Era anoitecer em Véltica quando Sur-un começou à subir as escadas para o templo. O vento do deserto açoitava seus cabelos negros, fazendo pairar no ar um perfume almiscarado, espalhando o aroma das especiarias nas várias refeições preparadas nos salões ao ar livre, no castelo abaixo. As duas luas no céu iluminavam o caminho, criando sombras nos cantos dos degraus, e Sur-un apressava o passo, amaldiçoando seu atraso. Ele sabia que o emissário da colônia de Artêmis chegaria à qualquer momento, e não poderia deixar escapar a chance de ver um Artêmico - o nome que os vélticos davam àquele povo - em primeira pessoa.
Véltica era uma nação bélica, que atingira o ápice de seu desenvolvimento, tecnologia e poderio militar (o que infelizmente significava problemas para os planetas e satélites vizinhos). Guerras sem fim haviam ocorrido e para assegurar seu domínio sobre os locais conquistados, Véltica estabelecia colônias. Artêmis, a lua inteira do planeta, fora o primeiro território conquistado, logo no início da expedição espacial dos conterrâneos de Sur-un, há mais de mil anos - Diana, a lua quebrada, irmã de Artêmis, servia apenas como alvo da apreciação de astrônomos, e um lembrete claro da força de Véltica: o poder para rechaçar corpos celestes.
Apesar de bárbaros no que condizia à conquista, os vélticos eram um povo com grande apreço pela cultura, e fora isso que, apesar da conquista da lua, garantiu para os artêmicos certa clemência. O Rei Civitar, O Conquistador, líder de Véltica naquela época, ao tomar o local permitiu que a lua mantivesse um governo próprio, com cortes e conselhos para gerir sua casa, assim como manteve intactos os costumes e festividades população alienígena que vivia lá, contanto que prestassem contas à Véltica e "doassem" parte de seus recursos e fortuna. O rei deixou também assentamentos vélticos no local, com pessoas de sua confiança para manter os lunares em rédea curta. Encurralados diante de armas que nunca imaginaram existir, os conquistados não tiveram escolha senão ceder. Se tornaram escravos com falsa liberdade, presos com doces coleiras de ilusão.
Desde a época da Primeira Conquista, como o evento ficou conhecido, os artêmicos se mantiveram fiéis à Civitar, assim como àqueles que o sucederam no trono. Véltica passou a compartilhar uma pequena parcela de sua tecnologia com Artêmis, para torná-los "mais civilizados", como diziam; e de tempos em tempos, emissários viajavam entre o planeta e o satélite, para passar relatórios e relembrar aos lunares que os conquistadores estavam sempre de olho em seu domínio. Pequenos movimentos rebeldes surgiram, mas logo foram abafados como chamas que não tem mais combustível, e a harmonia ilusória que passara a existir, perdurou.
Sur-un, todavia, nunca vira alguém do povo lunar. Como pertencia à classe servil, seu tempo era preenchido com infinitas tarefas para garantir o conforto das classes mais abastadas da nação. A chegada de um emissário artêmico era uma cerimônia exclusiva à alta classe véltica. Contudo, naquele dia, Sur-un conseguira escapar.
Em meio aos preparativos para o banquete de recepção do emissário (outra falsa cortesia dos vélticos para com o povo que conquistaram e escravizaram), e a correria que se instalara faziam dias, o jovem conseguira escapar; conseguira, enfim, escapar para testemunhar a chegada de um lunar, pousando em suas naves pontiagudas e mágicas, conforme diziam as lendas. Não acredito! Finalmente conseguirei ver um!
Desde criança Sur-un ouvira sussurros, mitos sobre o povo da Lua, e isso sempre lhe despertou fascínio. E em outra ocasião, as coisas que sua mãe lhe falara sobre aqueles seres, apenas inflamaram seu desejo e necessidade de conhecê-los. Agora, finalmente, ele veria um deles. Era uma oportunidade única!
