Pizza é bem melhor

12 1 0
                                        

Dyna acordou para nunca mais dormir, naquele dia.

O jovem besouro prontamente se levantou do chão, daquele estepe outrora verde, e agora queimado, só para perceber que não estava mais entre seus companheiros. Apenas havia fumaça naquele céu noturno iluminado pela lua, e ao seu redor, fogo e retalhos do carro, das armas e dos seus companheiros. Não obstante a isto, a visão e os pensamentos de Dyna estavam voltando a tempo para o mesmo reparar que alguém se aproximava.

- Tu morres e vives de novo e de novo – falou o colossal indivíduo que surgia da queima que acontecia logo à frente de Dyna – Vais largar o sabre de novo, como fizestes da última vez?

Era o Titã, "o Campeão do Imperador", munido de uma desgastada carapaça rubra e uma extensa espada de madeira.

- Não estais mesmo pensando que chegou só um pouco perto de matar o Imperador, certo? Não estais mesmo pensando que alguém sairia vivo perante minha presença, certo?

Dyna, ainda mudo, se levantava de pouco em pouco, tal quais os passos que Titã dava. Ele cravou sua espada de um gume com duas lâminas curvas no terroso chão para dar-se um apoio.

- Por que ficais ao lado dele? – Dessa vez, à medida que falava, mais Titã chegava perto de Dyna – Se tivesse me escutado, teria visto que... O Imperador estava certo.

A luminosidade da lua que pairava sobre Dyna foi ofuscada pela enorme sombra que Titã provocava. Nem seu extenso chifre, presente em sua testa, chegava ao tórax do antagônico personagem.

- Bem e mal não existem, besourinho - Titã voltou ao seu monólogo - Existe apenas o mokuzai e ele está acabando. Você acha que seu líder, Danaus, irá distribuir para seu povo todo o mokuzai?! Você sabe que não. Mas é orgulhoso demais para admitir. E orgulhoso demais para ser tão lacônico, como sempre foi.

Titã levantou sua extensa espada de madeira fazendo com que a ponta da mesma batesse na mandíbula do besouro, o lançando para trás. Mesmo pelo impacto do golpe, pela caída no chão, Dyna continuou calado.

- Minhas tropas já devem estar invadindo a cidadela, e tu és o que sobrará da milícia miserável daquele monarca!

- As tropas são minhas, Titã – balbuciada frase proferida por alguém que estava do outro lado da estepe, logo depois da queima que ainda estava ocorrendo

- Mas quem és o campeão que a comanda?! – retrucou, Titã.

- Seu orgulho lhe impedes de fazer muitas coisas. Queres voar, mas não tem asas. Queres ter um chifre, mas não podes. Que--

- Você me impede de fazer muita coisa, "filósofo"! Até mesmo embaixo desses destroços vai me impedires de--

CRACK!

Os olhos de Titã esbugalharam-se, sangue saiu de sua boca. Dyna havia se atirado no abdômen do colossal guerreiro, o acertando com seu chifre. Titã foi capaz de cair no chão, ainda apoiando-se com um braço.

"O Campeão do Imperador", com bastante dor, não acreditando que sua carapaça estava rachada e imaginando que a mesma houvesse perfurado seu corpo, levantou sua cabeça e se deparou com o jovem besouro azul-marinho em pé, com um literal olhar de quem está morrendo.

- Primeiramente: - Dyna proferiu suas primeiras palavras desde que acordou do acidente da perseguição automobilística que estava – "Fora Imperador"! – uma patada foi dada no rosto do Titã, o qual o lançou mais longe.

Titã ia tossindo pouco a pouco, tal quais os passos que Dyna dava.

- Segundamente: Cervicornis está na cidadela. As TUAS tropas que estão acabadas. Ela não morre. Ela mata.

Titã ainda segurava firme e forte sua extensa espada de madeira, e embora, por uma raríssima vez tremendo, conseguia se levantar para pancar o queixo de Dyna.

