ㅡ Jasmine? ㅡ Pouso as sacolas e a bolsa no chão ao lado da porta e desço o pequeno lance de escadas de mármore negro, tendo o cuidado para não tropeçar por causa da pouca luz na sala. Logo identifico o local ao qual minha patroa está: A velha poltrona branca em frente a lareira, que no momento está apagada. Senhora Garnett está em mais um dos seus dias melancólicos. Costuma acontecer principalmente nas recaídas de seu marido (as quais ela finge não saber, mas na verdade contratou um detetive particular para segui-lo). Ou em raros casos em que ela consegue entrar no quarto de Samuel e presencia o estado deplorável em que o seu filho se encontra. Não a culpo por estar agora se entupindo de Uísque, não a culpo por estar com a mesma roupa e três dias, também não a culpo por ter voltado a fumar. Culpo a vida, foi ela quem levou Claire Garnett ao fundo do poço e cabe a vida escolher entre afoga-la ou tira-la de lá. O grande problema nisso tudo, é que agora eu também faço parte da vida dessa mulher, uma hora ou outra vou acabar me inclinando de mais na beirada do poço.
ㅡ Sim, Sra. Garnett? ㅡ A luz do abajur ilumina parte de seu antebraço e posso ver o copo de cristal e o som do gelo tilintando no líquido escuro. Pelo conteúdo presente na garrafa ao seu lado, está em sua primeira dose. A mulher solta uma risada rouca de sua garganta e logo em seguida suspira; por algum motivo ainda estou olhando para sua mão; Claire balança o copo de um lado ao outro com suas grandes unhas pintadas de vermelho, cor a qual ela usa sem exceção, todos os dias. Assim como muitas coisas sobre ela... eu não sei o motivo para isso.
ㅡ Jasmine, a quanto tempo você trabalha aqui? ㅡ Ela ainda está sorrindo, posso sentir.
ㅡ Quatro anos e seis meses ... ㅡ Murmuro, temendo aonde essa história vai chegar.
ㅡ Você... Sabe das condições do meu filho mais velho, não sabe? ㅡ Como não poderia saber? A primeira coisa que me disseram quando entrei nessa casa, foi sobre Samuel. E mesmo sabendo sobre ele, nunca tive a oportunidade de ve-lo, nem mesmo em fotos.
ㅡ Sim Senhora... Desculpe, se eu não sair agora posso perder o último...
ㅡ Ainda não acabei. ㅡ Ficamos em silencio durante exatos dois minutos. Pude ver pelo enorme relógio do outro lado da sala; o mesmo que abriga uma boneca de porcelana com olhos esbugalhados que me assombra noite e dia. Por um momento pensei que Senhora Garnett poderia estar olhando o mesmo relógio. ㅡ Bem... Tenho uma proposta irrecusável para você. E o fato de ser irrecusável, não significa que seja boa... Se recusar, está demitida.
ㅡ Você não pode... ㅡ Ela me corta mais uma vez, agora levantando o indicador da forma ameaçadora que só Claire Garnett pode fazer.
ㅡ Sim, eu posso. O nosso contrato é de seis anos se bem me lembro ㅡ A mulher se levanta e caminha até a janela um pouco a frente, clicando seus saltos sobre o piso de madeira ㅡ Se ler bem, pode ver que assinou concordando em me obedecer em quaisquer circunstâncias, sendo elas livres de riscos a sua saúde física e sua integridade. ㅡ Vendo que não disse mais nada, a mulher continua ㅡ Não se preocupe Jasmine, a sua saúde física e "integridade" ㅡ Levanta as duas mãos, dando ênfase as aspas. ㅡ vão continuar da maneira que está. Preciso de você para algo importante, não será fácil, mas duvido ser impossível... Com exceção a mim, é claro. Nos últimos anos o que mais tenho feito é tentado arrumar uma maneira de... ㅡ Sinto sua voz vacilar. Sra. Garnett limpa a garganta e volta a olhar para mim. Minhas mãos doem pela força excessiva que faço apertando o encosto da poltrona. Ainda não sei o que ela quer, mas se não vai direto ao ponto, algo bom não deve ser. A mulher coloca o copo na mesa de centro e apoia as mãos na cintura esquelética ㅡ Vou lhe pagar cinquenta mil reais, se você, Jasmine conseguir fazer a vida de Sam voltar ao que era antes.
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ㅡ Ela o que?!
Doug está andando de um lado para o outro no tapete felpudo da nossa sala enquanto eu pinto as unhas de preto sentada em uma das cinco poltronas macias.
Estamos em seu galpão na zona sul, me mudei para cá depois que mamãe morreu e ajudei Douglas a decorar os dois andares. Em todo o canto há um pedacinho de mim; des de as luzinhas postas no corrimão da escada, até o lustre de cristais negros que tirei da casa de mamãe.
ㅡ E o que ela falou quando você disse não? Eu aposto que ela surtou! ㅡ Pude ver o sorriso do meu amigo se dissipando quando o encarei sem dizer nada. Douglas trabalha como fotógrafo para alguns ricaços, e não vê a hora de eu largar o emprego que tenho para ajuda-lo com as câmeras. Ele odeia o fato de eu ter perdido cinco anos da minha vida nos cursos de fotografia e não ter trabalhado com isso nem se quer um dia. ㅡ Jasmine, não preciso nem dizer o que acho sobre isso. Você acha mesmo que ela vai te pagar? E se não conseguir fazer o que ela quer, não acha que vai acabar se dando mal?ㅡ Largo o esmalte no chão e me levanto, caminhando até a janela do outro lado da sala. Daqui de cima conseguimos ver toda a cidade, as luzes ofuscantes e prédios enormes.
ㅡ Doug, se eu disser não, vou ser demitida. Ou eu tento ou eu tento.
ㅡ E daí? Se fracassar também vai ser. Se você for demitida vai ter um emprego te esperando aqui. Vai ser independente, Jass.
ㅡ Se eu conseguir essa grana Doug, vamos poder terminar de pagar o carro e ainda vai sobrar muita coisa. ㅡ Volto a olhar para meu amigo. Ele parece triste, mas seus olhos azuis brilham, como se tivesse a esperança de conseguir o que queremos com esse dinheiro.
ㅡ Promete pra mim Jass. Promete que se a barra for muito pesada, você vai desistir. ㅡ Sorrio abertamente e corro em sua direção o abraçando. Doug parece mais leve, e eu ainda mais...
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Perdida em seus olhos
RomanceUma acidente que o fez perder a visão. Uma proposta irrecusável para ela. Um fracasso em tentar ajuda-lo. O início de uma história de amor...
