Capítulo I

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O sol mal havia apontado no horizonte, mas sua luz suave entrara pela janela e me fizera despertar subitamente.
Não demorei mais que dois minutos deitada para recobrar os sentidos que havia perdido na noite anterior e seguir a diante com o que a muito tempo havia planejado.
Olhar o violino fora da capa ao lado do lindo vestido de linho preto,  estendido sobre a poltrona no canto do quarto, me fez querer chorar novamente, mas dificilmente deti as lágrimas na borda dos olhos.
Tomei o rumo do banheiro, onde pude pouco demorar.
Coloquei o vestido e caminhei pelo quarto secando os cabelos na toalha, antes de enlaçar o all star vermelho nos meus pés para depois ir até a garagem e ver se fora lá que Drake (meu irmão) deixara a bicicleta da última vez em que usara.
Com o violino posto na capa, dirigi-me compulsivamente até o quarto de Drake para me certificar  de que a febre da noite anterior não havia retornado.
Quase como uma pluma a minha mão pousara sobre sua testa e seu pescoço, meramente para não acordá-lo ou assustá-lo. Porém, de alguma forma eu o fizera despertar.

- Liza? - disse ainda com os olhos entreabertos, num tom sereno e quase inaudível.
- Só vim verificar sua temperatura - sussurrei, enquanto me inclinava para dar-lhe um beijo na testa.

Ele sorriu com a boca fechada e afastou com uma mão os cabelos que escorriam em sua testa.

- Como se sente? - perguntei ao me sentar na beira da cama.
- Melhor - respondeu após esfregar os olhos. - Aonde vai?
- Não muito longe daqui.

Achei bom não dizer onde exatamente iria e o que faria, mas não senti que aquilo fôsse errado. Sabia que mais cedo ou mais tarde ele me perguntaria.

- Você vem treinando uma única música no violino. Estive reparando. - Ele sorriu. - Também, ficar de molho quer dizer: você passar a se deleitar cada vez mais com os sons ao seu redor, isso sem falar nos livros que você acaba pegando para ler.
- Achava bom? - perguntei com entusiasmo.
- Sempre achei esplêndido a maneira como você toca.
- 'Esplêndido' - repeti, baixado o rosto - Mamãe disse essa palavra à mim a vida toda, quando acabava de tocar algo no violino. Até mesmo quando errava algumas notas.
- Já se faz dois anos.

Aquelas palavras pairaram em minha cabeça por um breve momento, pois me lembrei de não demorar ali.

- Preciso ir, Drake - disse, apagando uma lágrima que caía. - Vai ficar bem?
- Vou. - Ele sorriu. - E você?

Assenti forçando um sorriso.

- Então leve as flores com você.

Eu olhei para ao redor.

- Onde estão?
- Jennifer deve as ter deixado na porta entrada como lhe pedi.
- Quem é Jennifer? - perguntei, pondo a mão na maçaneta.
- Uma florista. Liguei para ela ontem de manhã.
- Como soube onde iria?
- Ultimamente você vem frequentando demais o cemitério. Mas não foi só por isso que eu supôs que você iria lá hoje. Se faz dois anos, desde a morte de nossos pais. E a música? - ele hesitou, mas logo continuou: - Não é Beethoven, é?

