Ele não tinha dono. Vivia sozinho.
Ninguém sabia como aquele gato havia aparecido no bairro. Já estava pela vizinhança há algum tempo. As pessoas nem sabiam como chamá-lo.
Tinha os bigodes bem longos, pelos escuros com algumas manchas mais claras e, bem abaixo da cabeça, subindo pelo pescoço, uma listra grossa de pelos brancos.
Era mais fácil encontrá-lo à noite do que durante o dia. Andava nos telhados das casas chamando as gatas para namorar.
Gostava de caçar passarinhos e correr atrás dos ratos.
Era o inimigo número um dos cachorros do bairro. Era só um cachorro perceber que ele estava em um telhado para começar a latir e avisar os outros cães, que também começavam a latir sem parar.
Os moradores da rua o chamavam de tudo quanto é nome: Gato de Rua, Gato sem Dono, Gato Namorador, mas nunca, ninguém havia dado um nome para ele.
Dona Matilde, da casa 25, tinha um papagaio que quando via o gato andando pelo muro do quintal começava a gritar bem alto:
̶ Olha o Gato de Rua! ̶ e ficava repetindo sem parar ̶ Olha o Gato de Rua!
Um dia, um casal que mora no final da vila, abriu uma lata de sardinhas e deixou, de propósito, no quintal para o Gato sem Dono. Eles ficaram bem quietinhos dentro de casa, espiando pela janela da sala, atrás da cortina, para ver se o gato apareceria para comer aquela deliciosa refeição.
No finalzinho da tarde, lá estava ele. Cheirou, cheirou, deu uma lambidinha, deu outra..., olhou para um lado, olhou para o outro..., afinal, ele não estava acostumado com comida tão fácil e de graça. Desconfiado, comeu tudo e foi embora.
O casal fez isso algumas vezes e o gato acabou virando freguês daquele quintal.
A mulher perguntou ao marido:
̶ Como iremos chamá-lo? Temos que dar um nome para o bichinho!
O homem pensou, pensou e disse:
̶ Esse gato tem cara de moleque ̶ e bem animado apontou o dedo para o gato ̶ Isso mesmo! Vamos chamá-lo de Moleque.
A esposa gostou muito do nome e, a partir daquele dia, começaram a chamá-lo de Moleque.
Todos os dias, no começo da tarde, Moleque aparecia no quintal para um lanche de graça. Ele até já aceitava receber um carinho do casal.
Depois de algumas semanas, o gato, que agora tinha nome, não saia mais do quintal daquela casa. Quando o casal se aproximava, o bichano se esfregava na perna deles querendo carinho.
Eles levaram Moleque para tomar vacina, compraram uma coleira bem bonita com o nome dele gravado e um cesto almofadado para ele dormir.
Moleque não era mais um gato de rua. Agora ele tinha um nome e pessoas que cuidavam muito bem dele.
Moleque só não deixou de fazer duas coisas: chamar as gatas para namorar e andar pelos telhados provocando os cachorros do bairro.
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