Ele me lançou um olhar pelo retrovisor do carro. Disfarçado. Malicioso. Desviei os olhos todas as vezes que encontrava seu olhar ali, mas sempre tentada a vê-lo.
Minha mãe seguia na direção, cantando baixinho a música que tocava no rádio.
Do nada, então, ele se virou para mim, encurvando-se entre os bancos dianteiros do carro. Seus olhos me acertaram como uma flecha, decididos, inflexíveis.
— Como foi o último dia de aula? Não nos contou sobre sua despedida de Rivermont.
Ele não queria de fato saber sobre como foi me despedir dos meus amigos e colegas de classe, dos professores e funcionários que convivia por horas todos os dias há mais de 5 anos. Não queria saber que Victoria chorou, Amanda reclamou que não era justo e Carl disse que não era homem de namorar à distância ao terminar comigo... Na verdade, isso ele adoraria saber, mas não daria esse gosto a ele — não havia contado a ninguém ainda.
Demorei um pouco para responder, ao tempo que ele se cansou da posição enviesada e voltou a olhar para frente, e minha mãe a abaixar o volume da música.
— Um pouco triste — foi o que eu disse, olhando pela janela para os carros que nos passavam; mamãe sempre seguia judiciosamente os limites de velocidade. — Amanda disse que irá nos visitar... e Carl também.
Ele tornou a olhar para mim diretamente. Encontrei em seu olhar um resquício de maldade eclipsada em sorriso quando tornou a falar.
— Carl? O que ele achou de tudo isso? — Ele sabe, pensei. Sabe que Carl terminou comigo assim que contei sobre a mudança. Homens no fundo se conhecem.
— Carl é um rapaz centrado nos estudos e nos jogos — mamãe interveio, e a agradeci por tê-lo feito. — Aposto que entendeu bem a situação. Ele a ama, não é, filha?
— Claro — hesitei ligeiramente antes de responder. — Claro.
O caminho foi de silêncio até entrarmos na rodovia 81. Haveria mais algumas horas de viagem até chegarmos em Baton Rouge, mas mamãe disse que precisava parar para fazer xixi e também reclamou de fome. Paramos no primeiro posto e ela me pediu para ficar no carro com Malcon, que cochilava de braços cruzados. Bateu a porta devagar e andou a passos apressados até a loja de conveniências.
Não me agradava ficar perto de Malcon, tão menos em um carro, sós. Fingi mexer no celular enquanto o observava em seu respirar profundo e ruidoso. Os cabelos curtos muito lisos estavam jogados para trás, e ainda conseguia ver uma parte de seu rosto quadrado com a barba muito bem aparada. Se eu me inclinasse mais um pouco para frente conseguiria ver mais claramente o lado esquerdo de seu rosto... seu nariz perfeitamente delicado, a boca rosada e úmida, seus longos cílios... Balancei a cabeça num movimento rápido. Você só pode estar ficando maluca!, pensei. Isso é errado. Sabe que é! Saia do carro e se mantenha afastada dele o quanto puder...
Fiz menção em abrir a porta, mas do nada Malcon se remexeu em seu banco e olhou para o banco do motorista, e depois para mim.
— Onde está Shae? — me perguntou com voz embargada e pouco confusa.
— Está voltando — foi o que eu disse, rendida a olhar para seu rosto tão bonito. — Ela foi comprar algo pra comer...
— Hum — ele fez, e aquele som gutural, em voz, poderia ser traduzido claramente por um "Então estamos aqui sozinhos, só nós dois?". — Comprou?
Fiz que sim, incomodada com a súbita pergunta. Eu saberia que ele só esperaria que estivéssemos a sós para falar sobre.
— Jogue fora a caixa, a bula e o blister — ele tornou a falar, olhando intercaladamente da loja de conveniências a mim. — Esconda-os bem.
— Vou colocar os comprimidos no pote de capsulas para cólica que tenho...
— Boa garota. A despedida da sua casa foi em grande estilo, não foi? — ele não estava falando daquilo, estava?! Ainda assim não podia esquecer. Não conseguia! Era mais forte que eu!
Meu coração automaticamente e sem controle começou a bater mais forte com a lembrança.
— Não quero falar disso, por favor... — a voz saiu gaga, e vacilante.
Ele se curvou para trás e sorriu para mim com seus dentes brancos e alinhados. E então vi sua mão descer sobre minha coxa. Em uma reação do corpo completamente involuntária, me arrepiei, enquanto ele lentamente encaminhava a mão mais fundo, até a virilha. Arquejei. Queria que ele parasse, o mesmo tanto que não. Meu consciente não o queria perto, mas meu corpo parecia chamá-lo por suas reações.
Então, abruptamente, Malcon deteve o toque e voltou para frente. Olhei para o lado e vi mamãe saindo da loja de conveniência com algumas sacolas, a bons metros de distância. Me recompus, enquanto ele voltou a cruzar os braços e fechou os olhos, como que fingindo dormir.
— Vamos chegar na madrugada — ele sussurrou para mim. — Fique acordada enquanto ela dormir.
Eu queria mandá-lo se danar, manter distância de mim, mas tudo que eu disse foi tudo o que eu queria de verdade naquele momento em relação a ele.
— Sim. A porta vai estar aberta.
Mamãe abriu a porta do carro e foi me empurrando as sacolas com comida. Malcon se remexeu e fingiu ter sido acordado.
— Oh, querido, desculpe tê-lo acordado! — ela disse. — Parei por um minuto para me aliviar e comprar algumas coisas para comermos.
— Está tudo bem, amor — ele lhe respondeu com voz carinhosa. Ela lhe beijou e ambos sorriram quando voltaram a olhar nos olhos um do outro.
— Te amo, amo, amo.
— Também te amo, meu amor — ele a beijou mais uma vez, enquanto eu observava de canto a cena. Eu acreditava nas palavras dele. Realmente a amava, e sempre demonstrou isso. O único problema era que ele amava nós duas.
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Por onde o vento toca
RomanceTriangulo amoroso entre filha, padrasto e mãe. Romance adulto.
