Mais que um monstro

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  ● MIRIAM

Ela tinha o corpo sujo de um monstro que nunca havia visto a cor do sol. Ela tinha medo das chamas quentes do verão e do que elas podiam significar. Seu rosto era como o de uma boneca e o coração, escondido nas trevas, era feito de ouro. Felizmente, eles nunca conseguiriam achá-lo.

  Sexta-feira. Uma em especial, extremamente morna e apagada, assim como aquela pequena cidade espanhola na qual me escondia. Nunca em minha vida havia sentido tanto tédio, mesmo em minhas horas mais solitárias. Parecia somente o início duma estação insignificante, porém tudo se modificaria em poucas horas.

  Diferente daquele final de tarde, o café dos Houlses se destacava no gosto e na forma que era deliciado por meus lábios. Era o único lugar em que conseguira me alimentar durante semanas, pois minhas economias foram todas gastas em passagens de trens para me esconder deles. Até que, no Houlses, encontrei um ser com a alma mais cor de mostarda já vista, Jessica Alamilla. Assim que percebeu minha trágica situação, começara a me permitir ter refeições durante seu expediente — as quais ela mesma pagava.

  Não foi meu primeiro impulso aceitar, contudo meu estômago vinha me torturando com fortes dores por meses devido à desnutrição. E sem saúde, não haveria como escapar, nem mesmo sobreviver. Por isso, naquela sexta-feira incolor, coberta por longos xales e vestidos, encontrava-me numa mesa isolada de toda a tradicional clientela dos Houlses, bebericando aquele adocicado café.

  Era óbvia a diferença entre mim e aqueles... humanos. Não, não era meu caso, as formas distorcidas de meu corpo comprovavam que jamais fui humana. Entretanto, eu sonhava, chegava a delirar em me tornar uma.. Uma bem-sucedida dama. Bastava que pudesse me livrar de toda essa sujeira, de todos esses cabelos, de todo esse pecado, que, automaticamente, tornavam-me em algo mais do que horrível. Mais do que um monstro. Um erro divino. Nenhum deles podia suportar a ideia dEle errar, por isso lutavam para me destroçar a qualquer custo.

- Então.. Como está o café? - Jessica apareceu repentinamente ao lado de minha mesa, afastando meus pensamentos da minha mente. Não pude deixar de perceber suas melenas cor-de-ouro inundando aquela madeira, como uma idealização extraordinária do Eldorado.

- Ah... Você sabe, Jess. - Murmurei, enquanto observava alguma julgadora reação a nossa interação. - Sempre está... delicioso.

Um sorriso genuíno se formou em seus lábios, o que me deixou desconfortavelmente melhor. Meus dedos correram até meu bolso, enfiando-se dentro deles e alisando meus poucos trocados. Ah, eles estavam imundos, como todo o meu oculto eu. Mesmo assim, permaneci a tocá-los – talvez até fosse capaz de limpá-los e entregá-los a Jéssica. O meu peito queimava em um sentimento de necessária dívida. Eu permaneceria com aquilo se ela não tivesse..

... com uma delicada – mas inexplicável – força, aproximado-me dela..

Uma moeda caíra. Tentei me abaixar para pegá-la, porém Jessica estava insistente e me segurou:

– Acho.. acho que posso ajudar, Miriam. É pequena, a oportunidade – Seus olhos âmbar se desviaram para baixo, até que subitamente retornaram para mim. – Sim, é pequena, mas maior que isso. É o que vem me mantendo em maior escala e as chances de ascensão nunca são nulas, então..

Pisquei, em confusão:

– Não compreendo..

Suas mãos desceram para meus pulsos e aquele sorriso retornou:

– Eles estão procurando por garotas como eu e você, Miriam! Fotos, fotos e.. roupas, todo tipo de roupa vindo de todo tipo de continente. – Ela murmurou, entregando-me um panfleto cheio de desenhos de garotas. De garotas humanas. – Deus, somente comentei agora porque sei que eles também a querem e o emprego não está fácil por aqui.. não, não está.. Assim, você poderá se manter mais rapidamente, sabe?

Puxei meus pulsos, aproximando-os do meu corpo:

– Céus.. O quão ousado é alguém como você pensar que eu poderia viver de modelo. – Tentei conter uma risada. Eu falhei.

– Não é ousado! Você tem algo em comum com.. as musas pós-guerra e acho que deveria usar isso. Acredite, Miriam, pelo Houlses sozinho não há como se manter vivo por muito tempo.

Permaneci em silêncio. Ah, como ela era ingênua. Toda a imundície do mundo personificada à sua frente, mas ela não a reconhecia:

- Por isso.. eu chamei uma pessoa para vê-la. Ele deve estar chegando.. Na verdade – Jessica olhou para o relógio pendurado acima da porta – já devia estar aqui..

Apertei meu pulsos e impulsivamente, puxei a saia do vestido para baixo. Os olhos de Jessica ficaram grudados na porta por alguns minutos, enquanto eu tentava descer o resto do café pela garganta. No momento que eles se descolaram daquela direção e que ela subitamente levantou e correu, soube que estava perdida.

Não me virei. Continuei encarando a caneca, agora vazia.

– Mikail, como demorou.. – Jessica disse, parecendo um tanto emburrada. – Fez Miriam  esperar e não acho que seja assim que se cria uma boa impressão.

Dizendo isso, segurou meu ombro:

– Miriam, esse é nosso convidado. Mikail Scoliare.

Não havia saída que não incluísse encará-lo. E quando o fiz, quase paralisei. Jessica estava com a cabeça apoiada em seu peitoral, o que fazia ele parecer maior. Seu olhar era afiado e extremamente inadequado.

– Mikail trabalha junto com os fotógrafos. E conhece muitos empresários. Pode-se dizer que às vezes é como um.. olheiro. Disse a palavra certa, querido? –

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⏰ Last updated: Aug 12, 2020 ⏰

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