Eu estava em casa quando a notícia deu seu primeiro indício, estava esperando por ela na verdade, eu já disse que nós tínhamos meio que nos separado né? Então, depois daquele telefonema de reconciliação ela disse que voltaria, e eu preparei tudo pra ela, arrumei a casa, eu fiz a comida favorita dela pro almoço, cheguei até mesmo a estranhar a demora, liguei pra ela mas ela não atendia, achei que ela tivesse esquecido o celular no apartamento ou algo do tipo, voltado pra buscar e por isso ainda não tinha chegado, a verdade nunca teria passado pela minha cabeça, eu estava feliz demais pra pensar em qualquer coisa que não fosse ter que deixar tudo perfeito pra ela.
Quando a mãe dela me ligou eu cheguei a ficar um pouco preocupado, mas me agarrei a possibilidade de ela estar na casa da mãe. Infelizmente se agarrar a algo não magicamente faz com que aquilo se torne realidade, mas ainda assim minha recém ex-sogra não me disse nada importante, ela nem sequer chorava, somente pediu para que eu fosse até a casa dela, eu juntei toda a esperança que eu tinha e me convenci de que ela queria conversar comigo e a Natalie, sei lá, ela não estava chorando, eu me senti no direito de realmente acreditar nisso.
Deus, eu me lembro daquele dia como se fosse hoje, eu poderia reviver isso com detalhes agora mesmo. Quando eu cheguei na casa da mãe dela aí sim ela estava chorando e eu me mantive tão firme quanto pude, esperando que ela dissesse aquilo que durante o percurso da minha casa até a dela já havia passado pela minha cabeça milhares de vezes. "Tom, eu preciso que você me leve ao hospital", aquela mesma ponta de esperança de antes cresceu, quer dizer, ela ainda poderia estar bem, certo? Certo, não é? Foi no que eu acreditei.
Eu guiei a mãe dela até o carro e seguimos para o hospital, foi difícil não chorar e mais difícil ainda foi vê-la chorando o caminho todo sem poder fazer nada. Como a Natalie estava grávida de quase oito meses eu acredito que ela não poderia ser enterrada assim de qualquer forma, então a única certeza que nós tínhamos era que eles tentariam salvar o Caliel, numa outra ocasião eu explico o nome dele, bom, eles tentaram, mas sem sucesso, Natalie teve morte cerebral, o médico disse que ela não sofreu muito, Caliel chegou a viver por algum tempo, no dia foi impossível dizer se eram minutos ou horas, meu menino era forte e lutou pelo ar que respirava até o último minuto da sua hora e quarenta e sete de vida, ele queria viver e eu queria mais do que tudo ele comigo, mas nada saiu como nós esperamos.
O velório foi o dia mais triste de toda a minha vida, eu fiquei lá sentado entre minha namorada e nosso filho por horas, morto. Sem chorar, sem receber um "meus pêsames" sequer, eu não respondia ou reagia a nada, e continuei assim por muito tempo. Não olhava para os caixões, não fazia nada além de devanear sobre a vida que nós teríamos, desejando que tudo aquilo fosse uma grande piada do universo, um pesadelo, qualquer coisa que não a verdade. Muitas pessoas antes e depois disso me disseram que o enterro era a pior parte porque era o "adeus definitivo" já que você nunca mais volta a ver o rosto da pessoa depois disso; mas eu não acho que exista uma pior parte, quer dizer, foi horrível do começo ao fim, você pode estar vendo o rosto no velório, mas você não sente o cheiro, o calor, o toque, o olhar, nada, é como ver a foto mais melancólica que alguém poderia tirar. E ver o seu filho assim é ainda pior, principalmente quando não há nenhuma outra foto para se lembrar, eu tenho várias memórias da Natalie, de todos os jeitos possíveis, sorrindo, chorando, bêbada, sóbria, dormindo, pulando de paraquedas, e por fim a da foto melancólica, mas a única lembrança que eu tenho do Caliel é ele chorando e lutando pela vida que nunca chegou a ter completamente, e fora essa ele parado, dormindo como o Anjo pelo qual foi nomeado, gelado e distante, nunca alegre e cheio de vida como a criança que nós esperávamos, toda vida que ele tinha pela frente se foi naquele momento, e por muito tempo eu pensei que a minha tinha feito o mesmo.