- Terceiramente: eu não ligo para o mokuzai, eu não ligo para o Danaus. Eu ligava--

Titã tentou enfiar sua espada na cabeça de Dyna, o qual desviou e com seu próprio pulso, afastando a espada. Imediatamente, defenestrou um golpe no caixa peitoral de Titã, tão forte que conseguirá rachar tal parte. O mesmo apenas deu passos para trás, mas isto não significava que ele sua respiração estava normal.

- Eu ligava todos os dias para aquela pizzaria! Sabe o que acontecestes com ela?! – Dyna deu um pulo e "martelou" seu chifre na cabeça do inimigo, o fazendo cair de corpo inteiro no chão – Eles a bombardearam. MINHA PIZZARIA FOI BOMBARDEADA.

- Tu... Tu-tu ligas tanto pa-para pizzas? – balbuciava Titã, com a vista esquerda embaçada por conta do sangue escorrendo de sua testa – Tu-tu lutas pelo o que? Pizzas?!

Dyna levantou a extensa espada de madeira jogada no chão com um pé. Ele a examinou antes de voltar ao seu monólogo:

- Quartamente: eu não preciso daquela espada, eu não preciso de nada, nem de ninguém – como mais uma demonstração da força que ainda tinha, Dyna arrebentou o gume da extensa espada, ainda que com um visível esforço – Eu sou um kabuto foderoso, desgraçado. O melhor de todos.

Dyna encravou o gume partido na testa de Titã. O mesmo tentou se defender, mas o movimento de sua mão foi em vão.

Titã havia ganhado um chifre de madeira.

Um silêncio havia se implantado naquele lugar agora. Apenas as chamas ainda acesas faziam o único som daquela área.

- És habilidoso e muito presunçoso – a voz vinda além daquela queimada quebrou o silêncio – Tal qual ele eras. Mas és mais paciente e habilidoso que ele.

- Eu sempre fui melhor que ele e qualquer macho. Eu sou Dyna, otário.

- Que bom. Terias sido a melhor adição em minhas tropas.

- Seria. Sóis o soldado perfeito. Não falo nada e faço o que mandas e faço o melhor. Mas não preciso de você ou do babaca coroado lá.

- Não necessariamente, filho meu.

- "Não necessariamente" meu orifício anal. Se seu "campeão" não lhe respeitavas, por que achas que eu lhe respeitarei, "im-perador"?

- Porque lhe dou o que quiseres filho. Paz. É o que queres. É o que precisas e sim, eu sei o que se passa com tu. Eu sei o que se passa com todos. Tu és um personagem que acabas de sair do modo alienado de ser. Alguém amargurado com as vidas que tirastes. Tu apenas quês—

Das chamas emergia Dyna, com olhar de quem acabará de comer, de mastigar, de enfiar crack nas veias. Ele estava indo na direção da enorme mariposa de coloração bege que tinha metade de seu torso embaixo do capô queimado de um caminhão.

Correndo, cabisbaixo mirando seu chifre em direção ao Imperador.

O chifre encravou no torso da mariposa. Metade de seu corpo estava embaixo dos escombros. A outra metade estava agora em movimento. Estava sendo inteiramente enfiada no chifre do jovem besouro. O mesmo parou de correr, e a parada brusca fez com que lançasse o corpo da mariposa no chão.

Com suspiros sucessivos e gotas de sangue saindo de sua boca, Dyna reparou que estava pisando em um pedaço de mokuzai. Havia fragmentos espalhados por aquele lado da estepe. Dyna pegou aquele pedaço da parte lenhosa de árvores, constituída de fibras e vasos condutores da seiva bruta, vulgarmente conhecida como "madeira", mokuzai, e a levou à sua boca. Mastigando-a, analisando-a, Dyna concluiu:

- Pizza é bem melhor.

Após tais palavras, Dyna despencou no chão.

Dyna dormiu para nunca mais acordar, naquela noite. 

You've reached the end of published parts.

⏰ Last updated: Nov 05, 2016 ⏰

Add this story to your Library to get notified about new parts!

KabutoStories to obsess over. Discover now