Sorri espontâneamente negando. Por fim, deixei que a porta fechasse a minhas costas.
Desci as escadas e passei pela sala ainda abafada por não estar com as janelas abertas, destranquei a porta e me deparei com um lindo e pequeno ramo de rosas amarelas num lindo vaso de vidro.
Agora estava pronta para ir, até me lembrar de voltar a subir as escadas para apanhar o violino.
Retirei as flores do vaso e as prendi na garupa da bicicleta, pois, por sorte, a bicicleta de Drake estava lá no mesmo lugar da garagem onde eu vira da última vez.
Hestitei em onde pôr o violino, até me dá conta que a alça da capa ajudaria se pendurada no guidom. Sendo assim, segui até o portão.
O ar frio e úmido que pairava aquela manhã fora efeito da chuva que caíra na noite anterior. Era meados de primavera, mas o inverno se fazia presente na maior parte do dia.
Pensei em voltar e pegar um casaco, mas resolvi não voltar. Geralmente aos domingos o cemitério costuma a ser mais frequentado do que o resto da semana, e geralmente por pessoas que acabam de sair das igrejas.
Montei na bicicleta e senti, ao pedalar, que minhas mãos cogelariam aos poucos. Estava muito mais frio do que eu havia imaginado, mas assim fora.
O vento cortara meu rosto levemente durante todo o trajeto, enquanto o sol se escondera em boa parte dele.
Nas ruas o silêncio era quase que  ouvido, excepto pelos pássaros que sempre cantavam alegremente naquela estação e o balançar das árvores, que vezes sim vezes não, deixavam as folhas secas caírem e serem levadas e trazidas pelo vento.
Embora pequena, Vintage, ainda era uma das cidadezinhas, do sul da Carolina do Norte, mais visitadas pelos turistas durante o verão. E não era só pelo clima agradável, belas paisagens e hotelarias viáveis, acreditavam que aquele lugar era um refúgio perfeito; e ainda é.
Estava há poucos metros do cemitério quando vi um rapaz ruivo de sobretudo deixando o lugar e entrando num lindo carro preto de luxo, qual ele não dirigia. Decidi reduzir a velocidade da bicicleta até o carro dobrar a esquina.
Me senti insegura naquele momento.
Poderia ter ainda alguém ali.
Decidi deixar a bicicleta atrás de uma árvore, há poucos metros do cemitério, e retirar da garupa as flores, e do guidom o violino.
Senti que o vento frio continuava, só que não tão forte quanto antes.
Atravessei a rua rumo ao portão de entrada. Estava destrancado.
Sondei quase todo o cemitério, com cautela, para ter a certeza de que não havia alguém por ali. Por mais que só estivesse deixando flores ou fazendo qualquer outra coisa, não podia deixar que me visse.
A grama estava muito molhada. Meus tênis ficaram bastante sujos de grama e terra molhada. Mas aquilo não era relevante.
Uma parte do sol saía de dentro das nuvens quando deixei de lado a preocupação de estar sendo notada e me guiei até o sepulcro onde se encontra mortos meus pais. Senti que pouco me aqueceria, mas isso já era o bastante para quem já quase batia os queixos.
Fechei os meus olhos por um momento quando senti que as lágrimas já os inundavam.
Assentei as tulipas, com esmero,  sobre o sepulcro e retirei da capa o lindo violino que meu pai me dera quando decidi entrar para a banda da escola. Havia se passado seis, desde então, mas sabia que o levaria comigo pelo resto da minha vida. Tê-lo comigo, assim como o vestido, é como ter um pedaço da vida que eu levara. Significa muito para mim.
Naquele momento meus soluços se confundiam aos acordes mal executados. Sentia cada vez mais forte a vontade de chorar. Era como se eu tivesse contido aquele momento por muito tempo. E simplesmente soube que de fato era.
 Ao terminar de tocar, senti que minhas pernas se enfraqueceram subitamente (talvez por causa de não ter me alimentado aquela manhã). E quando senti uma imensa vontade de desfalecer, apoiei-me sobre o sepulcro.
Para não deixar o violino ser prejudicado pela minha vertigem, o coloquei na capa, novamente.
Apoiei-me novamente sobre o sepulcro, quando senti que alguém, a minhas costas, envolvera seu corpo contra o meu.
Num impulso, obriguei-me a afastar meu corpo de quem quer que fosse quem me segurara. Para minha surpresa, quem estava ali era o rapaz que eu havia visto saindo do cemitério.

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⏰ Última atualização: Oct 22, 2016 ⏰

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