Prólogo

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São dores que eu aprendi a lidar. Desde que minha mãe morreu, minha irmã mais velha fazia de tudo para que pudéssemos manter nossas coisas. Assim que eu completei 15 anos, eu comecei a ajudá-la no trabalho, até que pude arrumar um emprego sozinha. Era terrível ver minha irmã chegar em casa cansada e não poder fazer nada até ter idade o suficiente.

Lembro-me de um dia que ligaram pra nossa casa, dizendo que Kayla estava no hospital. Ela tinha desmaiado no trabalho. Eu tinha 11 anos quando isso aconteceu, mamãe tinha falecido dois anos antes e eu ainda não estava preparada para perder outra pessoa. Corri muito até o hospital do bairro, chorando muito e pedindo a Deus que minha irmã não morresse.

Bem, ela não morreu. Mas logo que saiu do hospital, foi demitida.

Nós quase perdemos a casa, passamos fome, mas isso nunca nos afastou. Eu me sentia culpada por todos os males que nos aconteceu até hoje. São tantas más lembranças que quase me fazem desistir de tudo. Quase.

O ballet sempre foi tudo pra mim. Pode parecer besteira, mas eu sempre via a dança como única saída para toda a dor. E apesar de todo o preconceito, todas as palavras maldosas que dirigiam a mim, eu nunca deixei me abalar. Eu amava aquilo, e não iria desistir.

Como eu fazia aulas em um centro público no bairro ao lado do meu, as aulas não eram realmente boas. Mas por que reclamar, se eu estava fazendo aquilo que eu amava?

Então veio a prefeitura. Eles precisavam de espaço para as novas estradas, e teriam que demolir o prédio do centro. Os dançarinos se recusavam a deixar isso acontecer, mas no fim foi inevitável. Alguns meses depois, o Queens recebeu novas estradas.

Era dezembro, e as grandes companhias de dança estavam abrindo as inscrições para os testes das bolsas. Eu estava a 9 meses sem dançar, mas resolvi tentar. Tudo estava pronto, a roupa, a coreografia para o teste, tudo. E eu fui.
O grande letreiro me assustava, com toda sua imponência. O prédio claro da Bolshoi Ballet Academy estava na minha frente, e eu não sabia reagir. Então eu, sem pensar, fugi. Larguei meu sonho, ali. Na frente do prédio no qual eu nem fui capaz de entrar.

Quando cheguei em casa chorando, minha irmã me fez prometer que eu não fugiria mais. E no próximo teste, eu seria capaz de fazê-lo e entrar na academia.

FadedWhere stories live. Discover now