Sur-un aumentou a velocidade de sua corrida, o suor traçando caminhos em sua pele morena, galgando degrau após degrau, seu caminho iluminado apenas pelo luar. Estou chegando, estou chegando!, pensou, quando por fim saltou o último degrau, entrando no terraço do Templo das Estrelas, onde seria a recepção ao intendente lunar. Sabia que seu acesso àquele lugar não era permitido, mas em meio a empolgação, não se importou com isso. Não quando lembrava de tudo o que estava em jogo quando se tratava daquele encontro pelo qual tanto ansiava. Estou chegando...
O local estava vazio. O vento varria o piso de pedras amareladas, com seus mosaicos em formato de estrelas, e espalhava a fumaça das tochas instaladas no local, há muito apagadas, fazendo com que uma névoa pairasse à poucos centímetros do chão, como um tapete de neblina, que ia desde a entrada do terraço do templo até a gigantesca construção em si. Sur-un perdera a chegada do artêmico. Embora ele não soubesse disso, a chegada do lunar havia sido adiantada, em função de compromissos políticos. Esse era o motivo de caos ter invadido a rotina normalmente organizada da cidade, o que possibilitou a sua fuga. O banquete teve que ser feito às pressas, cardápios tiveram de ser modificados, para tudo estar pronto quando o emissário chegasse, e fora apenas isso que tornou possível a desatenção dos chefes de Sur-un, que milagrosamente não perceberam que o jovem havia sumido. Era de se imaginar que ele estranhasse a falta de luz no caminho para o templo, iluminado apenas pelos astros no céu, mas em sua animação, Sur-un nem notara.
Pesar atingiu o íntimo do rapaz, seguido de uma raiva explosiva. Não acredito! Não acredito que o perdi!
Lágrimas começavam a se formar em seus olhos, enquanto Sur-un via a chance de realizar seu sonho de infância, seu destino, sua sina de ter contato com um povo alienígena, sumir como pegadas de areia na praia. O jovem socou uma mureta próxima, lançando pelo braço pontadas de dor, na esperança de que abrandassem sua ira. Levantou então seus olhos para as duas luas no céu e engoliu algumas lufadas de ar, acalmando sua respiração.
Foi então que um movimento foi captado por seus olhos, no limiar de sua visão. Um sussurro de luz e prata. Surpreso, Sur-un virou-se para o caminho de onde tinha vindo, e não pôde conter seu espanto quando compreendeu o que via.
Um homem o encarava, parado no fim da escadaria por onde Sur-un entrara no terraço. Era alto, mais alto do que a maioria dos homens, e trajava uma armadura prateada, que reluzia ao ser banhada pelo luar. Arabescos se entrelaçavam pelo traje, circulando os pontos eletrônicos brilhantes que eram os olhos dos lobos em cujo formato as ombreiras da vestimenta haviam sido forjadas, fazendo a couraça emitir ainda mais luz. Vestes de um guerreiro, pensou Sur-un. Seu rosto de pele pálida era forte, um maxilar proeminente se destacando na face, coberto por uma barba dourada que lhe conferia um ar de autoridade. Seu cabelo também era louro, como fios de prata e ouro trançados, e caíam, ondulados, na altura dos ombros, se misturando à capa de pele acinzentada que usava. Era como se poeira de estrelas salpicasse sua pele clara, como se um brilho em seu interior lutasse para se libertar. Tudo nele irradiava força e poder, os atributos míticos que Sur-un sempre ouvira pessoas ditarem, quando falavam dos lunares.
Porém, apesar da aparência rígida, havia simpatia em seu olhar. Seus olhos muito azuis pareciam safiras, e se estreitaram enquanto avaliava Sur-un, e a expressão embasbacada que provavelmente demonstrava. Os lábios cheios do homem se ergueram em um sorriso, e um tom de malícia tomou seu semblante quando ele o cumprimentou com uma voz grave:
― Olá, véltico - falou o artêmico.
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KAMU SEDANG MEMBACA
As Crônicas Vélticas - Sol e Estrelas
Fiksi IlmiahVÉLTICA, uma planeta desértico comandado por um soberano que não mede esforços para espalhar seu poder pelas estrelas e nebulosas sem fim. Uma terra exótica, cheia de perigos, aventuras, beleza exuberante e mortal. Uma terra de traições, berço de g...
