A Primeira Morte
Morrigan tinha dez anos quando a mãe desapareceu.
Numa manhã, ela ainda preparava o café enquanto cantarolava baixinho pela cozinha.
Na manhã seguinte...
A cadeira estava vazia.
O prato continuava no armário.
A caneca favorita permanecia sobre a pia.
Mas ela nunca mais voltou.
— Papai... onde está a mamãe?
O homem permaneceu escrevendo em seu velho caderno de capa escura.
Nem sequer levantou os olhos.
— Sua mãe morreu.
Foram apenas três palavras.
Secas.
Frias.
Morrigan esperou sentir alguma coisa.
Esperou vê-lo chorar.
Esperou que ele a abraçasse.
Esperou que dissesse que tudo ficaria bem.
Nada aconteceu.
O silêncio tomou conta da casa.
Os dias passaram.
Depois semanas.
Então meses.
E, pouco a pouco, aquela casa deixou de parecer um lar.
Garrafas vazias começaram a surgir pelos cômodos.
As cortinas permaneceram fechadas.
A poeira acumulou-se sobre os móveis.
Seu pai já não ria.
Já não conversava.
Passava horas olhando uma fotografia antiga.
Às vezes chamava Morrigan pelo nome.
Outras...
Pelo nome da mãe.
Ela fingia não perceber.
Porque toda vez que o corrigia, o olhar dele mudava.
Ficava distante.
Estranho.
Como se esquecesse quem ela realmente era.
Então veio a mudança.
A ilha.
Uma extensão de terra cercada por mar e silêncio.
Sem vizinhos.
Sem crianças.
Sem escola.
Sem ninguém.
— Aqui ninguém vai nos incomodar.
Foi o que ele disse.
No começo, Morrigan acreditou.
Talvez aquele lugar fosse ajudá-lo.
Talvez a tristeza passasse.
Talvez ele voltasse a ser o pai que a colocava nos ombros para colher flores.
Mas os dias naquela ilha eram longos.
E as noites...
Ainda maiores.
Ela passou a reconhecer seus passos pelo corredor.
Aprendeu que existiam noites silenciosas.
E noites em que o chão rangia.
Nas primeiras, conseguia dormir.
Nas segundas...
Abraçava os joelhos contra o peito e rezava para que o amanhecer chegasse logo.
A casa inteira parecia respirar.
As paredes estalavam.
O vento fazia as janelas baterem.
Mesmo assim...
Nada a assustava tanto quanto o som da maçaneta girando lentamente.
Ela deixou de trancar a porta.
Não porque confiasse.
Mas porque aprendera que fechaduras nunca o impediam de entrar.
Então começou a desaparecer dentro de si.
Falava menos.
Sorria menos.
Passava horas olhando o mar pela janela.
Imaginando se a mãe também havia olhado aquele mesmo horizonte antes de desaparecer.
Às vezes sonhava que ela voltava.
Nos sonhos, a mãe a chamava para casa.
Quando acordava...
Só havia silêncio.
Até que uma noite tudo mudou.
Seu pai entrou em seu quarto carregando uma pequena maleta de couro.
Vestia sua melhor roupa.
Trazia um sorriso calmo demais para aquela hora.
Sentou-se ao lado da cama.
Observou a filha durante longos segundos.
Então perguntou, quase num sussurro:
— Você sente saudade da mamãe?
Morrigan apenas assentiu.
Ele sorriu.
Um sorriso vazio.
Que nunca alcançou os olhos.
Naquela noite, a menina percebeu que aquele homem já não era seu pai.
Talvez não fosse havia muito tempo.
Quando a porta se fechou atrás dele, algo também se fechou dentro dela.
Na manhã seguinte, o sol voltou a nascer sobre a ilha.
Os pássaros continuaram cantando.
As ondas continuaram quebrando contra as pedras.
Mas a menina chamada Morrigan...
Nunca mais voltou a enxergar o mundo da mesma maneira.
Foi naquela casa que ela aprendeu sua primeira verdade.
Os monstros mais perigosos não vivem debaixo da cama.
Nem escondidos na floresta.
Eles aprendem a sorrir.
Aprendem a ser gentis.
Aprendem a conquistar confiança.
E, quando ninguém está olhando...
Fecham a porta.
Naquela noite...
Morrigan morreu pela primeira vez.
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Rainha Escarlate
ParanormalVocê pode me chamar por varios nomes. Pode escolher o que quiser. mais saiba que sou aquele que a chama para o pecado. Sou o que lhe trás desejos mais sombrios... Sou sua tentação e fraqueza... Sou aquele que te satisfaz a noite... O que te domina...
