Não sei se o que eu senti era algo próximo do que as pessoas chamam da euforia da paixão, ou rubor do amor. Eu só sei que meu corpo liquidificou em um fluído brilhante que tentei não deixar escorrer pela borda da mesa do café.
Seus lábios eram a personificação da luxúria e, oh meu deus, eu me tornei um pecador desde o primeiro segundo que lhe olhei. Eu estava condenado.
Perdi o controle da respiração ao mesmo tempo que a sanidade.
Eu pulsava junto com o desejo. Não era meu corpo, visto que já nem o sentia mais. Era essa minha parte, que outrora nem sabia ter, que eles chamam de alma. Ela estava inerte, entregue, seduzida.
Bebi algumas xícaras de café que pareciam flutuar a minha frente. Não me estranharia se um chapeleiro e uma lebre de março aparecesse para me acompanhar. Talvez se eu gostasse de chá...
Pensei em levantar e alcança-la. Primeiro necessitava sentir meu corpo de volta, ao menos os pés. Seria um bom começo...
Ela ainda estava lá, maleficamente ou inocentemente, ignorando a minha pobre e desesperada existência.
Talvez eu devesse chamar atenção. Será que só eu conseguia ver os fogos de artifício explodindo em mim? Tragédia.
Então eu flutuei. Sim, eu flutuei. Como um anjo em desespero por tocar a face de deus. Flutuei sobre a cabeça dos que estavam tomando café, em suas mesinhas redondas, para chegar até lá.
Chegando a poucos metros dela, senti seu cheiro. Ah, aquele cheiro de certeza... Ela cheirava a certeza absoluta com um toque de cereja.
Não sei se morri ou renasci, talvez a sensação seja similar para os dois casos, mas sei que fiquei preso na linha frígida entre o céu e o inferno, quando ela olhou para mim e disse:
-Quer sentar comigo?
