Ajeito meus óculos enquanto tento entender algo da aula de matemática. Minha cabeça dói só de olhar para o quadro repleto de gráficos e equações. Olho para fora pela janela ao meu lado, daqui posso ver as lideres de torcida ensaiando. Vejo Keira, com toda sua sensualidade e divindade, ela dá saltos e risadas com outras garotas. Sinto saudade do som da sua risada. E do seu sorriso. E da pele. E de tocá-la. E de beijá-la. Puta merda, sinto saudade de tudo que se resuma a Keira Mattheson. Namorar com ela foi raro para um garoto como eu, tipo o cometa Haley, porém, você morre antes de vê-lo novamente depois 70 e poucos anos. Para ela, foi um ato de piedade, como ela mesmo disse, mas não creio que alguém faça algo por piedade todos os dias durante um ano, ninguém é tão bom assim, muito menos Keira. Ela me deixou doente de amor com o diagnostico de: Um coração putamente partido e depressão aguda seguida de crises de choro dentro do ônibus.
Remédio: Keira Mattheson.
Contra-indicações: Keira Mattheson.
Eu já tive meu coração quebrado uma vez, na sexta série. Ela se chamara Nancy, tinha grandes olhos azuis e canelas um pouco tortas, era meio esquisita, o que me deixou confuso quando, depois de três horas após eu pedi-la em namoro, ela terminar comigo alegando que eu era ''esquisito e bobo demais para andar com ela.''. Eu fiquei desolado, foi minha primeira namorada, meu primeiro coração partido, e a primeira vez que alguém me chamou de esquisito e bobo. Mas não fiquei tão desolado quanto agora, já se passaram quatro meses e ainda tenho seqüelas do Furacão Keira. Ouvir aquelas palavras foi como estar dentro de um avião, voando muito, muito alto. E então Keira pega o auto-falante e, ''Tim, me desculpe, eu não te amo mais, na verdade, acho que fiquei com você por dó.''. E agora o avião está caindo. E ele está caindo no inferno. E então ele cai. Eu fico destroçado. Vivo. Acontece uma explosão em seguida. Continuo vivo.
A porta se abre bruscamente e percebo que meu déficit de atenção atacou de novo. Na porta, vejo Stace, minha melhor-amiga-que-Tim-ela-não-é-boa-companhia-pra-você. O cheiro de maconha se impregna na sala, a garota caminha lentamente e se senta na minha frente.
- Terra chamando Stace, cambio. - Digo baixo.
- Stace entrou em outra dimensão, cambio. - Ela diz com sua voz rouca. Ela está de costas para mim mas posso perceber que está sorrindo.
- Essa é da boa, cambio. -
- Eu to muito chapada, cambio. -
- Que merda vocês tão falando? - Chase fala do meu lado com uma careta, confuso. Stace o olha e da risada, assim como eu.
- Como assim? - Pergunto.
- Essa merda de, blá-blá-blá, cambio. Vocês estão na escola não em uma porra de missão. - Ele diz, dou risada e volto a tentar entender o que está no quadro. Depois de alguns minutos, desisto. Me lembro de quando conheci Chase. Eu estava chapado demais para perceber algo ao meu redor, estava sentado em uma poltrona velha e cinzenta na garagem de Stace, até que alguém estapeou forte minha nuca, dei um pulo e me virei pra ver quem era, não fazia idéia de quem era Chase, e ele não fazia idéia de quem era, ele apenas, fez o que deu na cabeça de maconheiro dele. A partir desse dia, nós três nos tornamos inseparáveis, ele até se mudou pra escola onde eu e Stace estudamos.
Eu deveria me importar mais com a escola, tenho mais dificuldade que os outros alunos para aprender uma matéria, eu deveria me esforçar mais. Mas agora não, não consigo fazer isso com o coração partido. Olho para a janela novamente, Keira está sentada no chão bebendo água, cacete, ela parece uma deusa até bebendo água.
...
- Vai ter uma festa na casa do Mike hoje a noite, vamos? - Chase diz, estamos caminhando até a parte de fora da escola. Stace acende um cigarro, para de andar e começa a procurar seu carro, o que é de se impressionar, é impossível não ver o enorme furgão vermelho escrito ''Vadia'' que provavelmente alguém que não gosta dela pichou. Certo dia, simplesmente saímos da aula e lá estava a palavra, a garota simplesmente olhou para o furgão e disse ''Irado! Nem vou precisar pichar.''
