva; havia sempre o som suave da música clássica soando nas manhãs em que Marrie se sentia calma, e o som marcante do jazz para quando ela se sentia particularmente agitada. Maia adorava o gosto musical da mãe, mas geralmente preferia o silêncio durante as refeições. Agora que ela o tinha, daria tudo para poder acordar ouvindo Debussy.
Movendo-se automaticamente, ela subiu para o quarto e colocou seu uniforme - uma camisa vermelha com o símbolo dá escola no peito, uma saia no mesmo tom riscada com linhas pretas na horizontal e sapatos negros. pegou a mochila e pediu que Jia, a governanta da casa, chamasse o motorista.
Marcos dirigia silenciosamente, e jamais conversava com Maia sem que houvesse necessidade, mantendo sempre uma distância profissional. Ela apreciava isso. Não gostava muito de conversar. Contentava-se em ver o transito através da janela do carro preto enquanto ouvia música em seu fone de ouvido. Ela reparava no modo como os carros se moviam, ao mesmo tempo conscientes e alheios à presença dos outros veículos, e pensava sobre onde os motoristas iam, que tipo de problemas estavam passando, como estava suas vidas.
Quinze minutos depois ela estava na porta de sua sala de aula. O sinal havia tocado há poucos segundos e, quando ela entrou no lugar, sua professora não estava lá. O primeiro período era de história, a aula preferida de Maia. Sua professora, a Srta. Olivia, era uma mulher bonita, de olhos azuis, pele branca como a lua e longos cabelos avermelhados. Usava um par de óculos redondos que combinava com seu rosto, deixando-a ainda mais jovem e, de certa maneira, mais bonita. Ela também era muito inteligente e foi graças a ela que Maia se apaixonou por história. Passava horas conversando sobre mitologia com a professora , que parecia não se importar e gastar seu tempo com a menina.
O dia se arrastou sem grandes acontecimentos. O tópico na aula de história foi o catolicismo, mas, o assunto rapidamente mudou sobre acreditar ou não em Deus, o que foi um prefácio para a exaltação de ânimos. Maia preferiu não dar sua opinião. No ambiente escolar, passar despercebido era mais vantajoso que entrar em brigas desnecessárias.
Na hora do almoço, Maia sentou-se sozinha. Geralmente estaria acompanhada de Kelly, sua melhor - e única - amiga, mas ela havia faltado. Maia sentia-se tão patética quanto aparentava e, por mais que tentasse se manter indiferente, ela percebia os olhares de pena que os outros alunos dirigiam para ela. Muitas pessoas até tentavam se aproximar, conversar com ela, mas Maia as afastava deliberadamente. Desde criança, ela era acostumada a ser a pessoa mais rica em todos os lugares, então acabou por virar uma expert em perceber quem tentava se aproximar somente por causa do dinheiro. Ignorando o olhar de uma menina sentada na mesa ao lado, maia pegou seu telefone, plugou os fones e os colocou no ouvido, pegou seu livro e se fechou para o mundo.
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Escuro
RomanceA vida de Maia muda completamente quando ela conhece Dante, uma rapaz lindo, misterioso e que guarda um sombrio segredo. O que se pode fazer quando todos os seus instintos dizem "corra", mas seu coração diz "fique"?
