Andando, lentamente, em uma estrada que parecia sem fim, estava lá a se perder de vista uma mulher, de cabelos longos e castanhos, pele branca e arrastando a mala estrada a fora.
Ao som do rádio da caminhonete, tocava um clássico blues, eu sentia o vento batendo em meu rosto, o clima árido, a boca seca, mas ainda assim, me divertia com cada gola daquela água, gelada e doce, descendo aos poucos a minha garganta.
Após rodar quase quatro quilômetros, me aproximo da mulher que vira de longe, impaciente ao arrastando sua mala, aquele pontinho no horizonte se transformou em uma bela paisagem aos meus olhos, os raios de sol se fundiam aos fios de seu cabelo, formando quase que um filamento de tungstênio em chamas, a pele branca, toda delicada, tentando arrastar a mala por mais alguns metros de estrada, parei a caminhonete no acostamento, desci e ela continuava ainda arrastando sua mala, como se eu nem estivesse ali - Você tem certeza que quer levar essa mala sozinha até o fim dessa estrada? Ou até onde sabe lá você a quer levar - Falei com tom de ironia.
-Claro, eu comecei, irei até o fim dessa estrada, me cansei de ser ajudada por pessoas que só queriam se aproximar de mim. Você acha justo isso? - Indagou.
-Bom, confesso que compartilho dessa mesma insatisfação, temos um mundo construído ao redor de interesses. Por mais que você queira chegar sozinha até o fim da estrada, eu não conseguirei te deixar aqui e ir embora, quando eu me deitasse na cama à noite, passaria pela minha cabeça todas as bobeiras e loucuras que podem ter acontecido com você - Falei apoiado no capo da caminhonete.
-Vá e não se preocupe comigo, eu sei me virar, não sou uma preocupação sua - Disse ainda arrastando a mala.
-Vou facilitar a sua vida, eu posso colocar a mala o banco da frente e te colocar na carroceria e te levar pra um lugar mais seguro. Posso colocar sua mala na carroceria e você entrar no banco da frente e irmos ouvindo música até a próxima cidade. Ou posso colocar você e sua mala na carroceria, mas ai teria que me prometer que não irá jogar sua mala e se jogar de lá.
-Por que você insiste tanto? - Disse me olhando com olhar desconfiado.
-O que eu posso fazer? Sou um refém da minha consciência, te deixar aqui seria como entrar em um ringue comigo mesmo e me nocautear no primeiro assalto - Soltei em tom de humor.
Após algumas gargalhadas, ela me finalmente parou de arrastar as malas, me olhou nos olhos e disse ainda rindo - Pensando por esse lado, pegar uma carona com você me parece ser bem mais divertido.
Ela não me deixou ajudá-la a colocar a mala na carroceria, entrou no banco da frente da caminhonete e ficou me aguardando, fechei a porta da carroceria e fui andando até a porta do motorista - Você não vai me sequestrar nem me matar no caminho para vender meus órgão não é mesmo? - Perguntei antes de entrar
-Para de ser bobo, se eu quisesse mesmo sequestrar alguém teria um por quê, e se fosse pra eu vender órgãos, numa estrada deserta seria o último lugar que eu iria procurar - Disse sorrindo enquanto arrumava o cabelo olhando no retrovisor.
-Desculpe, mas já estamos nos falando há uns cinco minutos e você ainda não me disse o seu nome.
-Que descuido o meu, sou a Monique - Me disse sem jeito.
-Muito prazer em conhecê-la assim de modo tão estranho dona Monique.
Deixei que a música do rádio tomasse conta do silêncio que ficou no ar.
-E você não vai me dizer o seu nome? - Ela me questionou.
-Não falo meu nome pra estranhas - Disse com um enorme sorriso no rosto.
-Se você nunca fala seu nome pra nenhum estranho, então só sua mãe deve saber o seu nome.
Cai em gargalhadas, por mais que eu não quisesse, estar ali, com a Monique estava sendo uma diversão e tanta.
-Ta bom, essa você venceu, sou o Chevy, mas só não me venha com a velha piadinha "Chevy o carro!?" - Disse em tom de resmungo.
-Poxa, você acabou de destruir a minha expectativa de fazer uma piada com o seu nome, mas pelo menos você é charmoso - Disse-me rindo e batendo no meu braço.
-Essa foi a pior cantada que eu já recebi sabia? Já falaram que sou charmoso, já zoaram meu nome, agora zoar meu nome, me chamar de charmoso e ainda fazer isso soar como uma cantada é inédito.
Ela caiu em gargalhadas, suas bochechas ficaram levemente rosadas e por um instante ela ficou me observando dirigir.
-O que foi? Dirijo tão bem assim, pra tu me olhar com tanta admiração? - Perguntei rindo, não querendo me gabar.
-Nada - Disse ela olhando fixamente em meus olhos, abaixando a cabeça e rindo discretamente.
Ao som do radio tocava mais um Blues, quando o locutor anunciou.
-Motoristas que vem do sul , uma chuva forte cerca a cidade, tenham cautela ao se aproximar.
-Sua mala é impermeável? -Peguntei-a.
-Não, se pegar chuva, vou ter que ficar um longo tempo com essas roupas que estou no corpo. Tu não tem uma lona pra colocar na mala?
-Tenho sim, vamos fazer isso já.
Abri o bau que fica na carroceria, tirei uma lona e subimos juntos para envolver a mala com a lona, começamos a dobrar a lona aqui, dobra ali, pronto, a mala agora estava protegida.
Fomos nos afastando da lona lentamente para que pudéssemos descer da carroceria, quando o cadarço de Monique se enroscou na corda que amarrava a lona e ela se desequilibrasse. Rapidamente eu a apoiei, quase que caindo junto com ela, nos olhamos nos olhos, ela olhava pra minha boca, e novamente para os meus olhos - É melhor entrarmos na caminhonete antes que essa chuva de esperanças nos afogue em lamentações - Disse deixando-a em pé.
Voltamos para a caminhonete e seguimos viagem, logo a frente, visualizamos a falada nuvem negra de chuva, eu, atentamente dirigindo, enquanto Monique se divertia com o braço de fora.
-Como é incrível a vida, esses espetáculos da natureza, as vezes perco totalmente as esperanças, mas após presenciar verdadeiras obras prima da mãe natureza, eu fico rejuvenescida, como se esse fosse meu primeiro dia de vida.
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Orvalho azul
RomanceChevy e Monique, um casal jovem, unidos ao acaso, que cansados com a imoralidade e falta de compaixão de grande parte de seus vizinhos, decidem cair na estrada dentro de um trailer, se aventurando e conhecendo cada canto remoto onde passavam, deixan...
