Ela já se tornou lenda. A moça bonita e voluntariosa que conheci partiu para sempre, sua vida transformada em mito. A princesa que espetou o dedo em uma roça e adormeceu por cem anos para ser acordada apenas pelo beijo do verdadeiro amor.
Ouvi essa história ontem, quando passava arrastando os pés pelo quarto das crianças, indo me deitar. Minha audição já não é a mesma, mas a voz de Raimy saia com bastante clareza pela porta. Ela com certeza se movia de um lado para outro enquanto fazia a narração, pois ouvi os rangidos revelados pelas tábuas do assoalho. É raro minha neta se contentar ao contar apenas uma história: tem que encená-la, como se seu corpo inteiro participasse dá narrativa.
Ouvi sua risada malévola ao encarnar a bruxa que lançou o feitiço, depois seu arquejo depois que a princesa tocou no fuso fatal. Era quase tudo bobagem, é claro, mas fiquei paralisada no corredor, apesar dá dor surda nos joelhos e nos tornozelos. O irmão e irmã de Raimy deviam estar igualmente extasiados, pois não emitiam nenhum som enquanto ouviam a história.
- No primeiro dia do centésimo ano, um príncipe chegou na região, um príncipe mais bonito e corajoso do que qualquer outro antes dele - Ouvi Raimy dizer - Ele não sossegaria enquanto não visse a lendária princesa adormecida. Quando cavalgou em direção às muralha de árvores espinhosas, os galhos se abriram e ele o cruzou, avistando à frente o castelo de pedra e mármore que reluzia ao sol.
Ela fez uma pequena pausa e depois prosseguiu:
- Ele entrou no grande salão e deparou com uma visão espantosa: a corte inteira entregue a um sono que lembrava a morte. Correu pelo castelo até chegar à torre mais alta. Lá, numa cama no centro do aposento, achava-se a Bela Adormecida, com os cabelos dourados espalhados pelo travesseiro e as faces ainda rosadas. O príncipe não conseguiu resistir. Curvou a cabeça e a beijou. Nesse momento, o encanto se quebrou. A Bela Adormecida acordou e o castelo voltou à vida. O rei e a rainha choraram de alegria ao reencontrarem sua filha, e reestabeleceu-se a felicidade no reino. O príncipe casou-se com a princesa e eles viveram felizes para sempre.
Hum! Seria mesmo um belo truque derrubar uma filha da realeza com um fuso pontiagudo, depois vê-la renascer com um único beijo. Se existe esse tipo de mágica, ainda não conheci. O horror do que realmente aconteceu perdeu-se, e não é de admirar. A verdade está longe de ser história de criança.
No dia seguinte, perguntei a Raimy onde ela ouvira aquele conto.
- Um menestrel o contou na feira. - Seus olhos brilharam com a lembrança, e pude visualizá-la na praça dá aldeia, abrindo caminho para chegar à frente dá multidão. - Já imaginou? A princesa completamente sozinha na torre, á espera do verdadeiro amor? Sinto arrepios só de pensar.
Também senti arrepios, embora Raimy nunca pudesse adivinhar a razão. Será que alguém acredita que uma mulher seja capaz de sobreviver de um sono semelhante à morte e sair dele ilesa? Ah, como tentamos curá-la, nós que mais a amávamos! No entanto, alguns estragos são profundos demais para serem consertados.
- É melhor encher sua cabeça de versículos da Bíblia do que dessas bobagens. - resmungou o pai dela.
Nunca gostei dele. A mãe de Raimy, minha neta Thelyn, trata-me com gentileza e carinho, como quem cuida de um bicho de estimação fraco que não tem mais muito tempo de vida, mas seu marido reclama dá quantidade de comida que consumo - como se meu corpo encarquilhado não devesse ser alimentado! - e me chama de bruxa velha quando pensa que não estou ouvindo.
Raimy fez um muxoxo para o pai.
- É só uma história! - protestou.
