Eu jurei que não falaria nisso. Mas é como a vida é: acontecem coisas que estão fora do nosso alcance. Imaginei que seria uma velha solteirona, daquelas que tem mil gatos e faz questão de tomar chá exatamente às 5 horas. Mas quando vi Tom, tudo mudou. E quando aconteceu o que aconteceu, isso desmoronou.
1 ano antes
A escola me deixava desanimada. Não exatamente a escola, quero dizer. Mas quem estudava nela. Não tinha muitos amigos. Sou daquelas que no recreio fica na sala sozinha lendo um livro e comendo a merenda sem ligar para a regra que diz que ninguém deverá, de maneira alguma ficar na sala no recreio. E eu estava lá, sossegada. Não eram dias fáceis. Estava com 17 anos quando ele chegou. Foi em um dia de neve. E foi nesse dia que Emily morreu. E tudo começou.
Saí da escola e fui direto para casa. Em Lua Verde, você faz tudo o que quer em segundos. É uma vantagem de morar em uma vila tão minúscula. A construção no estilo vitoriano era linda, o que atraia alguns turistas. Mas nossa atração mesmo era o fenômeno que dava nome a cidade: a Lua Verde. Começou com os fundadores, astrônomos natos que ficavam nas montanhas ao redor para tentar ver se a Lua ficaria mesmo verde. É tudo história. Durante minha vida, nunca vi nada demais. Continuando, enquanto ia para casa, vi um caminhão de mudança. A senhora Smith, uma velhinha fofoqueira da vila, já colocava os óculos para ver melhor a cena. E quando vi a casa para onde estavam mudando, quase juntei com a senhora Smith para fofocarmos. Os novos moradores estavam se mudando para a casa mais valiosa da cidade. A Green House. Três andares. Dez quartos. E tudo mais que se deve ter. Um homem mais velho estava ajudando outro homem a descer com os móveis. Foi então que o vi. Estava de camiseta azul. Calça rasgada. De fones de ouvido. E mal humorado. Tinha mais de 20 anos, com certeza. Mas era... Incrível!
Mas Okay, Alice! Vida que segue. Ele nunca vai me notar. Vá para casa ler seu livro e tomar chocolate quente! Agasalhada até os olhos, continuei andando.
- Oi, Alice! - era Lauren. Era a garota mais famosa da vila. Todos queriam ser amigos dela. Menos eu.
- Oi - disse.
- Já viu o gato que chegou na cidade?
- Nãooooo - falei, fingindo de desentendida.
- Melhor mesmo, por que ele é meu - falou e começou a rir. Ela era tão... Metida!
- Tenho que ir - falei.
- A vovó está chamando já? - falou em tom irônico.
Não disse mais nada. É melhor não arranjar confusão com Lauren. A última menina que fez isso foi tão humilhada que está no seu quarto até hoje, chorando.
Finalmente cheguei em casa. Não tinha ninguém. Fui para meu quarto e deitei. Tirei as luvas sentindo o frio que vinha da janela. O cartão do convite para a festa de 300 anos da vila estava jogado em um canto, todo amassado.
Cheguei na janela, a chuva tinha começado. E eu adoro chuva. Sorte minha Lua Verde ser uma cidade tão chuvosa e fria. Minha vó chegou com umas trinta sacolas na mão.
- Minha vó ficou maluca ou não?
- Não, não fiquei maluca - falou rindo - São coisas para a festa de 300 anos. Vou cozinhar algum treco que dê para ser mastigado e engolido, Alice!
- Você é uma ótima cozinheira!
- Eu sei, só falei isso para você me elogiar - falou rindo. Minha vó era ótima, adorava ela!
- Deixa um resto para mim! Eu não vou na festa!
- Como assim?
- Eu só não quero ir, okay?
- Uma jovem tão linda, escondida em casa? Não! Vai e está resolvido!
- Mas vó...
- Mas nada, Alice! Vamos, tá legal? Se não te tirar dessa casa ninguém mais faz!
As três horas seguintes foram de total reclamação. Mas minha vó não parou de insistir até que eu aceitasse.
O sino da igreja alertou a vila de que a festa iria começar. Minha vó foi antes de mim para levar a comida. Eu iria mais tarde. Vesti um vestido verde com flores. Os outros diriam infantil, mas acontece que os outros são os outros. Fui para o centro de Lua Verde. Algumas ruas antes já se ouvia a música. Até que devia estar animado. Teria que cruzar a Green House para chegar no centro. Atravessei atenta. Queria ver aquele homem de novo. Mas nada.
Cheguei na festa e já dei de cara com Lauren e sua turminha de metidos. Fingi que não vi e continuei andando. Eles não mexeram comigo. A música estava animada e muitos dançavam. Onde estaria vovó?
Sem nenhum sinal dela, resolvo tomar alguma coisa. Vou até a mesa onde está os vinhos e decido tomar um gole. Coloco na taça e...
- A meu Deus! - falo, o vinho todo derramado em mim.
- Eu não vi, nossa, eu sinto muito! - era ele. O cara que mudara para a Green House. Estava na minha frente. Todo manchado de vinho. Eu não conseguia falar.
- É...Nos...Me...
- Acalma, moça - ele falou com um sorriso - É só vinho!
Não conseguia falar nada.
- Não fica assim - ele falou. Parecia estar se divertindo com a minha reação - Eu vou dar um jeito nisso - falou olhando para a camisa.
- Tudo...
- Alice! - chamou minha vó. Ela chegou em mim com a cara assustada - Mas o que ouve?
- Foi só um acidente senhora - falou ele.
- Ah, que desastrada minha neta! Venha Alice, vamos dar um jeito nisso! E como dizem welcome to Lua Verde!
- Muito grato - falou ele. E de alguma maneira, ele não parava de olhar para mim.
Então minha vó me levou para o toalhete e com um lenço encharcado tentou dar um jeito no vestido.
- Isso é só para não manchar - ela disse.
- Vó, como chama aquele homem? O que chegou?
- Tom!
Tom... É o nome dele...
- Agora vamos voltar para... - minha vó não terminou, porque um grito ecoou em toda a vila.
Saímos do toalhete e nos encontramos em uma enorme confusão. Gritos e mais gritos. Alguns diziam Emily. Emily? Como assim?
Continuamos andando, melhor, correndo para ver o que aconteceu. Saímos do centro, junto com a multidão. Chegamos no jardim de Lua Verde. E deitada no chão, morta, estava Emily. Sua face assustada. E o que todos falavam era verdade: uma mordida, no cangote. Emily tinha uma grande mordida no cangote. Sem mais nenhum ferimento. Ela morreu por isso. E com certeza, isso não era humano!
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Lua Verde
RomanceA jovem Alice Wood mora em Lua Verde, uma vila em crescimento, rodeada por uma grande floresta. Mas é quando o lindo e misterioso Tom Montgomery chega em Lua Verde que assassinatos estranhos começam a acontecer. A calma nunca mais voltará em Lua Ver...
