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Prólogo

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1662, França


    O céu permanecera nublado durante as últimas semanas. As chuvas torrenciais ficavam cada vez mais frequentes e mais frias. Era de se estranhar a mudança drástica de tempo, afinal ainda não havia terminado o verão, por mais próximo do fim que o mesmo estivesse.

    Aparentemente, só havia uma pessoa contente com aquele clima escuro, úmido e levemente fúnebre. A perda do Rei Nicollas III e da Rainha Dara em um acidente, junto com seu fiel conselheiro Lorde Dauphin, afetou a todo o povo, que sentiriam falta da simpatia e compaixão de suas Majestades, porém, após quase dois meses daquele dia fatídico os súditos já se conformavam com sua ausência e esperavam, com toda dedicação, seus novos governantes subirem ao trono.

    Apesar da tristeza da perda, a maioria do povo, principalmente aqueles que frequentavam o palácio com frequência, se sentiram aliviados de pelo menos uma pessoa ter se salvado da tragédia. Contraditoriamente, aquela que muitos consideravam afortunada por não ter recebido um fim tão prematuramente era a mesma que apreciava o dia tempestuoso que se seguira de sua enorme janela. A Princesa Christine, em seus quase 18 anos completos, única sobrevivente e herdeira da Coroa da França, naquele momento, mais do que nunca, teve seu destino traçado e que precisava ser cumprido.

    Seu olhar perdera o foco assim que começara a encarar os jardins logo abaixo de sua sacada e as várias construção que se mostravam mais perto do palácio, e ainda assim tão longes. Sua respiração embaçava o vidro a poucos centímetros de seu rosto, sua mente, antes tão atordoada, permanecia quieta, sem palavras, sem rumo.

    Seu olhar alternava entre encarar a paisagem e seu próprio reflexo no vidro. Seu cabelo ruivo avermelhado desgrenhado e sua olheiras já começando a ficar aparentes sobre as leves sardas, pelas noites mal dormidas. Sem rumo...

    Um sorriso de escárnio surgiu em seu rosto ao pensar nessa duas pequenas palavras. Ah, havia sim um rumo para sua vida, um que lhe foi atribuído em seu nascimento, como herdeira do trono. Ela não estava reclamando, pensou consigo mesma, porém, por toda sua vida, até aquele momento, ela tivera certeza de que teriam os pais para lhe instruir em seu futuro ofício, sobre suas atitudes para com o povo, sobre casamento...

    Ela tinha plena consciência que teria de se casar, o mais rápido possível, para assumir o trono, afinal uma mulher não poderia, de maneira alguma, subir ao poder sozinha. Ela tem sido preparada a vida inteira para aquele momento, e, apesar de seu medo de falhar a consumir a cada segundo dos últimos dias, seu desejo de manter o legado dos pais vivo era maior, e era desse desejo que ela tirava forças para se levantar dia após dia mediante sua perda.


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