Perto dos 14 anos e já muito bonita, ela se irrita com sua vida na fazenda. Ao fitá-la nesse momento, surpreendi-me tendo uma visão de Rosa na mesma idade: lábios curvados num sorriso travesso, o piscar rápido dos cílios longos. Senti uma pitada de adoração, tanto por Raimy quanto pela princesa que um dia conheci. Embora eu costume lutar para lembrar o nome dos meus outros bisnetos, Raimy sempre foi minha favorita. Segura de si e dona de uma intensa curiosidade, parece mais cheia de vida do que as pessoas que a cercam.
É também perspicaz o bastante para notar quando sua tagarelice provoca reações inesperadas. Nos dias que se seguiram, voltou várias vezes à sua história de princesa adormecida, com olhadelas e expectativas na minha direção, enquanto eu tentava manter minha expressão de desinteresse. Uma noite, irritada por ela não aparecer com uma touca que eu lhe pedira para buscar, capenguei até o quarto que Thelyn haviam me cedido - outra causa, sem dúvida, dos resmungos contínuos do homem em minha presença. Ao entrar, vi que o pequeno baú que continha minhas posses tinha sido aberto e que minhas roupas tinham sido displicentemente jogadas de lado, Raimy ajoelhada diante do baú, levantou a cabeça num susto, e seu arquejo se igualou ao meu quando vi o que ela segurava.
Mesmo naquele espaço mal iluminado, as esmeraldas e os tubos incrustados no cabo do punhal cintilavam. A lâmina afiada e cruel conservava seu brilho de prata, e senti uma onda de saco ao recordar aquela mesma superfície coberta de sangue. Haveria ainda alguma gota minúscula grudada naquelas pedras preciosas ao alcanço dá tenra pele de Raimy?
Qualquer outra criança flagrada remexendo sem autorização nos pertences de um adulto se mostraria envergonhada e arrependida. Mas não Raimy.
- O que é isso? - perguntou-me, com a voz assombrada.
Um objeto tão caro e tão letal não teria lugar entre as posses de uma simples viúva de comerciante.
Eu poderia ter enganado Raimy com uma mentira e enxotado-a dali. Mas olhei para minha querida bisneta e constatei que não poderia mentir. Nos cinquenta anos decorridos desde aqueles dias terríveis na torre, nunca falei do que havia acontecido lá. Mas, com o corpo fraquejando e a morte se aproximando, eu andava atormentada por lembranças que me invadiam sem ser chamadas, provocando ondas de saudades do que um dia havia existido. Talvez seja por isso que permaneço nessa terra, a última testemunha que viu Rosa quando ela era jovem e não havia ainda sido atingida pela tragédia. A única que viu o desenrolar de tudo, desde a maldição até o último beijo.
Com delicadeza, retirei o punhal das mãos de Raimy e o recoloquei na bolsa de couro em que estivera escondido. Olhei para o amontoado de objetos que ela havia retirado do fundo do meu baú: uma pulseira de couro trançado que para mim era mais preciosa que qualquer adorno cravejado de diamantes, alguns intricados debruns de renda, resgatados de vestidos que haviam se desintegrado fazia muito tempo, um poema escrito com letra elegante num pedaço de pergaminho que já estava se desfazendo com o tempo. Um colar de ouro com três voltas, enfeitado de flores em miniatura, que Raimy fitou com assombro e cobiça, enquanto meu coração tornava a chorar pela mulher que um dia o havia usado. Restos de uma vida sem importância para ninguém a não ser eu mesma.
Sentando-me devagar na cama, fiz um gesto para que Raimy se juntasse a mim. A família se preparava para dormir; ninguém sentiria nossa falta se nos isolássemos por algumas horas.
E, assim, comecei.
- Vou lhe contar uma história...
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Enquanto Bela dormia
RomanceAmbientada em meio ao luxo e às agruras de um reino medieval, esta releitura de A Bela Adormecida consegue ser fiel ao clássico ao mesmo tempo que constrói uma narrativa recheada de elementos contemporâneos. Nessa mescla, os dramas de seus personage...
